Opinião
José Luiz Oliveira de Almeida*
Você, certamente, já ouviu alguém muito próximo verbalizar a frase/título deste artigo. Se a frase é proferida circunstancialmente, despretensiosamente, irrefletidamente, tudo bem. Qualquer um de nós pode, em determinado momento, pronunciá-la. Entrementes, se essa frase traduz um estilo de vida, uma prática de vida, uma profissão de fé, uma doutrina, um norte, um prumo, um caminho a ser seguido, bom, aí é preocupante.
O cidadão (?) que emprega essa frase como um aforisma, está muito longe de ser um exemplo a ser seguido.
Convenhamos, quem pensa – e age – dessa forma certamente precisa de aulas de probidade, de retidão, de caráter, de honradez. Tá precisando de umas aulas de integridade e lisura. Não pode ser um paradigma. É peçonhento, nocivo, pérfido, purulento.
O indivíduo é, por exemplo, desleixado, pachorrento, desatento, desinteressado, impontual e omisso. Em resposta a quem o acusa de tudo isso, afirma, simplesmente: num tô nem aí. Esse cara é, definitivamente, uma péssima referência. Se pai for, deve estar fabricando em casa um “pachorrentinho”, um “desleixadinho”, um “negligentinho”, um “bandidinho” que, decerto, como ele, vai dar muito trabalho à sociedade.
Compreendo que o ser humano que tenha uma formação moral sedimentada, que tenha responsabilidade, que é cioso de suas obrigações, que tem compromisso com o trabalho, com a família, com a sociedade, enfim, tem que estar aí, sim, para as críticas que se faz em face de suas atitudes, de seu comportamento.
Nesse sentido eu, por exemplo, estou aí, sim, quando cometo um erro ao decidir. Da mesma forma, estou aí, sim, quando sinto que não fui capaz de decidir com o equilíbrio que se espera de um magistrado. Eu estou aí, sim, quando tenho notícia de que um acusado foi torturado para confessar um crime. Eu estou aí, sim, quando sou obrigado a lidar com quem não cumpre horário. Eu estou aí, sim, quando sei que disseminam a informação de que sou arrogante e prepotente para tentarem me desqualificar. Eu estou aí, sim – embora nada possa fazer –, quando liberam um meliante que, na minha visão, deveria ser mantido preso. Eu estou aí, sim, quando o promotor, advogado, acusado ou testemunha chegam atrasados à audiência. Eu estou aí, sim, se tenho que trabalhar sem a mais mínima condição, se não posso concluir uma instrução com brevidade, se sinto que não estou sendo útil à sociedade. Eu estou aí, sim, quando não apresentam o acusado para audiência, quando não cumprem um despacho, quando sou atacado injustificadamente em face de uma decisão, quando não respondo aos anseios da sociedade. Eu estou aí, sim, se apontam em mim uma má conduta profissional ou pessoal. Eu estou aí, sim, se, por hipótese, me conduzi mal diante de determinado problema que exigia de mim equilíbrio e sensatez. Eu estou aí, sim, se avalio que o meu procedimento pode ser um mau exemplo para os meus filhos. Eu estou aí, sim, se por algum motivo não honro a palavra empenhada. Eu estou aí, sim, se tenho noticia que esse ou aquele agente público desviou a verba destinada à saúde ou a educação. Estou aí, sim, pra várias outras coisas contra as quais me julgo impotente de lutar.
É assim que eu sou e não vou mudar nunca. Diante dessas e de outras questões, nem os cabelos encanecidos molificaram a minha convicção de que vale à pena estar aí para muita coisa, ainda que, por ser assim, tenha que pagar o preço que pago.
*Juiz de Direito da 7ª Vara Criminal
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