O senador José Sarney, democrata no Senado, liberal na "Folha" e intelectual na Academia, sempre defendendo a "liberdade de imprensa", o "direito de expressão", quando chegam as eleições vira o cão do terceiro livro. Volta aos horrores da ditadura, reencarna o sargentão bigodudo da Arena, incorpora o Edir Macedo e processa todo mundo que o critica.
Em 2006, abriu dezenas de processos contra jornalistas, jornais e até simples "blogs", lá no Amapá. Agora, entrou em Brasília com uma ação exigindo R$ 220 mil de "indenização por danos morais" (é quanto ele avalia sua moral?), por causa de artigo ("Sarney quer acabar com Jackson") do jornalista Jersan Araújo, publicado no "Jornal Pequeno", do Maranhão.
Para defendê-lo, Sarney foi buscar dois advogados no Piauí. Estranho. Que culpa tem o Piauí? Por que no Piauí? Por que não no Maranhão? Será por que os do Maranhão já o conhecem de sobra?
Os dois causídicos do Piauí são desbragadamente enganatórios:
"O jornal quer transformar a concepção e o pensamento dos leitores sobre a figura impoluta (sic) do autor, que possui um caráter (sic) indubitavelmente digno e respeitável (sic) e está passando pelo sofrimento (sic) de ver seu nome motivo de escrachos (sic), difamação, injúria, calúnia". Tadinho do Sarney. Vinte anos de bedel da ditadura e tão inocente.
O REVÓLVER DO DOUTOR
RIO - Quando assumiu o Ministério da Agricultura no governo Figueiredo, Nestor Jost não foi à transmissão do cargo na Coalbra (Coque e Álcool de Madeira do Brasil), uma picaretagem com dinheiro público, inventada por Sérgio Motta e o general Golbery, para produzir álcool de madeira, lá em Uberlândia, e que deixou um rombo de US$ 250 milhões.
Jost mandou como seu representante o assessor parlamentar, Doutor Fontoura, um gaúcho desabusado, sobrinho do ex-chefe do SNI, general Carlos Alberto Fontoura. O salão apertado da sede da Coalbra, no edifício Serra Dourada, em Brasília, estava lotado. De repente, Sérgio Motta e o Doutor Fontoura começam a gritar um para o outro: "Ladrão! Filho da puta!".
Doutor Fontoura tirou do bolso um revólver, o auditório em pânico. Sérgio Motta, gordo, suando, disparou escada abaixo e o Doutor gritando: "Vou te dar um tiro na bunda!".
Não deu. E não foi por falta de alvo.
TUCANADA
Sérgio Motta foi dirigir a Eletropaulo, no governo Montoro, e cuidar para sempre do financiamento das campanhas eleitorais da tucanada. A partir de 95, há 12 anos, três governos, os tucanos são donos de São Paulo. Agora, estouram na França os escândalos da empresa Alstom no Brasil:
"O Ministério Público vai investigar os contratos da Alstom com seis (!) empresas ligadas ao governo de São Paulo: além do Metrô, a Eletropaulo, a Cesp, a Sabesp, a CPTM, a CTEEP. A Alstom teria pago US$ 6,8 milhões só para obter um contrato de US$ 45 milhões com o Metrô. Os valores seriam usados para pagar comissões a políticos brasileiros".
E mais: "Ao lado de uma cifra de R$ 2 milhões, aparece uma série de nomes, entre eles o do senador Valdir Raupp (líder do PMDB no Senado) e Adhemar Palocci, diretor da Eletronorte, irmão de Antonio Palocci" (Folha).
PSDB e PT são um ping-pong da corrupção. Jogam sempre juntos.
OMBUDSMAN
No "Globo", o catedrático Merval Pereira atropelou a Argentina:
"Perón fez presidentes Evita (sic) e Isabelita, suas mulheres".
Errado. Isabelita, sim. Mas Evita nunca foi presidente da Argentina. Nem vice-presidente. Isabelita, casada com Perón em Madrid, em 1965, foi vice-presidente dele em 1973 e 74 e assumiu a Presidência em 74, quando ele morreu, governando até 76, quando um golpe militar a derrubou.
Evita casou-se com Perón em 1944, quando ele ainda era coronel e acumulava os ministérios do Trabalho e Previdência, da Guerra e a Vice-Presidência da República, antes de eleito para o primeiro mandato presidencial, de 46 a 51 (reeleito em 51 e derrubado em 55 por um golpe militar). Na campanha da reeleição, em 51, Evita foi aclamada candidata à Vice-Presidência, mas não aceitou e morreu de câncer pouco depois, em 52.
MERVAL (2)
Também no "Globo", e nesta mesma quarta-feira, o brilhante Merval, colunista-chefe do jornal, atropelou também a antiga Iugoslávia:
"Essa aristocracia operária (do governo Lula), que o sociólogo Chico Oliveira classificou (sic) de "nova classe", acaba criando esses nichos coloniais dentro do Estado".
Errado. Quando, definindo o governo Lula com toda a propriedade, o mestre Chico Oliveira falou em "nova classe", ele sabia que não estava "classificando" novidade nenhuma, porque essa "classificação" já fora feita há muito tempo, pelo iugoslavo Milovan Djilas, em um livro clássico, "A Nova Classe", publicado em 1957, com edições pelo mundo a fora.
Djilas foi um pioneiro e um herói social. Líder da guerrilha da resistência no Montenegro, depois da expulsão dos nazistas foi vice-presidente do governo de Tito e presidente da Assembléia Nacional. Em 53, divergiu da Liga Comunista, foi expulso e escreveu "A Nova Classe", um sucesso enorme em todo o mundo comunista e socialista, e por isso foi preso até 61, por pregar "um partido e um governo socialista democrático".
De 62 a 66, voltou à prisão, onde o visitei e entrevistei, porque publicou "Conversações com Stalin", "País Sem Justiça", "O Leproso" etc.
O Merval tem "viajado" demais com o professor Cândido Mendes.
(www.sebastiaonery.com.br)