EdsonVidigal
O bom político hoje em dia, diz-se por aí, não é o que trabalha sob a inspiração das grandes idéias, querendo vitoriosas pelos embates democráticos as aspirações populares, mas sim o que friamente apenas persegue resultados.
Consola saber que com o tempo, se não tomarem jeito, na medida em que forem sendo mais conhecidos e, por isso mesmo nada surpreendentes, logo ganharão mais visibilidade, mas como o bode na sala.
O nosso herbívoro ruminante, de tão bom animador de pastos baldios e também de quintais, bem que não merecia ser comparado com gente tão hipócrita. Mas o que fazer quando a lenda incorpora a personagem através dos séculos?
Antes de se tornar metáfora política, o bode sobreviveu como espécie não porque fosse abençoado, mas ao contrário porque caiu na listagem do Velho Testamento dentre as carnes proibidas para o cardápio judeu.
Lendo com calma vamos notar uma certa contradição. Ora, se o carneiro, ou cordeiro, é um herbívoro, por que o bode, que também é parente do carneiro, talvez um primo não muito distante, foi tão discriminado?
As pessoas rezam – cordeiro de Deus que tirai os pecados do mundo e quanto ao bode o que se sabe é que ele até serve para os rituais de magia negra nas cercanias do Calhau, do Lago em Brasília, e do Codó. Espalha-se sempre a onda de que o bode não toma banho, fede muito, e que serve também para ser comparado aos políticos indesejáveis.
De outra parte, o bode é usado também para denominar a pessoa injustamente colocada numa situação na qual todos a atacam e, assim, desviando atenções de algum cenário moralmente devastador e sobre o qual, pela estratégia dos poderosos, ao povo em geral não interessa saber. É quando o chamam de bode expiatório.
No mais antigamente, se uma coisa não prestava a culpa era do bode. Aí agarravam o primeiro herbívoro ruminante, berrante e espalhafatoso que encontrassem, e o levavam para o deserto onde o abandonavam para expiar suas culpas. As pessoas acreditavam que, assim, estavam livres de todos os seus pecados. Ou seja, elas pecavam e o bode é que pagava o pato, e no deserto.
Você sabia que dentre todos os herbívoros ruminantes o bode é o que tem o maior tubo digestivo? Eu também não sabia. E agora entendo porque ele é resistente à seca, é porque come tudo de tudo, sem perder o humor. O bicho, em tudo, é muito espalhafatoso.
Em política, sempre que se pretende alcançar um objetivo polêmico, busca-se diluir a controvérsia inventando um bode. São propostas inimagináveis, mas que causam tanta repulsa a ponto de as pessoas de tão emocionadas quase saírem aos tapas.
Há quem sustente que essa metáfora do bode na sala começou como parábola na China, e tem bode lá? Mas ha também quem a descreva como algo da sabedoria política nordestina.
Mais ou menos assim.
O camarada reclamou ao companheiro que sua vida em casa estava um inferno, sabe aquela coisa de mesa em que falta comida, todos brigam e ninguém tem razão?
Aí o companheiro perguntou, você cria um bode e o camarada disse sim. Então, camarada, leva o teu bode para a sala. Ele levou e não deu outra, reação de todo mundo, o bode espirrava feio, exalava um mau cheiro infernal, a situação só piorou.
O camarada aborrecidíssimo procura o companheiro, ó cara você é meu amigo ou amigo da onça? Por que? Ora, você me aconselha a botar o bode na sala e a minha situação lá em casa só piorou. Dando uma de guru, responde o sábio companheiro, tira o bode da sala e depois me volta aqui.
Dias depois o camarada voltou, e aí, quis saber o companheiro. Deu certo, respondeu. O bode causou tanto problema que até esquecemos os outros, e agora que não está mais sala está tudo bem.
Quando se diz sobre uma situação que vai dar bode é porque o que vem por aí pode ser infernal.
Na feira do Coroado encontrei uma cartomante, dessas que garantem tudo, até a volta da pessoa que saiu raivosa aos braços da amada, e eu então lhe perguntei, que tens a me dizer comadre?
Ela quis saber, sobre essa política aí de vocês? Também, respondi. Ela disse, ih tem tudo para dar bode, e já tem bode demais na sala.
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Edson Vidigal, ex-presidente do STJ, professor de Direito na Ufma, escreve para o Jornal Pequeno às quintas-feiras.