Paiva Netto*
Muito já se falou e continua sendo discutido sobre a epidemia de dengue, no estado do Rio de Janeiro, que ceifa dezenas de vidas, principalmente entre crianças, gerando alertas em diversas regiões do País.
Além das indispensáveis providências das autoridades para proteger os cidadãos, é fator crucial o esclarecimento do povo, por intermédio de informações básicas, como vem fazendo a mídia. Daí sempre abrirmos espaço na Super Rede Boa Vontade de Rádio, na Boa Vontade TV (canal 27 da SKY) e na internet: www.boavontade.com para campanhas e reportagens a respeito dos mais variados assuntos de saúde pública.
Numa dessas matérias, o infectologista Stefan Cunha Ujvari – membro do corpo clínico do Hospital Carlos Chagas e do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, de São Paulo/SP – abordou vários aspectos da dengue: causa, tratamento e medidas preventivas. Destaco, a seguir, trechos dessa entrevista:
Boa Vontade TV: Como o senhor avalia esse avanço da dengue no Rio de Janeiro?
Dr. Stefan: Como toda grande epidemia viral, ela vem em ciclos. Daí termos épocas de grande incidência da doença e em outras não. Ficamos animados quando surgem poucos casos, mas, na verdade, é uma ilusão. Se restarem poucos focos, o aumento populacional, a urbanização desorganizada, desenfreada, sem infra-estrutura, e, conseqüentemente, a grande quantidade de lixo urbano favorecerão novamente a proliferação do mosquito.
Boa Vontade TV: Esses altos níveis de infecção teriam como um dos motivos o descuido no combate à dengue?
Dr. Stefan: Sim. O relaxamento no combate aos focos de larvas do Aedes aegypti é o grande responsável pela sua persistência. E isso é algo absolutamente problemático. Gera, posteriormente, uma batalha imensa por causa dos criadouros que surgem em conseqüência da grande quantidade de reservatórios de água parada.
Boa Vontade TV: De que maneira podemos combatê-los?
Dr. Stefan: O mosquito tem vida útil pequena, pouco mais de um mês. A ação principal é contra a criação dos ovos que ele deposita em tudo que retém água. A calha, o ralo e até mesmo plantas, como as bromélias, podem ser um reservatório, tanto fora quanto dentro de casa.
Boa Vontade TV: Quanto tempo a doença leva para se manifestar?
Dr. Stefan: Tem uma variação muito grande. A média é em torno de cinco a seis dias, porém, pode ocorrer uma manifestação precoce, por exemplo, ao terceiro dia.
Boa Vontade TV: O uso de repelente no corpo auxilia a espantar o mosquito da dengue?
Dr. Stefan: Temos de ser bem criteriosos quanto ao uso dele, porque o repelente não tem ação duradoura. Se formos instituir o repelente, teremos de utilizá-lo muitas vezes ao dia. Se exagerarmos no uso, poderão ocorrer fenômenos alérgicos. O repelente realmente previne a proximidade do mosquito, mas não é indicado como medida profilática.
Boa Vontade TV: Quais são os sintomas provocados?
Dr. Stefan: A dengue é inespecífica. Depois de inoculado na pessoa pela picada do mosquito, o vírus passa um período na corrente sanguínea. A região de sua preferência é a da musculatura. Daí as dores musculares. Tirando isso, os sintomas são semelhantes aos de outras infecções.
Boa Vontade TV: E o tratamento?
Dr. Stefan: A grande preocupação é tratar as complicações da dengue, ou a do tipo mais grave, a hemorrágica. O paciente que contraiu a dengue clássica não terá nenhuma complicação. O tratamento é sintomático. Evita-se apenas qualquer remédio que atrapalhe a coagulação, por exemplo, os medicamentos à base de ácido acetilsalicílico. A hidratação é fundamental. O problema é que não sabemos se esse paciente desenvolverá ou não a dengue hemorrágica. Portanto, todos devem passar por uma avaliação médica. A dengue hemorrágica acontece, geralmente, quando a febre está diminuindo.
Boa Vontade TV: A transmissão da dengue ocorre de uma pessoa para outra?
Dr. Stefan: Não.
Boa Vontade TV: Alguém que já tenha sido infectado pode contrair a doença novamente?
Dr. Stefan: Temos quatro tipos de vírus de dengue. Na década de 1980 tivemos uma epidemia de dengue tipo 1. Depois, na década de 1990, ocorreram vários casos da do tipo 2. A epidemia de 2002, que até então tinha sido a pior da nossa história, foi a do tipo 3. Quando a pessoa contrai um tipo de vírus, torna-se depois imune, não apresentando mais infecção por aquele vírus. Contudo, pode ter pelos outros três tipos. Quando o paciente experimenta a dengue pela segunda vez, o risco de desenvolver a hemorrágica é maior.
Espero que o tema de hoje tenha contribuído para a conscientização de todos. O Aedes aegypti tem menos chance com uma ação conjunta entre as autoridades e o povo. E que não nos falte a mesma determinação de Oswaldo Cruz, que, também no Rio, no início do século 20, promoveu campanha maciça de combate à varíola, febre amarela, peste bubônica, entre outras doenças.
*Jornalista, radialista e escritor.
paivanetto@uol.com.br