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Senador Jefferson Péres e o encontro que não aconteceu

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Data de Publicação: 25 de maio de 2008
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Opinião

Bruno Pires Castello Branco*

Lembro-me com clareza quando, atento a uma das sessões plenárias transcorridas no Senado Federal, determinada figura, em minha nota, até o momento desconhecida, dominou a atenção no evoluir de um caloroso debate travado sob o reluzente carpete azul daquele recinto. Seu nome era Jefferson Péres, senador recém eleito no cumprir do segundo mandato pelo estado do Amazonas.

Homem de físico frágil, expressão concentrada e voz pausadamente equilibrada, de modo que alguém ao dispensar olhar desatento poderia facilmente confundi-lo com uma espécie de monge tibetano portando terno e gravata, tal era sua aparência sóbria e pacata. Contudo, quando no uso da tribuna ou na defesa de seus ideais, daquele pequeno homem emergia um verdadeiro guerreiro da moralidade e intransigente defensor da transparência e probidade em todas as esferas da administração pública nacional, era, portanto, dos mais valentes espadachins da ética na política brasileira contemporânea.

Desde então, acompanhar a atuação parlamentar do ilustre senador passou a ser freqüência em minha rotina. Cito como marcantes sua emblemática renúncia ao cargo de presidente da Comissão de Ética e Decoro Parlamentar do Senado Federal, em insurgência as inaceitáveis absolvições concedidas a parlamentares de maculada conduta, a luminosa defesa pela redução do número de congressistas, bem como o brilhante relato do Projeto que originou a Lei de Responsabilidade Fiscal, possibilitando o eficiente controle financeiro na aplicação dos recursos públicos.

Parlamentar de postura independente, suas opiniões eram sempre aguardadas e atentamente refletidas entre seus pares. Não titubeou em abandonar o ninho tucano por discordar do repertório ideológico alicerçado no governo do presidente Fernando Henrique Cardoso. Posteriormente, mesmo filiado na doutrina brizolista, nunca hesitou em fincar posições contrárias àquelas adotadas por alguns membros de seu partido, sendo que o fato de pertencer ao PDT, partido da base do governo, nunca inibiu seus ácidos discursos contra certas incongruências produzidas na administração do presidente Lula.

O frescor da ocasião me faz lembrar certa vez, em Brasília, acompanhando meu querido avô Benedito Pires, à época vereador em São Luís, quando da posse do então ministro Edson Vidigal na presidência do Superior Tribunal de Justiça, o sopro dos ventos áridos do cerrado associado à rebeldia dos meus vinte anos – fase de inquietudes hormonais e ideológicas – me levaram ao prédio do Senado Federal com o firme objetivo de conhecer aquele que, para mim, tornou-se um ícone de dignidade e coerência no exercício da função pública, requisitos estes tão desobedecidos nos dias de hoje, sobretudo, por muitos detentores de mandato eletivo.

Adentrando em seu gabinete, nervoso, mas sem pestanejar, explanei ao seu assessor o interesse em conhecer o senador de quem virara efusivo simpatizante. O auxiliar surpreso, talvez por minha origem maranhense ou pela pouca idade facilmente detectada, tratou de agendar imediatamente um horário de cortesia na apertada agenda logo para o dia seguinte.

No entanto, a ânsia pelo encontro duraria pouco. Algumas horas depois, recebi um telefonema do gabinete do Senador Jefferson Péres me informando que seu vôo havia sido cancelado em Manaus – talvez um prenúncio do caos aéreo seguido poucos anos depois – de maneira a impossibilitar seu regresso ao Planalto Central, sendo assim, a aguardada ocasião seria remarcada para semana vindoura. Ocorre que meu retorno para São Luís se daria no dia seguinte, frustrando assim, o desejado momento.

Deste modo, o encontro não aconteceu. Não estava ali com nenhum objetivo especial, nem menos movido por algum tipo de interesse pouco republicano tão comum naqueles corredores. Esperava apenas um cumprimento, um mero conselho ou talvez até um singelo diálogo permeado de lucidez democrática.

O fulminante desaparecimento do Senador Jefferson Péres acarreta profundo abalo ao corroído pilar ético da política brasileira. Espero, portanto, que o espólio moral legado pelo bravo parlamentar amazonense seja partilhado aos que aqui ficam de modo a inspirar todos os homens públicos regedores de nossa promissora nação.

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