CIDADE DEBAIXO D’ÁGUA - A canoa às vezes se chocava com colchões, sofás, cadeiras, guarda-roupas – submersos nas ruas que viraram rios
Mais de 70% da área urbana de Trizidela do Vale (a 276 km de São Luís) foram inundados pelas águas do rio Mearim. Parou de chover, mas a água insiste em não baixar. Dependendo do local, chega à profundidade de 1 ou 2 metros. Para percorrer as ruas mais atingidas – travessa Boa Vista e rua São Joaquim (setor Floresta) e rua do Campo – só mesmo de canoa. Foi o que fiz, na canoa de Daniel Vieira da Silva, um morador da rua São Joaquim, que teve a casa invadida e parcialmente destruída pelas águas.
A navegação não foi tão fácil. Vez por outra, o remo ou o casco da canoa batia em objetos que já haviam sido parte da mobília de alguma casa – colchões, sofás, cadeiras, poltronas, guarda-roupas.
O que mais me causou espanto foi ver que, apesar de a água estar cheia de detritos e com forte mau-cheiro, muitas crianças brincavam nela. Até um “pescador” apareceu na travessa Boa Vista. Marcos Aurélio da Silva atirou sua rede várias vezes na água fétida. Eu não o vi pegar nada, mas ele garantiu que tem muita piabinha nas ruas que viraram rios.
Muitos moradores e pequenos comerciantes já retornam para seus imóveis, não para se instalar, porque a água ainda não permite, mas para limpar o que dá para ser limpo e ver se o pouco que conseguiram salvar não foi roubado.
Jean Douglas Santos de Lima e Filomena Rodrigues de Sousa, donos de um barzinho na travessa Boa Vista faziam uma faxina geral no estabelecimento. Eles estão morando, desde o dia da inundação – 31 de março – numa casa em construção, no bairro Diogo, em Pedreiras.
Jean e Filomena conseguiram salvar quase todos os seus poucos bens, mas são minoria entre os desalojados de Trizidela do Vale. A rapidez com que o Mearim subiu e a violência das águas não deram chance para a maior parte dos moradores da rua São Joaquim e da travessa Boa Vista.
“O jeito foi deixar os móveis pra trás. Não era nada de luxuoso, mas para a gente que é pobre, é muito triste perder nossas coisinhas, conseguidas com tanto sacrifício”, disse Lusilene Lima da Silva, moradora da travessa Boa Vista, que está abrigada na antiga usina do Chico Leriano, com a filha de 10 anos.
Na rua do Campo, a situação não é diferente das ruas do setor Floresta. A diferença é que a água está bem mais alta: chega quase ao teto de algumas casas. Naveguei na área numa lancha pilotada por Francisco Barbosa dos Santos, o “Dida”, secretário de Articulação Política de Trizidela.
Para “Dida”, a cheia deste ano do Mearim foi a maior dos últimos 12 anos. “E os problemas não acabam com a volta do rio ao nível normal. Aí vem a questão da reconstrução das casas nas áreas atingidas. A maioria delas é de feita de taipa e ‘derrete’ no mais de um mês que ficam dentro d’água. Temos uma cerâmica comunitária, que no momento está desativada. Vamos estudar a possibilidade de reativá-la para fornecer os tijolos e as telhas para as construções. Ou tentar descobrir outra solução para garantir a moradia dos desabrigados”, disse o secretário. (Oswaldo Viviani)
Em Pedreiras, 3,5 mil estão desabrigados
Perto de 700 famílias (3.500 pessoas) foram desalojadas pelas águas do rio Mearim em Pedreiras (a 274 km de São Luís).
As áreas mais atingidas na sede são o Matadouro (travessa da Estrela) e a Boiada (rua do Campo). Centenas de ribeirinhos moradores de povoados também tiveram suas casas invadidas pelas águas.
Os desabrigados de Pedreiras estão alojados em escolas, instituições de assistência e prédios públicos. Eles dividem espaço com desalojados de Trizidela que não encontraram abrigo em seu município.
No Centro Comunitário Paulo VI, na rua Ciro Rego (ao lado da igreja de São Benedito, centro de Pedreiras), cerca de 15 famílias estão morando provisoriamente. Um varal foi instalado na entrada do centro. Também a escadaria da igreja de Santo Antonio é usada para secar as roupas dos desabrigados.
Além das inundações, Pedreiras sofre com a falta d’água. Uma estação de captação da Companhia de Águas e Esgotos do Maranhão (Caema), localizada no rio Mearim, afundou com a enchente e está inativa. No bairro Diogo, um dos mais populosos da cidade, falta água há 15 dias.
Atingidos pelas enchentes no Maranhão já são 60 mil
De acordo com o Comitê Permanente Emergencial do Governo do Estado e a Coordenadoria Estadual de Defesa Civil, o total de desabrigados pelas inundações no Maranhão é de perto de 38 mil pessoas. No entanto, o número de afetados pode chegar a 60 mil vítimas, se forem contabilizadas, por exemplo, crianças cujas escolas estão servindo de abrigo e que, por isso, ficaram sem aula.
São 35 os municípios maranhenses que decretaram estado de emergência ou de calamidade pública, ou estão em situação anormal (em situação de decretação de emergência). São eles: Arame, Alto Alegre do Pindaré, Boa Vista do Gurupi, Coroatá, Davinópolis, Gonçalves Dias, Governador Archer, Imperatriz, Jatobá, Lagoa Grande, Lago da Pedra, Paço do Lumiar, Pedreiras, Presidente Vargas, Presidente Dutra, Raposa, São José de Ribamar, Trizidela do Vale, Santa Quitéria, Timon, Tutóia, Nina Rodrigues, Cidelândia, Bom Jesus da Selva, Açailândia, Pindaré Mirim, Buriti, Governador Newton Belo, Coelho Neto, Araioses, Esperantinópolis, São Luis Gonzaga, Satubinha, Grajaú, Santa Luzia do Tide.