ENTRE O FIM DAS UTOPIAS E O PODER DAS MÁQUINAS
JM CUNHA SANTOS (interino)
Li o ensaio de Gilberto Dupas sobre as utopias e seu fim admissível, engolidas pelo capitalismo global. Li que o bem-estar social está sendo substituído por Ipods, telefones celulares e carros de U$ 3.000. Mas eu também havia lido Thomas More e o Elogio da Loucura, de Erasmo de Roterdã.
De algum modo as coisas do humanismo (assim como as do anarquismo) me são caras ao coração. Quem quer que tenha imaginado a inexistência da propriedade privada, mãe unilateral de todas as diferenças e preconceitos, quem quer que tenha suposto o atendimento de todas as necessidades coletivas ou até mesmo a supressão do Estado, pintou na minha alma adolescente como um desses gênios do bem, invertebrados e pitorescos, criados nos lupanares das mil e uma noites.
O homem (gênero) está entendendo agora que é impossível subordinar os interesses individuais aos coletivos. Mas suponho que, entre outras submissões, é isso que o está tornando dependente das máquinas.
E aqui faço um parêntese para dizer que há máquinas demais no mundo e que não gosto delas. Come e vive melhor quem as detém e domina. Elas quase pensam por nós e pensa melhor quem é dono delas. Não gosto de celulares me seguindo, nem de computadores me dizendo o que fazer ou onde devo estar.
Até mesmo em reuniões de partidos políticos e sociedades geneticamente utópicos, percebe-se que as utopias hoje são coisas amarelas e sem vida, atacadas de uma doença terminal provocada pelo vírus do capitalismo introjetado, em combinação com o bacilo da tecnologia surpreendente.
No mafuá ideológico brasileiro, por exemplo, não subsiste mais o confronto entre propriedade absoluta e ausência de propriedade - o que era quase uma guerra do corpo com o espírito – a citada dicotomia entre a cidade terrestre e a cidade de Deus. Todo mundo parece querer ser dono de tudo e ninguém mais se preocupa com aquela instigante ilha imaginária do bem comum.
Neste século, “A República”, de Platão, “O Contrato Social”, de Rousseau, o “Manifesto Comunista”, são documentos do impossível. Prevalece “O Fim da História”, de Francis Fukuyama, para quem as utopias se findaram não porque chegamos ao sistema perfeito, mas porque foram eliminadas quaisquer alternativas de sistemas melhores, conforme seus estudiosos. O que é contestado pela Dra. Márcia Paraquet, da UFF, a dizer que o fim da utopia seria deixar de crer que somos capazes de reverter o quadro de corrupção, de injustiça, de autoritarismo, de desigualdade social e de violência urbana. Mas eis que me pergunto se realmente, do fundo do coração, ainda queremos reverter esse quadro, se saberemos sobreviver sem ele.
Até porque neste momento, o celular toca e eu recebo uma ordem, uma cobrança e uma notiícia de assassinato. O computador adverte que há um vírus inoculado em suas entranhas e eu posso perder meu texto e minha mulher insiste que eu tome uma pílula para dormir, pois tenho de estar de pé bem cedo, dar jeito em dinheiro e pegar o carro na oficina... para levar as crianças ao Curso de Informática e pagar o conserto da máquina de lavar.
PRESUNÇÃO DE INOCÊNCIA E PRESUNÇÃO DE CULPA
Estava num filme: não ter dinheiro torna você mau.
No fígado: o maior blefe da história jurídica deste país é a presunção de inocência, o verdadeiro sepulcro caiado do processo penal brasileiro.
Todos são desiguais perante a lei. Há uma falha no gerador de punições quando se trata de presumir a inocência dos abastados. Levam tanto tempo presumindo isso que nem que ele queira conseguirá ser culpado. E vale também a situação inversa. No caso do assassinato da Irmã Dorothy Stang, brincaram de presumir que o mandante era culpado, sendo condenado por duas vezes, a 27 e 30 anos. Acabou inocente.
Antes que eu me esqueça: todos têm direito a ampla defesa. Mas a defesa é mais ampla quanto mais ampla é a bolsa. O processo penal, diz-se, existe para castigar os delinqüentes e evitar que sejam castigados os inocentes. Bonito, não é? Mas isso depende muito de quem seja o delinqüente e de quem seja o inocente.
No caso dos pais de Isabella, sejam eles culpados ou não, já foram condenados e até linchados publicamente pela mídia ávida de audiência. È uma exceção que permaneceu dentro da regra.
A presunção de inocência pesa tanto para quem tem fortuna que ainda não acharam meios de evitar que corruptos, ladrões e homicidas disputem cargos eletivos, como defende agora o presidente da Câmara Federal, Garibaldi Alves. Esperam por uma sentença condenatória que nunca virá. Por aqui, quem pratica crime contra a economia popular, a administração e o patrimônio públicos e o mercado financeiro, está presumido inocente por suas amizades, sua influência, seus conhecimentos e parentescos.
Não estou reclamando. Presumo que sou culpado por ter nascido e permanecido pobre. Mas aceito se algum Tom Sawyer quiser assumir a minha causa. Só não sei se posso pagar.
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