TABELA DE ESPANCAMENTO DE JORNALISTAS
JM Cunha Santos (interino)
A súbita depravação orgânica da política maranhense, provocada pela gangrena raivosa de mercenários de uma polícia política particular, chupou a crosta de civilidade ateniense do Maranhão. Por conta disso, anúncios em letras e sons garrafais passaram a circular nos órgãos de imprensa do Estado:
“Contratamos, conforme tabela anexa abaixo, alterofilistas, lutadores de artes marciais em geral e de luta livre, skin heads e torturadores potenciais para, ocasionalmente, espancarem jornalistas”.
1
Se denunciar desvio de merenda escolar ou verba do Fundeb - R$ 1.000,00.
O valor suprimido do “trabalho” deve-se ao fato de que o crime denunciado foi cometido contra pessoas (crianças) que já eram naturalmente famintas.
2
Se denunciar espionagem ou participação de quem quer seja em chantagem contra senadores ou deputados federais, visando modificar votos e posições no Congresso Nacional - R$ 2.500,00.
No caso do responsável pela agressão ou tentativa de agressão ser conduzido coercitivamente à Delegacia o que, dependendo de sua importância política, configurará atentado aos direitos humanos, dobra-se o preço da pisa no jornalista.
3
Se, consciente disso, divulgar pesquisa falsa com o fim de desacreditar administrações adversárias de seus patrões na Mídia - R$ 10,00.
Esse crime é tão comum em certas regiões e em determinadas épocas que se o preço da pisa não for mantido abaixo de todas as especulações, haverá uma superlotação de jornalistas nos hospitais da cidade.
4
Se o jornalista, por questões ideológicas, ousar denunciar e criticar oligarquias carcomidas e vencidas, através das páginas dos jornais e tiver ainda o desplante de reuni-las em livros - R$ 3.000,00.
Não se pode permitir que jornalistas façam história documentando as improbidades administrativas, a tirania e o autoritarismo de um mesmo grupo ou família. Depõe contra o Princípio da Autoridade e esgota o Elogio da Corrupção.
5
Outros itens constantes da Tabela serão mantidos em segredo e só serão revelados aos verdadeiros interessados nos contratos. Podemos adiantar, no entanto, que a pisa em jornalistas alinhados à situação sai bem mais cara que a pisa em jornalistas alinhados à oposição. Os riscos, evidentemente, são bem maiores.
REFLEXÕES SOBRE O SISTEMA MIRANTE
JM Cunha Santos
O jornal O Estado do Maranhão se apropriou de uma linguagem cínica o bastante para mudar todos os conceitos do jornalismo moderno. Não se trata de uma virtuose, nem de uma virtude. É, além, uma deformação das práticas secularmente preferenciais na Galáxia de Gutemberg.
A androginia que se constata na literatura noticiosa do Sistema Mirante, é fruto da pura e simples ausência de regras, de uma total falta de sintonia com os valores da ética profissional. Um jornal, comum ou eletrônico, não pode ter o comportamento de um escritório de lobbys. Com eles é diferente. Seus jornais refletem um evidente protecionismo aos senhores da corrupção no Brasil. Os casos, por exemplo, de Jader Barbalho na SUDAM e do senador Renan Calheiros com seus bois de diamante, já bastam para nos cientificarmos disso.
Também as relações cotidianas da imprensa oficial de Sarney são desalentadoras. Sustentados num terrível monopólio dos meios de comunicação, promovem ataques reais e irreais, inventam crimes e criminosos, bagunçam as discórdias naturais das relações humanas. É como se entre seus redatores circulasse uma espécie de Lista de Chindler às avessas (os escolhidos vão para a Câmara de Gás) e é a partir daí que forjam imagens, cortam cabeças, escolhem alvos como se fossem cães de guerra. Nenhum artista terá sucesso caso se oponha à política do clã, nenhum escritor será reconhecido se constar dessa lista de maldições. Quanto aos políticos, eles serão intelectual e moralmente barbarizados nas entranhas dessa insuportável máquina de sujeição.
Mesmo os méritos de seus repórteres e redatores tornam-se relativos, posto de que de seres pensantes são transformados em peças de uma engrenagem superior, capaz de moer personalidades com o mesmo vigor despudorado daquelas máquinas de caldo de cana.
Imponentes, pela competência de exacerbar o ego de uma elite intelectual, empresarial e jurídica decadente e sem perspectiva, usam esse poder à vontade para, publicando faniquitos sociais e vitórias de Pirro, transformar pobres beócios em pessoas relevantes. Daí a multidão de seguidores dispostos a pagar alto para não sair do foco de seus holofotes.
A orgia principesca vivida pelo Sistema no clube dos cofres públicos durante tanto tempo, é um exemplo crasso de como essa relação serviu também para macular o conceito de Estado. Todos os governantes do Maranhão até hoje tem sido reféns do poder de propaganda do Sistema Mirante. Assim como a grande maioria dos intelectuais, juristas, deputados, artistas, escritores etc. É um poder extremo. Fora deles não há divulgação que se sustente no Estado inteiro. Somente eles conseguem ocupar todos os espaços urbanos do Maranhão.
Entretanto, patrocinar a involução do modelo de jornalismo hoje praticado no mundo não é, como parece, um ato politicamente falho do ponto de vista dos interesses pessoais. É assim que Sarney se prepara para enfrentar a lei e a ordem. Por exemplo, quando estrebucha dia e noite em torno de um processo de cassação do governador Jackson Lago, consegue esconder as filigranas de irregularidades cometidas por pessoas outras, como Fernando Sarney e Edinho Lobão que sumiram milagrosamente das crônicas de corrupção do Estado.
(othelinofilho@yahoo.com.br)
(othelinoneto@yahoo.com.br)