TESTAMENTO DE PAULO ALBERTO
Rio - No velho forte colonial do Barbalho, em Salvador, do tempo das invasões holandesas, preto de séculos, fedendo a querosene e com seus xadrezes soturnos, depois do golpe de 64, os deputados Mario Lima e eu, os prefeitos Francisco Pinto, de Feira de Santana, e Pedral Sampaio, de Vitória da Conquista, vereadores, professores, líderes sindicais e estudantis, dormíamos no chão úmido de cimento sujo e comíamos feijão, arroz, farinha e "louro" (pelanca de carne). Até ai, tirávamos de letra.
O pior era a incomunicabilidade, a falta de notícias. O comandante do quartel,capitão José Hermes de Figueiredo Ávila,era um desequilibrado. Tinha o apelido de "Hermes 30", porque 30 dias era a pena mínima que dava aos soldados por qualquer tolice.Visitas proibidas, jornais nem pensar.
O tempo passando e não sabíamos o que estava acontecendo no pais. E ainda havia os terroristas, como o tenente Jacques e o sargento Nova, que caminhavam diante das celas comentando alto sobre "torturas, penas de morte, assassinatos, fuzilamentos de Brizola, Arraes, Julião, Juscelino".
NO PORÃO
Até que, em um dia de muita chuva, 26 de maio de 64, o soldado "Lomanto" (porque servia o feijão, símbolo da campanha do governador Lomanto Junior), alto, negro, filho de um amigo e eleitor meu de Nazaré das Farinhas, correndo os riscos da neurose do capitão Hermes, olhou para os lados e me passou, por baixo da bandeja molhada do almoço, mandado pelo pai, um recorte da "Última Hora", dobradinho, em letras bem miúdas :
- "Carta a Meu Filho". Assinado embaixo : "Teu pai, Paulo Alberto".
Lemos todos, escondidos, comovidos. Se Paulo Alberto escrevia aquilo e a UH publicava, era porque não havia pena de morte, não estavam (ainda) matando ninguem.Outros dias,outros recortes, com valentes artigos de Heitor Cony, Helio Fernandes, David Nasser, Josué Montello. Mas o do Artur da Távola foi o primeiro a chegar. Era um belo testamento político.
UMA CARTA
1.-"Leonardo, teu pai vai deixar sua terra... Um dia lerás e entenderás esta carta. Até lá haverá um novo Brasil, por certo. E o episódio que afasta teu pai, moço ainda, do Brasil, será uma leve e infeliz referência histórica...
Abri os olhos para a vida política muito cedo. Surgindo de uma eleição (a primeira) aos 24 anos, ganha mais por um impacto emocional favorável que por meus méritos, só um ano após pude aquilatar a exata medida da minha tarefa. Conhecendo melhor o meio político brasileiro e a realidade social do país, descobri ser a vida política de então, de um modo geral, imensa farsa. Senti-me partícipe da farsa e resolvi romper com tudo"...
2. - "Também os aspectos simpático-emotivos da minha primeira eleição representavam, de certo modo, uma de suas encenações. E rompi, sabendo o que me esperava de ataques, calúnias e tempestades. Ou ficava com minha consciência ou com o emocionalismo risonho, já facilmente vitorioso. A farsa indicava o caminho da acomodação. A consciência, não.
Ela me dizia a todo instante que não era possível subsistir numa democracia quando seus representantes (a maioria, claro que não todos) hábeis captadores de engano coletivo, eram defensores dos interesses pessoais dos eleitores junto aos governos, seus despachantes de luxo"...
AS ELITES
3. - "Mostrava-me ainda, de maneira clara, a irresistível vocacão das elites dirigentes para o privilégio. E que essa vocação equivaleu, no curso da história da humanidade, aos desígnios das classes dominantes para sua perpetuação no poder. Mais ainda, que uma sociedade fundada no lucro individual jamais poderia ser justa, pois negava ao homem sua básica liberdade social: a igualdade de oportunidades"...
4. - "Este o caminho apontado pela minha consciência. Sabia-o repleto de emboscadas. Mas o sabia também povoado de irmãos sinceros, lutadores sacrificados de gerações anteriores e de muitos jovens como eu... Nessa jornada, encontrei, acredito, minha melhor dimensão como ser humano. Aprendi a humildade e a suportar os desprezos da classe dominante com seu séqüito de aspirantes ou iludidos, que na minha primeira eleição tanto me aplaudiram. Mas a meu lado encontrei a face anônima e triste do operário brasileiro. Suas lágrimas, seus gritos roucos de dor e injustiça, atingiram meus cansaços e me fizeram superá-los"...
DUAS ELEIÇÕES
5. - "Na primeira eleição (em 60, constituinte da Guanabara, pelo PTN) obtive 8.546 votos. Nesta (em 62, deputado da Guanabara, pelo PTB), 21.130. Era a derrota do emocionalismo estéril e a vitória da luta, do sacrifício e da consciência. A reação dos privilegiados era de se esperar.
Quando seu último argumento fora derrotado, restaram-lhes as armas. Usaram-nas. Preferiram o retrocesso, o terrorismo cultural, o ódio e a perseguição pessoal.Que fiquem se entredevorando, como, aliás, já estão"...
6. - "Deixo o país, asilado. Não deixo, porém, minhas idéias, antes reafirmo-as. Não há força capaz de destruir idéias. Deixemo-los iludirem-se com sua impotência disfarçada em armas. O que plantamos germinou. Colheremos. Se podam os galhos, cresceremos mais fortes. As sementes eles jamais tirarão da terra, senão arrancando o coração do nosso povo...
7. "Um dia lerás esta carta... Sentirás que teu pai sempre foi um democrata e terás a certeza de que nunca usou o mandato para enriquecer ou roubar e só te pode deixar o patrimônio de sua luta e seu caráter, levando no coração a saudade de ti e a certeza de que a luta continua"...
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