Disse o senador José Múcio que com a morte de Jefferson Péres a democracia amanheceu empobrecida. Não apenas a democracia, mas talvez muito do que ainda resta de moralidade e princípios éticos no Congresso Nacional tenha partido com o senador.
A vida pública brasileira tem consciência da importância da presença de Péres em meio à República desordenada, sacudida por tantas denúncias de desvios de condutas dos homens públicos.
Talvez que, predestinado, Péres tinha Carpinteiro no sobrenome, profissão de Jesus Cristo, e foi vitimado por um infarto fulminante exatamente no feriado nacional em que o país comemorava o Corpus Christi.
Trata-se de uma grande perda para o país, principalmente neste momento em que a questão da ética política se coloca acima de todas as outras, já que volta e meia estamos sendo arrastados por uma avalanche de escândalos que ferem os ideais republicanos, subjugam o estado de Direito e ameaçam a democracia.
Jefferson, como disse o deputado gaúcho Vieira da Cunha, era uma referência positiva da política brasileira e encarnava todas as virtudes republicanas hoje tão escassas no país. Escassas por conta dos cartões corporativos, mensalões, negociatas partidárias e tudo o mais que poderíamos citar e não cabe neste momento.
Todas as lutas assumidas por Jefferson Péres trazem a tinta da Politika, assim como ela foi debatida por Platão e Aristóteles, sem os vícios que acomodam as batalhas parlamentares em torno dos interesses pessoais. Desde a campanha “O petróleo é nosso”, que levantou o Brasil em civilidade e cidadania, até os dias de hoje quando movimentou o Senado na luta em prol da agilização da modorrenta Justiça brasileira, Jefferson Péres foi esse tipo de homem público que vez em quando surge como raridade de uma geração.
Na Comissão de Ética do Senado, foi ele o relator do processo que culminou com a cassação do senador Luis Estevam. E contribuiu para que a Nação recebesse um de seus maiores presente jurídicos dos legisladores em muitos anos, a Lei de Responsabilidade Fiscal, responsável por conter muitos desvios de verbas públicas, desvios de finalidades etc.
A insistência do senador pela moralização das finanças públicas incomodou muita gente neste país, inclusive poderosos e lobistas inconformados com sua atuação no Congresso Nacional.
O amazonense de fato dignificou os mais de 500 mil votos com que foi eleito neste último mandato. Que sejam a sua morte e a imagem que dele fica no país exemplos para aqueles que estão ingressando ou pretendem ingressar na vida pública. Sem nenhum exagero, era ele o melhor espelho da honradez política, neste momento, na República Federativa do Brasil.