A lucta continua
“Diga-se a verdade embora desabem os céus...”
Saulo Barreto Lima Fernandes*
Não é de hoje que Sobral treme, lá atrás no século passado surgiu um personagem marcante chamado Deolindo Barreto. Foi um mártir na liberdade de imprensa, fundador do jornal A Lucta, é preso, tocaiado, excomungado e por fim trucidado à bala em plena luz do dia na Câmara Municipal de Sobral-CE. Não satisfeito com a vida que levava, Deolindo parti para a Amazônia, mas precisamente para Belém do Pará, onde por oito anos fora tipógrafo do jornal “A província do Pará”. Em 1908 retorna para Sobral, trazendo consigo em sua bagagem uma máquina tipográfica e na cabeça tudo que aprendera. De origem humilde sua única educação fora aquela recebida como tipográfo do periódico paraense. Morando de favor, aos fundos de sua garagem começa a imprimir rótulos, convites e cartões de festas. Mas logo vendo que não tinha temperamento para esse tipo de trabalho começa a editar um jornal em formato diminuto chamado de “a mão negra” . Seus opositores, os marretas, como eram chamados os membros da oligarquia cearense, ao ver a presença indesejável do novo jornal, lideram através de Chico Monte, marretista convicto, junto a seus fiéis seguidores, uma passeata com o propósito de fazer baderna em frente a casa do jornalista. É aí que com muita presteza e coragem bota todo o grupo pra correr ameaçando explodir uma granada que carregava consigo, quando na verdade só possuía um simples novelo de linha. Em represália ao acontecido a porta de sua casa amanhece crivada de bala. Inflamado, começa a desferir ataques cada vez mais graves a seus oponentes. Logo após a polícia, corrompida, o intima a suspender a publicação do jornal. Ele acata a decisão, mas em parte, logo depois numa ousada ação lança a mão branca, desta vez Deolindo é preso, mas graças a um habeas corpus é solto.
É chegado o precioso momento em 1 de maio de 1914 nasce A Lucta, por ele mesmo considerado: “Uma temeridade vir doutrinar em um meio onde a politicagem e os preconceitos não admitem a reparação sensata da imprensa” ainda no mesmo jornal, garante: “Não nos intimidarão os arreganhos potentados nem as ameaças dos tiranetes improvisados de um dia”. E assim segue desferindo golpes semanais contra os poderosos sobralenses não se dando conta das inimizades que vinha semeando.
Certa vez durante uma novena, Deolindo sofre mais uma represália: surge um tal Silvestre de arma em punho e Chico Monte seu rival de punhal para atacá-lo, este não vendo saída, logo corre, estampido de balas rasgam o ar por sobre sua cabeça. Diante do tumulto provocado, Chico Monte ordena, sob argumento de bala, que a banda tocasse o Hino Nacional para exaltarem tal feito. Monte é temeroso e espalha terror por toda cidade, este já vereador do partido democrata trava em 1922, em pleno mercado central, um duelo mortal com o tenente Castello Branco onde, faz sua primeira vítima.
O jornalista, mesmo sabendo que já corria iminente risco de vida, declara guerra total aos atos extremista que provocaram a morte do tenente por seu inimigo absolvido por trás dos panos por juizes tendenciosos. Mesmo sem querer, o diário provocava repulsa até no meio religioso, pois Deolindo defendia o casamento civil sobre o religioso e reproduzia crônicas escritas pelo maranhense Humberto de Campos, com o pseudônimo Conselheiro XX, consideradas profanas por conter teor erótico. Por isso e outras tentam de todas maneiras boicotar A Lucta, tentam afastar seus correligionários, impedir assinaturas , propagandas oficiais, mas nada adianta, afinal de contas A Lucta é o mais lido e polêmico da cidade. Prosseguem as denúncias contra juizes, padres e defloradores impunes. Mas, infelizmente a cabeça de Deolindo já estava rifada, no dia marcado para sua morte o dia da eleição toda guarda que fazia cerco ao prédio da prefeitura foi imotivadamente retirada. Sua esposa Mariinha, ao pressentir o que ia acontecer, pede para que não compareça a sessão, porém independente em suas atitudes não atende ao apelo, por não acreditar que seus opositores não seriam capazes de tamanha audácia, correndo o risco de chamar atenção de todo país. Estava errado.
No dia seguinte, às 9h da manhã, de fraque novo, marcha de encontro a morte, estranha a ausência de policiais, segue em frente e ao galgar os últimos degraus da escada se depara com seus desafetos . Ao começar o pleito inicia a briga em torno da legitimidade da presidência da sessão. Deolindo é agarrado, tenta fugir, cai do gradil e encostado na parede onde soam uma fuzilaria de mais de 20 revólveres que disparam simultaneamente contra seu corpo , cai agonizando, é quando surge no clímax dessa barbárie, no meio de toda fumaça de pólvora, Chico Monte e com um gesto macabro desfere à queima roupa, tiros nos dois pés do jornalista que solta um grito ensurdecedor de aflição. Teimoso até com a morte não morrera na hora, vivera ainda dois dias de dolorosa agonia. Ao final da vida, fora assistido pelo Pe. José Ferreira Gomes a quem pediu os caldamentos da confissão e da comunhão. No confuso processo aberto que tratou em identificar os atiradores, nada foi apurado, ninguém foi responsabilizado pelo acontecido. Sua mulher e seus sete filhos se desfazem da oficina e se mudam para Fortaleza.
Bem esse é um resumo da história desse grande ícone que entregou sua vida pela verdade. Ele era irmão de meu bisavô, que para efeitos civis nem é considerado meu parente, mas confesso que sua biografia me despertou uma profunda curiosidade. Para saber mais sobre sua vida existem livros que tratam de sua existência. O mais completo deles, é sem dúvida, o livro “Vida, paixão e morte de Etelvino Soares” publicado pela editora Maltese e escrito pelo imortal membro da ABL, Lustoda da Costa. Ele descreve a história numa versão romanceada onde troca, não sei por que motivo, os nome verdadeiros por fictícios, o mesmo livro foi publicado também por uma editora portuguesa. Há outro livro menor que trata do assunto, é o “Inventário de Deolindo Barreto” da edirora Corifeu onde a organizadora da obra transcreve todo o processo cível que tratou da sucessão de bens para os seus filhos. Possui um caráter histórico-documental. Hoje a praça em que foi covardemente assassinado há um busto em sua homenagem onde logo abaixo transcreve-se: “Homenagem do povo sobralense a Deolindo Barreto no seu primeiro centenário, ao jornalista que fez da sua pena a espada para defesa dos humildes de espíritos e dos quem tem sede de justiça”. Sobral 14 de maio de 1984.
*Acadêmico de Direito
sauloblf@hotmail.com