Que tipo de criminoso é esse que adultera o leite em pó a ser consumido pelas crianças, ou que se apropria de verbas da merenda escolar e da saúde. Que tipo de criminoso é esse que adultera e até substitui por farinha o conteúdo das cápsulas que contém a cura de doenças terminais ou podem deter doenças em curso?
Em que exatamente esses criminosos se diferem daqueles que têm coragem de jogar os filhos das janelas mais altas dos prédios ou das babás que torturam filhos alheios ou das mães que deixam os filhos sozinhos amarrados na cama para ir trabalhar ou se divertir.
A cena brasileira está repleta de casos similares, mas é certo que o crime isolado, com endereço certo, quando atinge a classe média causa maiores comoções, exacerba os sentimentos de piedade, opõe o homem à fera dentro do homem.
A maioria das pessoas sequer tomou conhecimento do que foi a falsificação de remédios no Brasil. Ninguém pode precisar sequer quantos podem ter morrido ou sofreram de forma atroz engolindo placebos que não convenciam. À época laboratórios despacharam desculpas de todos os tipos, mas não se tem notícia, ou certeza, se alguém foi preso ou condenado por esse crime.
Volta e meia surgem notícias de que a merenda escolar das crianças do interior do país, que praticamente dependem dela para sobreviver, é desviada para fins estranhos, é revendida no comércio ou simplesmente a verba federal destinada à sua aquisição desaparece no ar, vira mansão, vira carro importado, vira fazenda.
Quanto as crianças deste país pagam em desnutrição, inanição e morte por conta de um crime que apesar de tão hediondo não tem a repercussão esperada, talvez porque não tem um objeto fixo ou seu objeto não pode ser fotografado e filmado ou o assassino não pode ser visto matando.
Pensem em crianças recém-nascidas tomando leite adulterado por empresas de grande porte que, na busca do lucro fácil e do enriquecimento rápido de seus proprietários, não respeitam sequer a sobrevida dos nascituros, como parece ter praticado a empresa paraibana Big Leite. Um atentado contra a saúde futura das crianças, se não contra suas vidas.
Os criminosos comuns, do dia-a-dia, são facilmente identificáveis entre as classes de baixa renda. Eles assaltam, roubam, matam, estupram e apavoram. Mas há crimes que nem sequer podem ser cometidos pelo comum dos mortais e são principalmente estes os que alcançam um número maior de vítimas, são principalmente estes os geradores da impunidade, porque se escondem atrás da perícia dos advogados, dos recursos intermináveis e do poder de corrupção.
As cenas brasileiras não são cenas de guerra, mas se nelas percebemos muitos sinais de amor e solidariedade, percebemos também muita injustiça, muita dor e desumanidade.