A mídia sarneisista excluiu o fato e não deu uma linha ou um pio sequer sobre a denúncia que o Ministério Público Federal ofereceu ao STF envolvendo o ex-ministro das Minas e Energia, Silas Rondeau e mais 60 pessoas. Nas matérias, os destaques foram apenas para o governador Jackson Lago e o ex-governador José Reinaldo Tavares.
Afilhado político do senador José Sarney e amigo pessoal do seu filho Fernando Sarney, Silas Rondeau foi obrigado a deixar o posto de ministro logo após a divulgação Operação Navalha, em maio do ano passado. Segundo a Polícia Federal, Rondeau teria sido flagrado ao receber, num envelope, 100 mil reais, dentro do próprio ministério, de uma funcionária da Construtora Gautama. O valor seria parte da recompensa por beneficiar a empreiteira baiana em obras do Programa Luz para Todos, comandado por ele, fato, inclusive, filmado e mostrado pelas redes de televisão a todo o país.
Lobby forte – É voz corrente na mídia nacional que Silas Rondeau, indicado por Sarney para o Ministério das Minas e Energia, o órgão do governo federal que comanda o setor elétrico brasileiro, teria sido colocado lá para defender os interesses do PMDB Nacional, onde Sarney é quem dá as cartas, e para “operar” os lobbies que envolvem obras e serviços avaliados em bilhões de dólares.
Em duas reportagens, das edições de 23 e 29 de maio do ano passado, a Revista Veja trata com maestria sobre os laços da Gautama com a Família Sarney e da intimidade desta com Silas Rondeau. Diz Veja: “A polícia filmou a diretora Fátima Palmeira levando um envelope a uma sala contígua ao gabinete do agora ex-ministro Silas Rondeau. Segundo a polícia, o envelope continha 100 mil reais. Rondeau é a mais alta autoridade abatida pelo escândalo até agora. Antes de pedir demissão, fez questão de consultar seus padrinhos políticos – os senadores José Sarney e Renan Calheiros. Faz sentido. O ex-ministro tem laços sólidos com a família Sarney. Quando era ministro, Rondeau tinha o hábito de aparecer no escritório de Fernando Sarney, filho do senador, em Brasília. Eles costumavam ir a um restaurante próximo, o Cielo, onde comiam numa sala reservada no subsolo. O ex-ministro deixou o cargo abalado, mas jurando inocência. Diz que não pegou a propina de 100 000 reais e dá a entender que, se ela entrou no ministério, então ficou no gabinete de seu auxiliar Ivo Almeida da Costa – preso e já demitido”.
Sarney por trás - Segundo, ainda, a revista Veja, “em suas traficâncias por Brasília, o empreiteiro Zuleido Veras conseguiu uma penca de amizades influentes e aproximou-se da família Sarney, que lhe abriu as portas dos governos do Maranhão, Piauí, Sergipe e Distrito Federal – pois no Distrito Federal até Roberto Figueiredo Guimarães, presidente do BRB, o banco estatal, acabou preso na semana passada. Zuleido e Sarney também são amigos. O ex-presidente não quis comentar a Operação Navalha, mas seu interesse pelo assunto é grande. Cancelou uma viagem que faria ao exterior e, quando aconteceram as primeiras prisões, na manhã de quinta-feira, despachou um de seus assessores para ir à Polícia Federal obter informações. O assessor, o delegado aposentado Edmo Salvatori, no entanto, não conseguiu sequer chegar ao gabinete do delegado responsável pelas investigações. Os aliados do ex-presidente dizem que seu interesse pela operação se deve à prisão de seu rival político, José Reinaldo Tavares, e à suspeita de que outro rival, o governador do Maranhão, Jackson Lago, recebeu propina de 240.000 reais para liberar 2,9 milhões em atrasados para a Gautama. Mas à satisfação pela desgraça dos adversários seguiu-se a apreensão pela prisão de Ivo Almeida Costa, o assessor do ministro que vem a ser afilhado político de Sarney”
A mídia do Sistema Mirante de Comunicação faz de conta, agora, que seu grupo político não tem nada a ver com Silas Rondeau – a quem Sarney chegou a advogar o retorno ao Ministério das Minas e Energia junto ao presidente Lula. Não conseguindo a volta de Silas, Sarney pressionou o presidente Lula para nomear o senador maranhense Edison Lobão. Outro ponto que a mídia de Sarney faz questão de ignorar é que a então governadora Roseana Sarney e seu marido e na época todo poderoso secretário de Planejamento, Jorge Murad, foi que trouxeram para o Maranhão a Construtora Gautama. Ela se instalou no Estado consorciada com a também baiana OAS (ligada ao falecido senador Antônio Carlos Magalhães) para tocar a vultosa obra de ampliação do Projeto Italuís de captação de água do rio Itapecuru para abastecer a capital. Numa decisão considerada estranha, Jorge Murad entregou ao consórcio o setor de saneamento do Estado. Na seqüência, as duas empreiteiras, OAS e Gautama, trouxeram um grupo de técnicos que ficaram conhecidos como “novos baianos” para dirigir a Caema, transformada ali num mero departamento daquele consórcio de empreiteiras. O então presidente, Nelson Almada Lima, foi demitido para dar vez à baianada.
Deboche – O deputado federal Roberto Rocha (PSDB-MA), em artigo publicado em janeiro de 2008 no Jornal Pequeno, lembrou que “os famigerados ‘novos baianos’ cumpriram fielmente a missão que os trouxe ao Maranhão: direcionaram para os seus verdadeiros patrões - as empreiteiras OAS e Gautama - um contrato no valor aproximado de R$ 350 milhões, cujo objeto seria a duplicação do Italuís. Pior: para fiscalizar a execução das obras, foi contratada uma terceira empresa, também da Bahia, trazida num simulacro pelos executores. Deboche total”.
Numa perversa seqüência de falcatruas, diz o artigo, o governo Roseana Sarney pagou mais de R$ 40 milhões a essas empresas, sem nenhum benefício para o sistema, além de criar um tremendo imbróglio no TCU, pois o contrato foi considerado inidôneo e está na lista de censura do Tribunal, o que vem impedindo a liberação de novas verbas para a referida obra. “Em síntese: além do prejuízo financeiro ao Maranhão, o desonroso obstáculo a novos recursos. Como diriam os antigos: além da queda, o coice”.