POR DANIELLE LOBATO
Estagiária
Mais de cinqüenta casas foram derrubadas, na manhã de ontem, no Loteamento Pontal da Ilha, que fica próximo ao Tibiri, em cumprimento a uma liminar de reintegração de posse expedida pela juíza Tereza Cristina de Carvalho Pereira Mendes, diretora do Fórum de São José de Ribamar. A ação foi marcada pela resistência dos moradores. A Polícia Militar teve de usar de força contra algumas pessoas. O suposto dono da terra, Maick Wassout Fiquene, esteve no local rapidamente, indicou quais os lotes deveriam ser desocupados e saiu.


Os moradores disseram que foram avisados por conhecidos que trabalham na Polícia Militar de que o cumprimento da liminar se daria na manhã de ontem. Então se articularam para legalmente tentar impedir o cumprimento da liminar, apoiados pelo defensor público Alberto Tavares e por Creuzamar de Pinho, representante da União Estadual por Moradia Popular.
O argumento principal para impedir a desapropriação da terra é que a liminar refere-se a áreas de São José de Ribamar e foi concedida pelo fórum do município. Os moradores tinham em mão uma certidão do cartório de São Luís, que comprova que essas terras pertencem à empresa agropecuária Agromar, e mapas desenvolvidos pela Uema que mostram que essas áreas pertencem a São Luís.
A ação de despejo foi comandada pelo oficial de Justiça José Carlos, pelo capitão Tupinambá e pelo tenente Bernardo, que chegaram ao local acompanhados de um ônibus cheio de policiais e três viaturas.
Ao chegar, o oficial José Carlos ouviu os argumentos do defensor público Alberto Tavares e de Creuzamar, que tentaram explicar, utilizando-se do mapa e da observação do local, que aquela área não era a citada na liminar.
Depois de quase uma hora de conversa, o defensor e Creuzamar não evitaram o cumprimento da liminar, mas o tenente Bernardo se sensibilizou e as pessoas que apresentaram o documento que prova que compraram o lote não tiveram suas casas derrubadas.
Segundo populares, um homem que não quis se identificar – ele disse apenas que era estagiário do curso de direito – estava acompanhando a operação ao lado do oficial de Justiça, certificando-se de que estavam sendo desapropriados os lotes corretos.
Resistência – Os moradores, que estavam reunidos desde cedo na sede da associação, passaram um dia de desespero. Enquanto José Carlos, Alberto Tavares e Creuzamar de Pinho conversavam, os moradores uniram-se abraçados com a bandeira do Brasil e entoaram o Hino Nacional. Quando foi decidido que as casas seriam derrubadas, as pessoas se desesperaram e correram para frente de seus imóveis, aos gritos e com muito choro.
Na esperança de impedir o despejo, os moradores faziam correntes e ficavam na frente dos tratores. Os policiais precisaram usar a força física. A tropa de choque empurrava as pessoas que tentavam se aproximar das casas que iam ser derrubadas. Alguns moradores se recusavam a sair de suas residências e eram retirados à força pelos policiais.
Os moradores têm esperança de que agora a situação de irregularidade do loteamento seja resolvida, como explicou Augusto Frazão: “Eu comprei o lote no valor de R$ 2 mil, e agora a associação descobriu que o terreno é irregular. O que nos interessa é que as autoridades resolvam a questão da irregularidade dos terrenos que compramos”. O documento apresentado pelos moradores não tem nenhuma referência da localidade do terreno.
Escritura apresentada por suposto dono é de área de S. J. de Ribamar
A juíza Teresa Cristina de Carvalho Pereira Mendes concedeu em 15 de maio um parecer favorável a Maick Wassout Fiquene em relação à reintegração de posse de uma área nas proximidades do Tibiri. O lugar, que abriga cerca de 1.500 famílias está sendo reclamado por Maick. O problema é que a juíza julgou as terras como sendo pertencentes ao município de São José de Ribamar, quando na verdade elas fazem parte do município de São Luís. “A escritura apresentada pelo Maick é referente a uma área em Santa Maria e Guarapiranga, que fica há mais de 20 km de distância daqui. Procuramos a juíza para mostrar a irregularidade, mas ela disse apenas que liminares existem para serem cumpridas”, relatou Edson Moraes, presidente da Associação dos Moradores do Portal da Ilha.

A área total do loteamento tem 50 hectares. Em 2003 a Imobiliária Ilha Bela Araçagy iniciou a venda de lotes e batizou o local como Pontal da Ilha. Além de recibos, a imobiliária emitiu documentos de posse registrados no Cartório de São José de Ribamar. Em março 2007, moradores desconfiados em relação aos documentos, fundaram uma associação e procuraram a Defensoria Pública. Após investigações, a Defensoria chegou à conclusão de que as terras pertencem a São Luís. Os moradores e a Defensoria descobriram, então, que o loteamento era ilegal. Na verdade, o terreno pertence à Agromar e está, inclusive, hipotecado pelo Banco do Nordeste.
A reportagem do JP tentou entrar em contato com a juíza Teresa Mendes para que ela pudesse explicar sua ação. No entanto, foi informada por sua secretária, de nome Lícia, de que a magistrada entrou de licença e provavelmente só voltará ao trabalho no final do mês.