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Sobrados de São Luís, um drama que se repete
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Sobrados de São Luís, um drama que se repete

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Data de Publicação: 20 de abril de 2008
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Opinião

Abimael Ferracinni*

Como já era de se esperar, mais um casarão do centro histórico desabou, há alguns dias, por conta das fortes chuvas e do estado de abandono em que ele se encontrava.

Impressionam a falta de idéias, de iniciativa e de determinação dos órgãos competentes para resolver esse problema. Consta, até, que já haveria uma lista considerável de casarões que estão sob o risco de desabamento iminente e de outros tantos imóveis históricos que estão em situação precária e, nem assim, alguém aqui toma uma atitude real para tentar resolver esse problema... Ficam todos no discurso recheado de boas intenções e nas desculpas burocráticas de sempre...

As pessoas daqui simplesmente não percebem que há o risco de que essa nossa “inércia” possa ser interpretada como escárnio para com as demais “Cidades Patrimônio Mundial”, que realizam um sério trabalho de preservação de seus acervos arquitetônicos, demonstrando respeito pelo título que receberam da Unesco.

Infelizmente, estamos desonrando e vilipendiando o título de “Cidade Patrimônio Mundial” que São Luís conquistou há dez anos, usando-o apenas como propaganda nas laterais dos nossos ônibus e permitindo que a nossa riqueza histórica, que é a razão de ser dessa honraria, desapareça aos poucos.

Enquanto isso, na região Ponta d’Areia – Renascença – Calhau, proliferam as construções de luxuosíssimos condomínios verticais, e nem ao menos se sabe se esses novos empreendimentos imobiliários estão sendo erguidos com alguma preocupação pela degradação ambiental que eles certamente irão causar.

Pelo que se pode constatar, diante do sucesso de vendas desses empreendimentos, há muito dinheiro circulando por aqui. O que está faltando é um pouco mais de respeito das pessoas para com a arquitetura colonial de São Luís, que é o símbolo maior da identidade da cidade.

Talvez os velhos sobrados do nosso centro histórico despertem amargas recordações nos moradores de São Luís. Lembranças sobre como fomos à falência, no final do século XIX, e de como vivemos na penúria, na maior parte do século XX.

É compreensível que as pessoas não queiram lembrar esse período e os efeitos que ele causou em nossas vidas, mas não é aceitável que elas queiram, ou permitam, que as evidências de que esse período existiu sejam destruídas pelo descaso e abandono.

Goste-se ou não, essa é a nossa História. Talvez ela não seja bela, nem gloriosa, mas é a que temos, e somos hoje o produto de tudo o que ocorreu em nosso passado coletivo. Devemos respeitá-la, portanto, pois diz a sabedoria popular que “quem esquece dos erros de seu passado, está condenado a sempre repeti-los”.

Se o Poder Público não tem recursos para restaurar os casarões coloniais do centro histórico, deveria ao menos obrigar essas construtoras, que estão lucrando muito com a construção desses novos condomínios na nossa orla marítima, para que executem ou financiem esse serviço de restauração, como condição para a concessão de novas autorizações para futuros empreendimentos imobiliários.

Afinal, se essas empresas não tomam essa iniciativa de livre e espontânea vontade, alguém deve lembrá-las que esse tipo de atividade não deve buscar apenas o lucro financeiro, mas também a qualidade de vida e o bem-estar da comunidade onde ela é exercida.

Esse é o significado da expressão “Responsabilidade Social das Empresas”. É bem possível que os empresários do setor da construção civil já tenham ouvido essa expressão antes e saibam bem o que ela significa.

Fazer de conta que a restauração dos sobrados de São Luís é um problema que não diz respeito a esses empresários, ou a todos os que nasceram e vivem na cidade, pode significar que talvez estejamos repetindo um erro que já se cometeu aqui, no passado, e pelo qual pagamos um preço alto demais.

Ou há alguém aqui que queira viver novamente no “tempo das vacas magras”?

*Escritor

e-mail: abe.fer@bol.com.br

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