Crianças ficam com fome, debaixo de forte chuva e entidades culpam Incra e Iterma pelo conflito na área
Um dia de terror. Foi assim que os agricultores familiares que residem e trabalham, há quatro anos, no assentamento Santo André, próximo ao povoado São Benedito, a cerca de 30 quilômetros de Zé Doca, classificaram a ação dos policiais e jagunços, na manhã do último dia 29 - terça-feira.


De posse de uma ação de despejo, autorizada pelo juiz Francisco Ferreira de Lima, da Comarca de Penalva – que faz limite com Zé Doca, policiais e jagunços de Joaquim Antonio Serrão (filho da ex-prefeita de Pedro do Rosário, Maria do Rosário Serrão Martins, e que se diz proprietário da área) derrubaram e queimaram todas as 17 casas de taipas, casas de forno e do poço construídas pelos assentados há cerca de quatro anos. Eles também destruíram plantações de bananas e hortaliças, humilharam senhoras e deixaram todos – inclusive crianças e mulheres grávidas – com fome e debaixo de forte chuva.
No assentamento residiam 26 famílias (mais de 100 pessoas, entre adultos e crianças), desde novembro de 2004, numa área de 400 hectares que a própria equipe de regularização fundiária do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) que atuam na região de Zé Doca garantiu aos assentados pertencer à União.
Humilhação e fome - Era por volta de 11h da manhã, chovia muito, quando os assentados foram surpreendidos pelos policiais e capangas. “Eles foram chegando, gritando e nos expulsando, sem dá tempo da gente tirar alguma coisa das casas e de trocar a nossa roupa”, disse um tanto envergonhada, Maria de Lourdes Marques da Luz, que foi humilhada pelos policiais. Ela encontrava-se quebrando coco quando eles lhe abordaram. Pedindo para entrar em casa e trocar suas vestes – que estavam rasgadas, eles não permitiram. “Mandaram eu trocar de roupa ali mesmo, na frente deles”.
Maria Antonia Simão, grávida de oito meses, teve que ir acompanhada de policiais até o brejo “para pegar as minhas roupas que estavam lá”. Ela e Eliane Pereira eram as únicas que estavam com comida pronta na hora do despejo. “Quando voltei do brejo, a comida não estava mais na panela. Eles tinham comido uma parte e derramado o restante, deixando nossas crianças com fome e com febre, debaixo da chuva”, contou ela. Eliane, ao defender os cachos de bananas que foram cortados e estavam sendo levados pelos jagunços, foi ameaçada por Keila, esposa do vaqueiro Zezinho – que toma conta da fazenda de Joaquim Serrão. “Ela apontou a arma (um revólver calibre 38) para mim e só não atirou porque foi impedida por um dos jagunços”, denunciou Eliane.
Os três filhos de Elisângela da Silva e os dois de Guilherme Antonio Alves, todos pequenos e que estavam com febre, pneumonia e diarréia na hora do despejo, tiveram seus sintomas agravados após ficarem na chuva. Luiza da Silva Sousa, 52 anos, nove filhos que estavam fazendo tratamento de ‘colo de útero’ em Zé Doca, encontra-se em estado nervoso, fraca (devido os dias de fome) e sem assistência.
Negociação – O Sindicato de Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais (STTR) de Zé Doca e a Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado do Maranhão (Fetaema) já acionaram suas assessorias jurídicas para encontrar uma solução para o conflito. O STTR, por exemplo, entrou com uma contestação da ação, solicitando que a Justiça possa ouvir a direção do Instituto de Terra do Maranhão (Iterma) – que titulou, em 2006, a área com conflito social e agrário já instalado em 2004 –, e o Incra, que garantiu transformar a área em assentamento.
O presidente do Sindicato, José Raimundo Mendonça (Cabeçinha), tenta negociar com o fazendeiro Joaquim Serrão uma trégua de no mínimo 60 dias, sem a presença de capangas na área, para que os assentados façam a colheita do arroz que sobrou, e a retirada do gado das áreas de lavoura. “Nesse período vamos analisar a proposta do fazendeiro sobre uma outra área para instalação do assentamento e cobrar do governo ou do fazendeiro tudo aquilo que for considerado prejuízo pelos moradores da área”, acrescentou.