OS BANDOLEIROS DE ALFONSO CANO
RIO - Na esquina da rua estreita, aparece uma passeata desesperada. Bonita e feroz. São 300, 500 jovens andando rápido, quase marchando, cantando, gritando slogans, aos pulos, os rostos cobertos com lenços e todos com armas na mão: revólveres, pistolas de cano mais longo, granadas.
De repente, o Exército. Dois carros blindados com seus fuzis e metralhadoras na altura do peito dos jovens e algumas dezenas de soldados atrás. Eles pararam, apontaram, calaram. Os jovens pararam, apontaram, calaram. Menos de um minuto de silêncio e pavorosa tensão. Na calçada, atrás das pilastras, jornalistas e fotógrafos. Um avança, a máquina no rosto.
"Não vá, que eles vão atirar!"
"Não vão atirar. Não há ordem."
Havia. Começou o tiroteio. Uma explosão de balas e gritos.
EL SALVADOR
Como os outros, pulei para a beira da parede, atrás de um canto do edifício, estirei no chão, sobre o passeio. Ao meu lado, o fotógrafo, deitado, a máquina no nariz, as mãos trêmulas, fotografando. Os jovens, todos de pé, gritando, atirando e caindo. E os blindados atirando, com seus peitos de aço, as costas largas, atrás das quais os soldados se protegiam e atiravam.
Pareceu um tempo sem fim, mas não durou mais de cinco minutos. As bocas das metralhadoras disparavam, as balas zuniam no chão, ali ao nosso lado, e os rapazes e moças, de pé, caindo como árvores cortadas.
ESTRELAS CAÍDAS
Inesquecível a cara de horror da menina de cabeços bem negros por baixo do lenço azul tapando-lhe a cabeça e o rosto. Atirava de pé, com seu revólver miúdo, bem perto de mim, quase me pisando. A bala bateu-lhe no peito com tal força que ela subiu mais ou menos um metro, voou para trás, o sangue explodindo como um foguete de lágrimas de São João e ela arrebentando-se no chão, a cabeça para cima, os olhos esbugalhados.
A Cruz Vermelha contou: mais de 40 mortos e 200 feridos. Todos entre 15 e 25 anos. Estatelavam no asfalto em sangue e luz, na enlouquecida manhã de domingo. Como desesperadas estrelas caídas.
CARACAS
Era outubro de 79, em El Salvador. A ditadura do general Humberto Romero, que logo depois assassinaria o heróico arcebispo também Romero, ensangüentava o país inteiro. Sem saída, os jovens foram para o desespero. Eram a FMLN (Frente Farabundo Marti de Libertação Nacional), o ERP (Exército Revolucionário do Povo), o BPR (Bloco Popular Revolucionário), entre outros.
Eu estava voltando da 1ª Conferência Internacional sobre o Exílio, em Caracas, onde se discutiu uma saída política para o martírio da América Latina. Lá estavam, entre tantos outros, Julio Cortázar, da Argentina, rosto de menino e mãos de elefante; padre Ernesto Cardenal, da Nicarágua, ministro da Educação e Cultura da Frente Sandinista, que acabava de derrotar Somoza; Guilhermo Torriello, ex-embaixador da Guatemala na ONU; Napoleão Duarte, da Democracia Cristã, aliada da UDN (União Democrática Nacionalista, o Partido Comunista de El Salvador); líderes da guerrilha de esquerda da Venezuela; e um barbicha bem jovem, Alfonso Cano, brilhante antropólogo mal saído da Universidade da Colômbia para as Farc, com quem conversei muito sobre Colômbia, EUA e Brasil.
COLÔMBIA
Agora, vejo nos jornais que, com a morte dos dois mais importantes líderes das Farc (Manuel Marulanda Vélez, o "Tirofijo", e Afonso Reyes), assumiu o comando o antropólogo barbicha de outubro de 79 em Caracas, Alfonso Cano.
Há uma grande diferença. Em 79, quase toda a América Latina estava esmagada por brutais ditaduras militares, do Chile ao Brasil. Os povos, sobretudo a juventude, não viam outro caminho senão a luta armada. Embora derrotadas uma a uma, as guerrilhas tinham força e justificativa moral, porque brigavam pela lei, pela liberdade, pela Nação.
Hoje, por mais que se desaprove o governo colombiano-americano de Álvaro Uribe, na Colômbia, ele foi eleito pelo povo, depois reeleito.
Por isso, as Farc se transformaram em um punhado de bandoleiros assassinos repudiados, que se mantêm à custa de seqüestros e cocaína.
Se o barbicha Alfonso Cano "der o cano" na esperança do fim da guerrilha e se negar a negociar a volta à paz na Colômbia, é bom que logo também morra como os outros, de bala ou faca, como dizia Lampião.
ZECA-MORTE
O tsunami de cerveja que está inundando o país, numa pororoca indecente e criminosa de propaganda, dia e noite, nas TVs, rádios, revistas e jornais, envolvendo a mais jovem juventude, todas as horas e todos os dias, até com "Zeca-feiras", onde "para ser bom brasileiro tem que ser bom brameiro", vai confirmando o justo receio e as lúcidas denúncias do ministro Temporão: as mortes por bebedeira dobraram no último feriadão.
E a Abape, coveiramente, usando a Constituição para faturar a morte.
CRIVELA
Não vai ser por falta do dizimado dinheiro da Igreja Universal do titio Edir Macedo que o senador Crivela terá problemas em sua candidatura à Prefeitura do Rio. O contrato com Duda Mendonça, para assumir o comando da assessoria, TV, rádio e imprensa da campanha, foi fechado por R$ 14 milhões. Supõe-se que, ao contrário do PT, pago aqui dentro.
(www.sebastiaonery.com.br)