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‘Não me acostumo com a classe política’, disse Péres em entrevista

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Data de Publicação: 24 de maio de 2008
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Sempre lembrado como uma das poucas referências éticas do Senado, o senador Jefferson Péres, morto na manhã de ontem em Manaus, estava desiludido com a política brasileira. Em entrevista ao site Congresso em Foco, publicada em junho do ano passado, o líder do PDT anunciou que não pretendia concorrer a um novo mandato e que se incomodava com o baixo nível dos políticos brasileiros.

“Eu me sinto muito constrangido. Estou encerrando minha carreira política. Não quero mais voltar pra cá. Podem me chamar de fulo, o que quiserem, chega. São 16 anos de Senado, basta. Não me acostumo com a classe política”, desabafou. “Os mais humildes olham para isso e se perguntam: por que vou ser honesto se lá em cima não são?”

O senador afirmou que se sentia gratificado em ser apontado, ao lado dos senadores Pedro Simon (PMDB-RS) e Eduardo Suplicy (PT-SP), como figuras éticas, mas que, ao mesmo tempo, sentia-se entristecido com a classificação. “Isso me gratifica muito. Mas, por outro lado, me entristece. Duas ou três referências éticas entre 81 senadores? Onde já se viu isso?”

No calor da crise detonada pela denúncia de que o então presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), havia tido despesas pessoais pagas por um lobista, Jefferson lamentou o “apequenamento” do Congresso, por causa da sucessão de escândalos e do excesso de medidas provisórias.

Decadência – Para ele, o Legislativo havia sido reduzido nos últimos anos a um subpoder. “Quais são as três funções básicas do Congresso? Primeiro, legislar. Quase não legisla mais, pois quem legisla é o Executivo, por medidas provisórias ou projetos enviados ao Congresso. A função de legislar se apequenou. A função de fiscalizar se desgastou. O povo não vê o resultado das CPIs. A terceira função, de ser caixa de ressonância de debate, deixou de ser. Fora os escândalos, a população não se interessa pelo que ocorre aqui. O Legislativo está apequenado. É um subpoder no Brasil.”

Pedidos de cassação – Péres ganhou projeção quando pediu a cassação do senador Luiz Estevão (PMDB-DF), acusado de envolvimento no desvio de R$ 169 milhões da obra do TRT de São Paulo. Estevão é o único senador cassado pelo Senado até hoje.

Também como relator do Conselho, em 2006, Péres pediu, sem sucesso, a cassação de Ney Suassuna (PMDB-PB), acusado de receber recursos da máfia das ambulâncias. Ainda em 2006, concorreu como candidato à vice-presidente na chapa encabeçada por Cristovam Buarque (PDT-DF).

Em novembro do ano passado, o amazonense viu o Plenário derrubar seu parecer pela cassação do mandato de Renan Calheiros (PMDB-AL). No relatório do processo que trata das denúncias de que Renan usou “laranjas” para comprar veículos de comunicação em Alagoas, Jefferson concluiu que havia sete indícios contra o senador alagoano. Além disso, ele considerou que houve “interferência” de Renan nos processos que tramitaram contra ele no Conselho de Ética. 

Em junho, quando o então presidente do Senado ainda enfrentava a primeira denúncia, Jefferson Péres já antevia que o peemedebista preservaria o mandato. Segundo ele, por causa de suas relações amigáveis com os demais senadores e do corporativismo. Mas previa que o alagoano não teria mais o mesmo poder. “Renan vai salvar o mandato, mas não a honra”, vaticinou.

(Edson Sardinha, do Congresso em Foco)

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