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26 de maio de 2008
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Salmo 94

Eudes oliveira de Alencar

eudesalencar@hotmail.com

“Nos muitos cuidados que dentro em mim se multiplicam, as tuas consolações me alegram a alma.” (Sl 94.19 – ARA)

Não há quem, uma hora ou outra, não seja acossado por pensamentos que se repetem em círculos, resultado de temores que se carrega pelo simples fato de se estar vivo. Lógica simples, quase pueril. Quem está vivo, tem problemas. A questão é como se reage a eles. Existem milhares de livros escritos dando fórmulas que prometem resolver esta encalacrada situação, mas falham vergonhosamente, menos com o escritor, que se tem sorte ganha uns bons trocados, tal o número de pessoas às voltas com tantos enleios mentais. E esta população só cresce.

Pode-se dizer, aí está o nascedouro de uma legião de obsessivos-compulsivos que são aqueles que não conseguem sair da ciranda de pensamentos repetitivos, aflição que procura remediar tomando mil cuidados, numa tentativa desesperada de controlar o imponderável ou nem tanto, tal é o nível de ansiedade a que estão submetidos. Foram capturados por uma armadilha mental que funciona em forma de looping.

A leitura do salmo 94 revela um homem em suspense. Nos dez primeiros versículos ele se mostra perplexo com a maldade humana e com a incapacidade dos maus de perceber que eles não estão sozinhos num mundo sem lei nem rei. Esta é a incógnita com que se debate. Na segunda parte, o salmista reconhece que há uma lei maior representada pela justiça de Deus que, para ele, se me é permitido pensar assim, não é só alguém para além da realidade presente. Foge assim de algo parecido a uma esperança rota de que haverá justiça um dia e se alguém crê nisso, é mais pela força do desencanto e necessidade de amparo em algo superior, como costuma acontecer com os que foram estropiados pela injustiça humana. Na terceira parte ele inclui seu povo como alvo da justiça de Deus e por fim, inclui-se ele mesmo como alguém que será objeto de proteção e escape.

Qual seria a diferença entre este homem que sabe que, mesmo multiplicando-se suas preocupações e assombro, haverá consolações que o alegrem; e aqueles que foram congelados na agonia das preocupações e, portanto, neste estado, são incapazes de qualquer alegria?

A primeira questão, e esta é basilar: o salmista tem fé em Deus. Já sei, alguns leitores dirão: Eu também tenho ‘muita’ fé em Deus. Com fé quero dizer relacionamento, conhecimento – naquilo que é possível -, não sobre Deus, mas dEle mesmo, porque experiencia segui-LO. A fé verbal, acostumada, mansa como um cachorro enrodilhado num canto da casa, intelectual, parece não servir neste e em muitos outros casos.

“O que fez o ouvido, acaso, não ouvirá? E o que formou os olhos será que não enxerga?” (vers 9) Estas duas perguntas revelam uma crença em um Deus presente, que intervém na história humana, interessa-se pelos destinos dos homens, é partícipe ativo na condução do mundo, embora equilibre de forma, para nós, muitas vezes insondável, seu poder e a liberdade que empresta aos homens, inclusive aos maus. A fala do salmista revela uma fé que está longe de ser deísta. Acredita, mas não consegue conceber a relação pessoal com Deus, supõe que não há, na verdade, como alcançá-Lo e se por fim, Ele existir mesmo, está num plano tão superior que seríamos incapazes de qualquer contato. O salmista arremata, depois de incluir nações e pessoas sob o olhar perscrutador divino: “O SENHOR conhece os pensamentos do homem, que são pensamentos vãos.” (vers 11)

Uma segunda questão. Aquela fé que tem o salmista não se reserva para os dias santos e festivos na igreja. Ela é um instrumento de aprendizado, de educação e fortaleza diários. Quer dizer, sua fé está imbrincada na vida comum sem que possa perceber espaços onde ela não seja útil e necessária. Assim diz ele: “Se não fora o auxílio do SENHOR, já a minha alma estaria na região do silêncio.” (vers 17) Fala isso a respeito de perseguições reais e de pessoas concretas da qual foi vítima. Fala, portanto, de uma fé manifesta historicamente, em sua história pessoal, fé conectada.

E uma terceira razão que serve como proteção ao resvalo das tristezas sem remédio, do desvario dos pensamentos recorrentes inquietantes sobre tantas áreas da vida, é estabelecer uma relação de dependência e confiança com Deus. Somos vítimas, às vezes, inconscientes, da pretensão de resolver o que for, ou nem isso. Se somos vencidos diante de uma dificuldade, cria-se uma areia movediça na qual nos debatemos acreditando que pela insistência o problema será resolvido, noutros casos afunda-se sem mais. Na verdade é só um debater desesperado gritado ou em silêncio.

O salmista estabelece um limite para si. E olhem que não era qualquer um, era um rei vencedor, guerreiro destemido. E assim ele diz: “Mas o SENHOR é o meu baluarte e o meu Deus, o rochedo em que me abrigo.” (vers 22) Há coisas (muitíssimas) que não conseguimos resolver. Há ameaças contra as quais não se pode lutar. Há terrores maiores que nós. Há maldade para além de nossas forças. Em razão e por causa disso tudo, abrigar-me-ei em Deus, pensava o salmista.

Não desejo passar fórmula pronta. Aqui estão princípios, passíveis de serem seguidos por qualquer um. Há, entretanto, condições. Não se realizam com a religião. Não funcionam no varejo como se pudessem utilizar uma peça e ao bel prazer, outra noutra situação. Não são desmembráveis. Pedem entrega irrestrita. E quão difícil é fazê-lo! Funcionam apenas no contexto da sincera dedicação a Deus – nem sempre em paz, nem sempre sem dúvida, nem sempre desarmado –, o que inclui encontrá-Lo diariamente, aproximar-se e deixar-se em reverente espera – não sem fazer aquilo que lhe cabe no que diz respeito a cada coisa.

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