Pois é
O desabar da noite é como o alvorecer aos ratos, não havendo galos em seus anúncios de sempre. Há sapos invisíveis em suas sinfonias inacabáveis.
Não há tempo frio, há mormaço. Há uma janela ao terraço, em frente ao muro. A janela tem grades de ferro, o muro tem cacos de vidros.
Depois das grades e dos cacos de vidros está o tempo no seu logo mais, entardecendo o amanhã, tingindo com as cores invisíveis a perspectiva do que está por vir. A certeza do que vai ser, se esvai.
O desabar da noite está aí, em anúncio de um novo dia.
Num telhado escasso de uma casa enorme há uma enorme antena. O relógio da sala engole as horas, depois toca, toca, continua engolindo as horas. Ninguém se incomoda por isso.
As janelas estão abertas. Todas as bocas estão abertas, e como tem boca querendo boquinha, ou jorrando palavras, frases por nada buscando efeitos.
Todo mundo deseja tudo a todo mundo e é quase certo que amanhã mesmo ninguém assuma a coragem de uma contrariedade, a contestação com um gesto.
Onde andas Dino Preti, com os teus signos prosódicos? Vê se fala com ele oh Jack Keruoac. E nada de lhe dizer que fique e não sei o que mais. Amarelou, hein neguinho! Vai buscar, Fellini, aquela caixa preta do Amacord.
Ainda me lembro da cena. Para mim, o violino vem lá de cima, disseram. Diversas lanternas apontaram seu feixe de luz para o rumo do céu e o clarão subiu tanto que acabou iluminando o campanário avolumado da igreja.
Com efeito, um clarão chegou a distinguir um pequeno gramofone de corneta, pousado no parapeito do campanário.
O Hierarca disparou os primeiros tiros. Os fascistas dispararam outros. O máximo que conseguiram foi que uma bala atingisse de raspão a corneta do gramofone, provocando um pequeno pulo no braço da agulha.
O importante de tudo isso foi que a música provocadora continuou.
Por isso é que eu tenho a impressão que, a estas alturas e por estas luas tantas, não vou mais ter que ficar naquele corredor estreito do pensamento. Agora, as minhas palavras, libertas como a minha alma, atravessarão rios a nado e bem devagar.
Não podemos mais consentir em que o nada ocupe o tempo como um relógio velho preenchendo a parede na noite em que todos saíram de casa. O relógio velho só mexe o pêndulo quando o vento invadindo a casa pelas rótulas da janela esbarra na parede.
Levem este relógio velho desta casa.
Não há porque suportar tantos maus exemplos. A começar pelo mau exemplo do relógio velho que finge estar trabalhando. Quando na verdade é o vento que lhe bate no pêndulo.
É só ver os ponteiros como estão parados, apunhalando com a inação os algarismos nas auroras. Ferindo os dias com a sua incompetência.
Como dizia o Ataulfo Alves, a maldade nesta gente é uma arte. Pois tudo que está escrito aí acima eu acabei de copiar de um livro chamado “Os Dias Lindos”, publicado em Brasília, DF, 1979, e o autor do livro sou eu.
Edson Vidigal, ex-presidente do STJ, professor de Direito na Ufma, escreve para o Jornal Pequeno às quintas-feiras.