PALAVRA DE ESPECIALISTA
Manoel Rubim da Silva
Auditor Fiscal da Receita Federal – Professor do Decca-Ufma
email: manoel_rubim@uol.com.br
O ano que não terminou, 1968, nas descrições de Zuenir Ventura, foi caracterizado pela ocorrência de fatos incomuns, e tido como um ano de efervescência social, política e cultural. Afinal, 1968 nos traz à lembrança fatos como: os assassinatos de Martin Luther King, de Roberth Kennedy e aquela bárbara cena, de 01/02/1968, em que Eddie Adams, correspondente em treze guerras, registrava, através das suas lentes, em Saigão, o estouro, a sangue frio, dos miolos de um guerrilheiro vietcong, pelo Chefe de Polícia, General Nguyen Ngoc Loan; as manifestações contra a guerra do Vietnã e o racismo, nos Eua; o conflito no México entre estudantes e o exército, que quase inviabiliza a realização das olimpíadas; os protestos contra a guerra do Vietnã e as ocupações das Universidades de Oxford e da London School of Economics, na Inglaterra; a Primavera de Praga, com o fim do sonho do socialismo democrático, ou de rosto humano, como preconizava o então Secretário-Geral do Partido Comunista, Alexander Dubcek; “o terremoto”, Maio de 68, “com altos graus na escala de De Gaulle”, promovido pelos estudantes e trabalhadores, na França, que quase derrubava o governo de De Gaulle. No Brasil, do homem cordial, no dizer do Historiador Sérgio Buarque de Holanda, tivemos: um vigoroso movimento estudantil; os famosos discursos do então líder estudantil Vladimir Palmeira e do ex-Deputado Márcio Moreira Alves; a edição do AI-5 e o fechamento do Congresso Nacional; várias mortes, como a do estudante Edson Luís, no Restaurante Calabouço, e a prisão e exílio de inúmeras pessoas.
No campo cultural, não podemos deixar de citar a influência, no “Ano de todas as Revoltas”, do filósofo Herbert Marcuse, pois através da “Teoria Crítica” manteve unidas a filosofia, a teoria social e a política radical, fazendo com que, por exemplo, os estudantes que participaram do movimento estudantil, na França, Maio de 68, tivessem como livro de cabeceira, “Eros e Civilização”. Afinal, Marcuse afirmava que a teoria crítica deveria politizar-se, para não ficar anódina, daí o seu engajamento no movimento estudantil, liderado, entre outros, por Daniel Cohn-Bendit, hoje Deputado ao Parlamento Europeu. De outra feita, tínhamos, a pleno vapor, o movimento Hippie, no campo da contracultura, estigmatizando as autoridades e os valores da classe média, em prol de estilos alternativos de vida. Afinal, eram tempos de dar ouvidos: às idéias dos escritores da geração beat, como Alan Ginsburg; ou mesmo, lamentavelmente, à “expansão das consciências”, via às drogas, como preconizava o Professor de Psicologia de Harvard, que foi expulso, pois defendia a utilização do LSD; aos acordes e protestos de Bob Dylan, Joan Baez, Pete Seeger, Jimi Hendrix, The Doors e Janis Joplin. Eram prenúncios de filmes como Easy Rider (Sem Destino), que assistimos em 1969, ou mesmo do Festival de Música e Artes de Woodstock, que aconteceu em uma fazenda em Bethel, em Nova Iorque, nos dias 15, 16 e 17/08/1969. Gilberto Gil e Caetano Veloso revolucionavam a música popular brasileira, com o “Tropicalismo”. Caetano Veloso e os Mutantes, em 1968, cantavam, no 3º Festival Internacional da Canção, FIC, “É proibido proibir”, sob protestos. No mesmo Festival Internacional da Canção, soaram, ovacionados, os lindos versos da música de Geraldo Vandré, “Prá Não Dizer que Não Falei das Flores”, arrebatando o segundo lugar. Por outro lado, Herbert Marshall Mcluhan, “o papa da comunicação”, expressava o seu famoso dito: “o meio é a mensagem e o mundo está se tornando uma aldeia global”.
Não estaríamos exagerando, se afirmássemos que as efervescências sociais, políticas e culturais, há quarenta anos, em que pese alguns senões, como o uso das drogas, ensejaram acontecimentos capitais no mundo de hoje: a liberdade sexual, o movimento feminista, as preocupações com o meio ambiente, as políticas afirmativas em prol dos negros e das minorias, as novas formas poéticas, os vários movimentos musicais, o cinema e o teatro de vanguarda, a defesa dos consumidores, os movimentos sociais etc. Os punhos cerrados daqueles atletas negros dos EUA, Tommie Smith e John Carlos, ouro e bronze nas olimpíadas do México, socando o ar, ao estilo dos “Black Power”, comemoravam novos tempos, que estavam por vir, e estão aí. Novos tempos, novos sonhos, novas utopias, se fazem necessárias. Os estudantes que protestavam, em várias partes do mundo, inclusive neste país, sabiam que não era proibido sonhar, que o pensamento único é um apanágio dos regimes autoritários, que os comportamentos sociais e culturais não são imutáveis, que as instituições devem evoluir, que a diversidade enriquece culturalmente à humanidade.