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Falsos desabrigados vendem material enviado pelo governo

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Data de Publicação: 13 de abril de 2008
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OPORTUNISTAS DA CALAMIDADE - Homem que comprou seis colchões num abrigo foi flagrado por equipes de ajuda aos flagelados

POR OSWALDO VIVIANI

De Trizidela do Vale

Pessoas que se passam por desabrigados pela cheia do rio Mearim, em Trizidela do Vale e Pedreiras (municípios vizinhos que foram os mais afetados por inundações no Maranhão), estão recebendo, e em seguida vendendo, os materiais doados a título de ajuda emergencial pelo governo do estado e pela Prefeitura – como colchões, botijões de gás, filtros, lençóis, toalhas de banho, redes, cestas básicas etc.

A prática desse comércio oportunista da calamidade – que não chega a ser inédito na região, mas que este ano se intensificou com o envio de maior volume de ajuda aos flagelados – foi confirmada à reportagem do JP tanto por Violeta Azevedo, coordenadora da entrega dos materiais vindos do governo estadual (Secretaria de Desenvolvimento Social), como por Cíntia Araújo, secretária de Ação Social de Trizidela do Vale.

“Chegamos a flagrar, na ponte sobre o rio Mearim, um homem transportando, numa carroça, seis colchões destinados aos desabrigados. Perguntamos onde ele os havia obtido e o homem disse que tinha comprado cada colchão por R$ 15 de uma pessoa que estava num abrigo em Pedreiras, a escola Olindina Nunes Freire”, contou Violeta Azevedo.

“Muitos também pegam filtro e vale-gás da ajuda aos desalojados para depois vender ou até trocar por cachaça no comércio”, afirmou uma integrante da equipe que distribui o material aos desabrigados.

De acordo com Cíntia Araújo, da Secretaria Municipal de Assistência Social, a Prefeitura de Trizidela do Vale já distribuiu às cerca de 1.800 famílias (9 mil pessoas) atingidas pela enchente do rio Mearim, nas últimas duas semanas, 1.000 cestas básicas, 250 botijões de gás, 7 mil litros de leite (500 litros por dia) e 28 mil pães (2.000 por dia).

O governo do estado enviou, até agora, a Trizidela do Vale 437 colchões (337 de solteiro e 100 de casal), 200 filtros, cerca de 400 lençóis e igual número de toalhas de banho e redes, enquanto o governo federal só mandou à região, até o momento, 1.000 cestas básicas, para serem distribuídas em Trizidela e Pedreiras. Em Pedreiras, perto de 700 famílias (3.500 pessoas) foram desalojadas pelas águas do Mearim.

Apesar do rigor no cadastramento das pessoas que recebem os materiais, os próprios coordenadores da distribuição admitem que pessoas agindo de má fé já conseguiram burlar o controle e ter acesso a uma maior quantidade de utensílios.

A comercialização dos materiais doados pelo poder público não está sendo investigada ou reprimida pela polícia. Além desses crimes, muitas pessoas cometem outros delitos em Trizidela e Pedreiras, aproveitando-se da situação de emergência nas duas cidades. O furto de fiação elétrica nas áreas alagadas (a energia dos locais foi desligada pela Cemar) é um deles. Os locais usados como abrigos também sofrem depredação, segundo representantes do poder público municipal.

Doenças se espalham pelos abrigos de Trizidela e Pedreiras

Conjuntivite, diarréia, dermatites, gripe. Pelo menos metade dos cerca de 12.500 desabrigados de Trizidela do Vale e Pedreiras sofre com uma dessas enfermidades. A situação em que vivem as famílias nos abrigos – espremidas em pequenos espaços e às vezes dividindo objetos pessoais – facilita a proliferação das doenças.

A conjuntivite é o problema mais sério. Causada por vírus ou bactéria, e caracterizada por lacrimejamento, coceira e irritação (sensação de areia nos olhos), a doença – que é infecciosa – se espalhou rapidamente pelos alojamentos, atingindo indistintamente adultos e crianças.

Em Trizidela do Vale, é difícil encontrar quem não tem (ou já teve) conjuntivite nos 35 abrigos e nas mais de 20 casas cedidas pela população ou alugadas pela Prefeitura para alojar os atingidos pelas enchentes do rio Mearim.

Na Unidade de Ensino Santo Antonio de Pádua, por exemplo, Neusa Borges da Silva e todos os seus 8 filhos estão com a doença. Só o marido de Neusa, o pedreiro Antonio Marcos do Nascimento, escapou de ser infectado, pelo menos por enquanto.

Da mesma maneira que na família de Neusa – que teve a casa invadida pelas águas na rua do Campo, a área mais atingida pelas inundações –, ao menos um integrante de cada uma das outras nove famílias que moram provisoriamente na U.E. Santo Antonio de Pádua contraiu conjuntivite.

Entre os infectados, raros procuram ajuda médica. A maioria prefere adotar soluções caseiras para tratar a enfermidade, como fazer compressas de água gelada nos olhos. Já nos olhos dos bebês com conjuntivite, as mães usam, no lugar da água gelada, leite de peito.

Além da conjuntivite, da diarréia, da gripe e das dermatites, outras doenças, como dengue e leishmaniose – que podem atingir a população depois que as águas baixarem –, também preocupam as autoridades sanitárias de Trizidela e Pedreiras.

Oficina de bicicletas vira abrigo para vítimas da enchente

Edivaldo Manoel de Sousa, Antonia Regina da Silva e seus três filhos pequenos foram expulsos, há 15 dias, pela violência das águas do rio Mearim, de uma pequena casa, na rua São Joaquim (centro de Trizidela do Vale), onde pagavam R$ 60 de aluguel para morar.

Sem conseguir vaga nos abrigos, Edivaldo e Antonia já começavam a se desesperar, quando souberam, por meio de um parente, que o dono de uma oficina de bicicletas estava disposto a ceder para a família um quartinho anexo ao seu local de trabalho.

Seu Carlos, mais conhecido no bairro Aeroporto, onde mora, como “Carlito Fuscão Preto”, disse ao JP que se sentiu gratificado em ajudar a família. “O lugar é pequeno, mas é o que eu posso oferecer. Fico feliz em ajudar. Eles podem ficar aqui até encontrar outro lugar”.

Edivaldo, Antonia e os três filhos – Cauê (1 ano e 3 meses), Pablo Manoel (3 anos) e Lucas (7 anos) – já têm onde morar. Mas eles ainda padecem com outros problemas. A família toda está doente, uns com gripe forte, outros com conjuntivite. O lavrador Edivaldo também está angustiado por não poder trabalhar: praticamente todas as pequenas áreas plantadas de Trizidela estão debaixo d’água.

Outros lugares tão insólitos como a oficina de bicicletas do seu “Carlito Fuscão Preto” também estão sendo utilizados para abrigar os flagelados da cheia do rio Mearim. Estádio de futebol, Estação Rodoviária, clube recreativo, usina de arroz, usina de óleo, madeireira, igrejas (católicas e evangélicas), qualquer edifício amplo – desde que esteja localizado em locais altos, como os bairros Aeroporto, Jerusalém e Santo Antonio dos Oliveiras – vira moradia para a legião de desabrigados.

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