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SEBASTIÃO NERY
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SEBASTIÃO NERY

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Data de Publicação: 15 de abril de 2008
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O ‘LUDIBRIADO’ PAULO EGYDIO

RIO - (Continuação das histórias do livro "Paulo Egydio Conta"): "Para preencher cargos-chave do governo, havia norma de consultar o SNI (Serviço Nacional de Informações), para saber os antecedentes da pessoa. Logo que entrei no Ministério (Indústria e Comércio, governo Castelo), Golbery me explicou:

'A diferença entre um informe e uma informação é a seguinte: o informe é ouvir dizer, é para ser verificado, é um primeiro boato. A informação é um fato que está comprovado. Quando você receber uma informação com um visto meu, é para cumprir.'

Um dia recebi uma informação com o visto do Golbery, dizendo que um alto funcionário do Ministério era um pederasta que mantinha relações com contínuos no gabinete dele. Ele pedia que eu o demitisse.

Comecei a levantar a vida do tal rapaz. Como não constatei nada, não assinei nenhum decreto. Golbery me cobrou. Expliquei a ele:

'Ministro, lamento muito mas não constatei aquelas informações.'

'Paulo eu não disse a você que uma informação com o meu visto era para ser cumprida?'

'O senhor disse, mas acontece que caberia a mim a responsabilidade de exonerá-lo. Não constatei nada. Não cumpri.'

'Mas isso é muito grave. Precisa ser cumprido.'

'Então ponha outro ministro no meu lugar, porque não vou cumprir.'

Na saída de uma outra reunião, ele me deu um tapinha nas costas:

'Paulo, você se lembra daquele caso? Você tinha razão. Era um homônimo. Assunto encerrado.'

CASTELO

Outra história. "Castelo tinha assinado um decreto, publicado no Diário Oficial, proibindo o aumento de salário dos procuradores públicos. Leônidas Borio, considerando o IBC (Instituto Brasileiro do Café) uma autarquia, concedeu um aumento aos procuradores do Instituto. O presidente interpelou Borio diretamente:

'O senhor não comunicou ao seu ministro. Como explica isso?'

' Sou presidente de uma autarquia e considero que cabe a mim.'

'O senhor não está entendendo a politica de meu governo. Não está entendendo coisa alguma. Vai ter que revogar isso de qualquer maneira.'

O presidente bateu na mesa, ficou transtornado. Foi uma cena muito desagradável. Inclusive ele perdeu o fôlego, respirava com dificuldade. Até me passou pela cabeça que ele poderia ter um problema físico ali na hora. Borio recuou, foi até o fim do governo como presidente do IBC".

'INGÊNUOS'

Como essas, há dezenas de outras histórias no surpreendente livro "Paulo Egydio Conta", como comecei a mostrar na coluna de sábado ("Amador, o Governador"). É sobretudo um espetáculo de ingenuidade:

1. Pág. 185: "Não estávamos preparados para o que veio depois. Tenho que reconhecer que nós, civis, fomos completamente ingênuos (em 64). Não tínhamos noção de que havia grupos dentro do Exército que já planejavam ter o domínio do país, num regime militar, por mais tempo".

2. Pág. 188: "Foi uma surpresa a maneira como nós, civis, fomos tratados. Dias depois do desenlace da Revolução, sentimos que o nosso papel tinha acabado. Passamos a ser totalmente esquecidos, alijados".

3. Pág. 322: "Eu queria manter a liberdade. Pela minha falta de conhecimento dos militares, participei de um governo ditatorial. Jamais participaria de outro, em hipótese alguma, custasse o preço que custasse".

4. Pág. 476: "Os militares tornaram o movimento ditatorial. Eu queria a volta à democracia. Eu me sentia ludibriado pelos militares".

5. Pág. 502: "Esforçar-me na campanha (da Arena, em 1974) era reforçar a idéia de um regime democrático dentro de um Estado ditatorial".

ERROS

Em um livro do Cpdoc-Fundação Getulio Vargas, patrocinado pelo banco Itaú, há uma série de pequenos erros, por isso incompreensíveis:

1. Págs. 73 e 75: "Era a época do ministro Clemente Mariani (da Educação, Dutra, 46 a 50), cujo chefe de gabinete era Prisco Viana" (sic).

Errado. Era Prisco Paraíso. Prisco Viana foi secretario de Imprensa do governador Luís Viana Filho (67 a 70), deputado e ministro de Sarney.

2. Pág. 163 (nota 72): "Nas eleições de 60, concorreram as chapas de Jânio Quadros-Milton Campos (PTN-UDN), Lott-Jango (PSD-PTB), Adhemar de Barros-Fernando Ferrari (PSP-MTR) (sic).

Errado. O vice de Adhemar foi Danton Coelho. Ferrari saiu sozinho.

3. Pág. 221 (nota 106): "Em 13 de dezembro de 68 (no AI-5), o Congresso entrou em recesso e dele só saiu em 25 de outubro de 69, para a eleição de Costa e Silva" (sic).

Errado. Foi para a eleição de Médici. O AI-5 foi de Costa e Silva.

4. Pág. 328: "Até que veio o AI-5. Um jantar no Jockey Club com Armando Falcão (sic) me deixou numa posição desconfortável".

Errado. Armando Falcão foi ministro da Justiça de JK e Geisel. O jantar dos "maus momentos" foi com Alfredo Buzaid, ministro da Justiça de Medici, que substituiu Gama e Silva, ministro de Costa e Silva.

5. Pág. 377 (nota 147): "Nas eleições de 74 para as Assembléias, Câmara e 1/3 do Senado, registrou-se pela primeira vez uma expressiva vitória do MDB. No Senado, a bancada do MDB aumentou de 7 para 20".

Eram 22 Estados. De "7 para 20", fica parecendo que o MDB elegeu só 13 senadores. E a vitória foi de 16 do MDB contra 6 da Arena. O MDB reelegeu 3. (Conferir meu livro "As 16 Derrotas Que Abalaram o Brasil")

(www.sebastiaonery.com.br)

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