Roberto Rocha
A tentativa do senador José Sarney de tomar para sua filha o mandato que o povo outorgou ao governador Jackson Lago é bem compatível com o coronelismo retrógado que sempre praticou. É sua forma de buscar por obscuros caminhos o que as urnas lhe negaram. Estimula-o nesse seu novo projeto a ocorrência do Amapá, de dezembro de 2005, quando tomou para um seu correligionário o mandato do então senador João Capiberibe.
Aqui, a nova aventura político-judicial em que agora se envolve, embora com ritos e circunstâncias próprias, nada mais é do que a seqüência das práticas exercidas ao longo de seu mandonismo no estado. No passado, era o desvirtuamento do processo político-eleitoral, um sistema viciado em toda a sua extensão, pelo qual subjugou o Maranhão por quatro décadas. Agora, depois de perder aqui o poder político, não é difícil entender o seu inconformismo, o seu desconsolo, a sua sofreguidão.
A questão é que o tempo passa, o Brasil avança, e o senador Sarney luta para manter aqui o atraso político e social de que tanto se beneficiou. Foi num contexto de autoritarismo, de intimidação, de ruptura das instituições democráticas que ele prosperou em sua carreira política. O vício vem daí. Para ele, vale qualquer artifício, o poder é o que importa.
Porém, mesmo sabendo pouco republicano o modo como o senador busca atingir seus objetivos políticos, tranqüiliza-nos a total improcedência de seu pleito. É que os argumentos do recurso contra a diplomação do governador Jackson Lago nada tem de arrazoado, sobrando ali, além de blefes e bravatas, uma pretensão por tudo descabida.
Até porque, a se repetir aqui o escândalo ocorrido no Amapá, em que se tirou o mandato do vencedor do pleito para o Senado Federal, entregando-o ao candidato derrotado nas urnas, seria a desmoralização da ordem eleitoral do país, com a Justiça subordinada a interesses facciosos. E quando o senador Sarney tenta usar a Justiça como instrumento de reversão de seus insucessos eleitorais, transparece a sua incompreensão de que o Brasil não é mais a republiqueta que ele e seus confrades tentam a todo custo conservar.
É bem verdade que a iniciativa do recurso também teve um outro objetivo prático: manter correligionários diante do que parecia uma debandada incontornável. Vã tentativa de criar uma expectativa de poder que em verdade não mais existe no Estado. É que o Maranhão e o sarneisismo caminham em direções opostas.
Por tudo isso, só em cogitar aqui a mesma usurpação praticada no Amapá já demonstra o equívoco do ilustre senador com o novo momento do Maranhão, com a evolução de seu povo, especialmente a de sua juventude. Significa continuar desprezando a soberania da outorga popular, coisa corriqueira em sua trajetória. Só que, com essas práticas, ele arremessa de vez ao monturo o pretenso título de pai da redemocratização do país, que tanto tenta vender Brasil afora.
Aliás, a propósito daqueles dias, especificamente quando de seu ingresso no PMDB, o ilustre senador se insinuava arrependido de uma trajetória política nada enobrecedora e confessava sentir-se naquele momento como que a trilhar a “estrada de Damasco”. Era ali o novo Saulo, o filho de fariseus e implacável perseguidor de cristãos, que, convertido ao cristianismo, viria a adotar o nome de Paulo, o Apóstolo dos Gentios, o mais devoto dos cristãos.
É pena que por aqui o nosso “apóstolo” não se mantenha retilíneo, nem em seu arrependimento, nem em sua conversão. Volta e meia, uma recaída o arrasta de volta ao coronelismo carcomido em que formou as suas convicções políticas e sociais.
O deputado federal Roberto Rocha escreve para o Jornal Pequeno aos domingos. contato@robertorocha.com.br