Situar cronologicamente o Jornal Pequeno, fixá-lo entre as principais datas de uma História que contou e em muitos momentos até desafiou, no arsenal do tempo inexorável e impiedoso, é um pouco mergulhar nas luzes de gerações que se sucederam na luta contra todas as tiranias.
O Jornal Pequeno surgiu na década de 50 para se tornar, quase inadvertidamente, a trincheira histórica da resistência maranhense aos governantes que se sucederam pela via do coronelismo autoritário e impune. Sobra do caudilhismo e do caciquismo, o coronelismo vicejou na República Velha, estimulando oligarquias sustentadas no analfabetismo dos povos, na fraude, no voto de cabresto e na violência oficial. Tudo o que inesquecíveis nomes do jornalismo maranhense, como José de Ribamar Bogéa, Durval Cunha Santos, Othelino Nova Alves, Neiva Moreira, dentre outros, tiveram que combater em nome e em defesa da liberdade.
O Jornal Pequeno não ouvia isso, mas a década de 50, enquanto dá origem no Brasil à era industrial, é também a era das grandes mudanças gráficas e editoriais na imprensa do país. Com ela, esteado nos periódicos norte-americanos, o Brasil toma conhecimento da lead e da pirâmide invertida e o jornalismo como empresa passa a ocupar espaços no mundo capitalista. Mas o jornalismo romântico, ideológico, apascentado pelos ideais de Justiça, Igualdade, Fraternidade, heranças da Revolução Francesa de 1789, mantém-se intacto nas páginas do JP.
A década de 60, marcada pelo golpe militar de 1964, vem referendar as oligarquias nordestinas, entre elas a nascente no Maranhão. E encontra no Jornal Pequeno uma Bastilha inexpugnável de resistência ao servilismo dos que se apoiaram no regime de excessão, no arbítrio institucional, para prosperar politicamente e fazer do Maranhão um feudo para seus propósitos de enriquecimento ilícito e pessoal.
Na década de 70, os filhos da geração de Ribamar Bogéa, Othelino Nova Alves, Durval Cunha Santos, dentre outros, são universitários e enfrentam a ditadura. O jornalismo, como a literatura, assume uma outra função ideológica, mais grave e mais difícil; a de salvar a liberdade de expressão e de pensamento, sacrificada, também pelos sicários civis do regime militar.
A década de 80, para muitos a década perdida, exacerba a dependência externa do Brasil e o aprofundamento das desigualdades sociais. Em 1989 cai o muro de Berlim e logo em seguida, 1991, a União Soviética se desintegra. As utopias artísticas e políticas de toda uma geração parecem fadadas ao linchamento, mas no Brasil as lutas pela redemocratização e pela volta do estado de Direito tomam fôlego, sustentadas em campanhas anteriores, como “Anistia Ampla, Geral e Irrestrita” (final da década de 70) e “Diretas Já”, nos anos 80.
Vistoriar as páginas dos jornais maranhenses que circularam nesses períodos mostrará como enfrentamos, dia-a-dia, do vitorinismo ao sarneisismo, da censura prévia ao capitalismo selvagem, sem colaboracionismo com a propaganda oficial que sustentou regimes e esquemas políticos no Brasil e no Maranhão.
Quase seis décadas depois, o Jornal Pequeno permanece na mesma trincheira, na luta contra o autoritarismo, a tirania e todas as tentativas de poder vitalício no Maranhão e no Brasil.
Eis aí uma História que nesse Estado, por maiores que sejam os esforços e por mais virulentas que sejam as perseguições judiciais, ninguém vai conseguir mudar.