Opinião
João Batista Ericeira*
Os jogos de Pequim despertam a atenção da opinião pública mundial para a situação das minorias étnicas e culturais, na Ásia, Europa, África, América do Sul. O continente africano é palco de guerras tribais que se constituem em permanentes genocídios, dizimam milhares de pessoas. Pela pobreza daqueles povos, a mídia não lhes dá a devida repercussão, como, por exemplo, teve a guerra dos Bálcãs, o conflito envolvendo eslavos e albaneses, cristãos e muçulmanos.
A pobreza é a principal causa das guerras localizadas, como a travada na Colômbia entre o governo e os guerrilheiros das Forças Armadas Revolucionárias-FARC. Não se pode esquecer, segundo a Organização das Nações Unidas, a América do Sul tem um contingente de 200 milhões de pobres e de 70 milhões de indigentes.
A pobreza extrema, acarretando a exclusão social, não é compatível com o respeito aos Direitos Humanos em toda a extensão do planeta. A conseqüência visível é o acirramento da violência social e institucional, o aumento do tráfico internacional de drogas, as guerras localizadas em todos os continentes.
É inegável, esporte é a grande atração internacional, a sua força une os povos, pode concorrer para o diálogo, a paz e a concórdia. Os gregos que inventaram os jogos olímpicos, na antiguidade clássica, já o compreendiam dessa forma.
Mas não é de agora que as Olimpíadas se transformam em palco de demonstrações políticas. Nos anos 30, Berlim sediou uma, aproveitando-se o governo nazista para propagandear as virtudes do seu líder Adolf Hitler e as possibilidades da eugenia racial instaurada pelo III Reich. Na década de setenta, em Munique, na mesma Alemanha, a concentração dos jogos era invadida por terroristas palestinos. Seqüestraram e executaram a delegação de Israel, a pretexto de chamar a atenção da opinião pública internacional para a causa palestina.
No início do século XXI, a China despontou como a potência emergente, a economia ocidental depende da capacidade do gigante chinês em consumir aço, combustível e produtos agrícolas para manter-se ativa, escapando das bolhas financeiras.
Os chineses resolveram sediar as Olimpíadas de 2008, dentre outras razões, para mostrar ao mundo a pujança do seu modelo econômico e social, exibindo-se como uma sociedade harmônica, que não registra conflitos internos consideráveis.
Tudo ia bem até que a minoria tibetana começou a protestar, aproveitando-se da passagem da tocha olímpica por centros urbanos importantes. Em Londres, os manifestantes quase conseguiram apagá-la. Em Paris, aumentou o clamor das ruas, consumando-se várias tentativas para extingui-la. Em Buenos Aires, exigiu aparato policial maior, requisitou-se carro blindado para protegê-la e ao atleta que a conduzia.
O Tibete é hoje uma província chinesa, mas guarda identidade étnica e cultural própria e secular. No passado, dominou a China, depois, foi por ela dominada por cerca de 300 anos. Em 1912 recuperou a independência, era governada por teocracia liderada pelo Dalai-Lama, um monge budista que 1959 foi obrigado a abandonar a província em razão da atroz perseguição movida pelo governo de Mao-Tse-Tung.
Partiu para o exílio, abrigou-se em uma cidadezinha na fronteira da Índia, e de lá encetou Campanha Mundial a favor da manutenção da identidade cultural tibetana. Ganhou adeptos no mundo inteiro, inclusive de astros do cinema norte-americano seguidores do budismo tibetano.
Em 1989, sobreveio o maior êxito, o Dalai-Lama, que em tibetano significa “mar de sabedoria”, foi contemplado com o Prêmio Nobel da Paz.
O governo chinês, a principio comunista, atualmente praticando o capitalismo de Estado, desenvolveu processo de modernização do Tibete. Construiu rodovias, hospitais, escolas, hidrelétricas. Ao mesmo tempo em que combateu o budismo, estimulou a ocupação do território por chineses e o estudo do idioma oficial de Pequim nas escolas. Acusam o Dalai-Lama de estar a serviço da CIA, agência de inteligência do governo dos Estados Unidos.
Mas é fato, a maior parte da população tibetana depois do processo de modernização capitalista, permanece pobre e crente nos preceitos do budismo tibetano, uma religião e filosofia que pregam a paz, a fraternidade, a solidariedade, de que são carentes os ocidentais e orientais
O candidato a presidência dos Estados Unidos Barak Obama disse muito bem: os países capitalistas precisam diminuir a cobiça para minimizar a pobreza no planeta.
Enquanto o Dalai-Lama mantém acesa a chama de sua causa a favor da paz e da fraternidade entre os homens. É forçoso concluir, ela só se concretizará com a redução mundial da pobreza.
*Advogado, diretor-geral da Escola Superior de Advocacia da OAB