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OS BONS MORREM

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Data de Publicação: 15 de maio de 2008
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EdsonVidigal

Todo dia a menos é um tempo a mais para o fim.

Mas quase sem nos dar conta disso seguimos em frente, como se cada dia consumido não fosse essa fadiga a nos reduzir, quase que sorrateiramente, no tempo da jornada.

Estar fatigado assim é render-se à névoa de uma certa tristeza, aquela que amolece os músculos e se apropria da densidade das certezas.

Seria como estar insone flertando com a morte, mas sem perceber.

O exercício de viver há que ser intenso, com a plena noção das horas, porque tudo um dia acaba, e muitas vezes de repente, e quando acaba só resta no tempo a lembrança esparsa do exemplo, talvez algum registro em sépia de inspiradas ações.

As coisas boas com as quais se contribuiu achando que foram para o melhor dos outros muito raramente resistem às maledicências vindouras ou às invejas remanescentes. Devemos sempre nos ocupar em fazer as coisas boas.

Andamos tão apressados, muitos de nós querendo tudo ao mesmo tempo, imediatamente, que estamos deixando sempre para o amanhã o melhor das coisas que podemos, e devemos, fazer hoje.

Muitas vezes deixamos passar o momento certo de ouvir o outro, de estender as mãos em gestos de compreensão a quem pensamos nos estar sendo hostil, mas, se tivermos humildade vamos concluir que nós é que fomos arrogantes e não nos esforçamos por nos fazer melhor entender.

Falamos a mesma língua, cruzamos-nos uns com os outros no mesmo território e, soberanos em nossas vontades ou frustrações, continuamos buscando culpados. Achamos sempre que não somos nós os culpados, são os outros.

No conselho de Sêneca, devemos ser menos dependentes do dia de amanhã e, por isso, temos que nos ocupar mais com o presente, porquanto qualquer tempo que já passou, sem que tenhamos feito nada de importante em favor dos outros, pertence mais à morte do que à historia.

Mas há os que simulam estar ocupando seu tempo na vida em trabalhos pelos outros. E quando a gente, de tão entretido que estava com as mágicas nas coisas, pára um pouco, se choca, se embasbaca.

O benemérito ficou foi rico. E os valores pelos quais passa a lutar no que lhe resta de vida não são os valores morais, são literalmente os valores literais, aqueles dos vis metais.

Daí a figura física ir sendo essa mescla de rimas, arrogância com ganância, sem contar a feiúra que não rima, mas que cai bem no complemento do ridículo com a esquisitice.

Tanta gente movida pela inveja, pela frustração de alguma derrota, que não se emenda e cava em sua alma poço de ódio, tremula as mãos em gestos de preces clamando vingança. Gente que já perdeu a alma e não morre logo porque ainda vai ter muito que penar.

Luis Carlos Bello Parga viveu na contramão das veleidades circundantes. Seus valores morais, sua honestidade intelectual, sua integridade pessoal, nunca lhe negaram forças para suportar a perfídia dos que, por tantas vezes, se fizeram passar por amigos, mas só tirando proveito dos seus bons serviços, da sua boa fé, do seu idealismo, da sua boa reputação.

Quando a enfermidade ainda lhe era apenas uma má noticia, uma ameaça distante, foi conhecendo o desgosto de sentir descartado. É assim que fazem com os que, feridos na luta ou adoecidos no fim da linha, não podem mais prestar serviço.

Luis Carlos na vida só fez o bem. Sempre estivemos muito próximos. Nunca teve um desafeto, foi na essência um homem cordial. Um excelente companheiro, um grande amigo.

Edson Vidigal, ex-presidente do STJ, professor de Direito na Ufma, escreve para o Jornal Pequeno às quintas-feiras.

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