Um morreu na hora e o outro só foi resgatado à tarde
Por José Linhares Jr.
Wanderson Douglas Galvão Silva tinha 18 anos e era pai de uma criança de apenas três meses. Na manhã de ontem, ele e o mestre de obras Airton Dias Castro, 39 anos, foram soterrados em uma obra no estacionamento do Hospital São Domingos. A obra é parte do programa de expansão do hospital e deveria ampliar o setor de emergência. Durante o resgate dos corpos, técnicos do Corpo de Bombeiros levantaram a suspeita de que a tragédia aconteceu por falta de segurança no local.
Pouco tempo - Desde segunda-feira (2) as equipes se revezavam nas obras de ampliação do setor de emergência do hospital. Wanderson, que era servente de pedreiro, trabalhava no turno da manhã, mas há alguns dias foi transferido para o turno da noite. De acordo com o pai do jovem, Wanderson estava há pouco tempo na profissão. "Ele trabalhava neste tipo de serviço desde os últimos seis meses. Apesar disso, tinha muito orgulho do que fazia", explicou Gilson Douglas dos Santos Silva.
A equipe em que Wanderson e Airton trabalhavam, iniciava a jornada às 19h e encerrava às 7h da manhã. No momento da tragédia, Wanderson estava dentro de um buraco onde seriam instaladas as fundações de sustentação da estrutura do prédio. Airton estava na superfície e foi tragado pelo buraco.
Chamaram o Samu - O socorro começou a ser prestado por outros operários que trabalhavam no local e chamaram uma ambulância do Samu, tendo em vista que a emergência do São Domingos não atendeu a vítima, segundo os trabalhadores e pessoas da família. O Corpo de Bombeiros foi acionado e enviou cerca de 30 homens imediatamente para a obra. O corpo de Airton foi encontrado em pouco tempo, colocado na ambulância, mas os médicos do hospital atestaram que ele já estava sem vida.
No decorrer da manhã, centenas de pessoas se aglomeravam na Avenida Jerônimo de Albuquerque para observar o resgate. Além do trabalho manual, foram utilizadas duas escavadeiras para recuperar os corpos dos operários.
A culpa é de quem? - Às 10h da manhã, Clóvis da Silva Sousa Filho, da Defesa Civil, deu uma declaração sobre os possíveis motivos do deslizamento. "Inicialmente, o que podemos observar é que as escoras feitas ao redor do buraco foram muito frágeis. Logicamente esta não é uma questão fechada, mas a suspeita já se configura desde o início", frisou.
Logo depois, a construtora R.N. Mendes divulgou uma nota onde culpa as fortes chuvas da madrugada de sábado pelo soterramento da escavação. Na nota, a construtora também afirmou que a obra é de sua inteira responsabilidade e que todos os padrões de segurança exigidos pela legislação brasileira foram seguidos rigorosamente.
Família contesta construtora - Um dos familiares das vítimas contestou as informações passadas pela construtora. "Eles dizem que as chuvas na madrugada eram fortes demais. E o que o pessoal fazia dentro daquele buraco se eles tinham conhecimento do perigo? Essa história foi muito mal contada", disse.
Um inquérito instaurado pela Defesa Civil deve indicar os culpados pela obra. Durante o resgate, membros do Corpo de Bombeiros esperaram o engenheiro responsável pela obra durante horas. "Ele já era para estar aqui", comentou um dos membros da Defesa Civil já no fim da manhã.
12 horas soterrado e 'bloqueio' à imprensa
Somente no final da tarde, por volta das 16h30, quase 12 horas depois do acidente, os trabalhadores que faziam a escavação conseguiram resgatar o corpo de Wanderson Douglas Galvão Silva. O chefe da segurança do hospital demonstrou todo o despreparo dos 'leões de chácara' e fez de tudo para dificultar o trabalho dos repórteres, cinegrafistas e fotógrafos que estavam no local desde as primeiras horas do dia, tentando cercear o direito de acesso às imagens da retirada do corpo.
Mentiu em nome da família - Questionado pelos repórteres sobre o 'escudo anti-jornalistas', o chefe da segurança disse que cumpria ordens da família do morto, que não queria imagens. Os jornalistas, então, foram solicitar a autorização ao senhor Gilson Douglas, pai de Wanderson que retrucou: "é mentira dele, podem fazer as imagens. Eles querem é esconder tudo para que a justiça não tome conhecimento da irresponsabilidade dos donos", disse.
O coronel bombeiro militar Robério, da Defesa Civil, também teve sua parcela de culpa ao não atender aos apelos das equipes que estavam no local. Ele colocou os 30 bombeiros voluntários em um 'cordão de isolamento' para impedir que os fotógrafos colhessem imagens da retirada do corpo. Trabalhadores da obra disseram que o oficial estaria "obedecendo ordens" da diretoria do Hospital São Domingos. (Com informações de Raymundo De Souza)