CASO PADRE FÉLIX - Ex-companheiro do padre Félix afirma que moverá ação contra ele por calúnia e ameaça de morte
AURELIO CARVALHO
Especial para o JP
Na última quarta-feira, dia 9, a reportagem do JP fez uma entrevista exclusiva com um jovem de 22 anos que afirma ter conhecido o padre Félix Barbosa Carreiro, hoje com 45 anos, em setembro de 2006 – seis meses depois de o religioso ter deixado a prisão (ele foi preso em 5 de novembro de 2005 sob a acusação de exploração de menores). Na entrevista, o jovem afirmou que ele e o padre teriam começado um relacionamento amoroso, chegando, inclusive, a morar juntos, no bairro Paranã. Ele acusou o religioso de ter continuado a praticar exploração sexual de menores, após ser colocado em liberdade, e de desviar dinheiro da igreja católica, gastando com adolescentes. Também disse que moverá ação contra o padre Félix por calúnia e ameaça de morte
“Terminei o relacionamento com o padre Félix porque descobri que ele não aprendeu nada com a prisão. Mesmo estando comigo, continuou utilizando salas de bate-papo da internet para marcar encontros com menores. Confesso que de tanto ele insistir, cheguei a ir com ele e um menor, a um motel. Só que quando eles começaram a fazer sexo, me senti mal, e saí de lá. Félix é um doente. Eu sei disso e ele também sabe, pois ele cansou de me pedir ajuda para curá-lo desse vício”, revelou o autor da denúncia.
Roubo na igreja – O jovem também contou ao JP que vai entrar na Justiça contra o padre Félix, por calúnia e ameaça de morte. O padre estaria espalhando para amigos, parentes e familiares, que o jovem teria sido o grande causador da crise financeira pela qual se encontra, quando, na verdade, segundo o entrevistado, seria o padre, o vilão da história. “Fiz o projeto de uma ONG a pedido do padre. O projeto foi aprovado por uma instituição católica da Alemanha, que liberou 12.540,12 euros (equivalente a cerca de R$ 32 mil) para as ações. Mas acontece que o padre Félix gastou 6.500,82 euros (em torno de R$ 16 mil) para fundar o curso Educa Net, junto com irmão, Fábio Carreiro, e a cunhada, Tatiane, dizendo que estava fundando uma ONG; e o restante do dinheiro gastou com menores de idade, em farras em motéis, compra de um carro... enfim. Eu, além de ter sido excluído da ONG, estou sendo caluniado”, afirmou.
Ameaça - Quanto à ameaça de morte, o jovem disse que isso aconteceu quando o padre descobriu seu envolvimento com um professor do Uniceuma. “Já estava quase curado da decepção que sofri com Félix, e estava tendo um relacionamento sério com este professor. Mas quando o padre descobriu, minha vida virou um inferno. Ele me seguia na rua, chorava, tentava me colocar à força no carro dele, ia até à casa da minha mãe, de madrugada, dizer que eu não queria mais ele... E quando percebeu que não tinha mais volta, disse que ia me matar, caso eu não reatasse nosso relacionamento. Na época, não denunciei por medo e por pena, já que ele havia saído da prisão recentemente. Mas agora vi quanto tempo eu perdi, sem que ele tivesse o menor respeito por mim. Já conversei com advogados, e decidi que vou entrar com um processo contra ele”, garantiu.
Promotoria – A promotora de Justiça de Crimes contra a Criança e o Adolescente, Sarah Albuquerque, que está cuidado do “caso padre Félix”, disse que nenhuma nova denúncia contra o religioso chegou à Promotoria, e afirmou que o processo já está em fase de julgamento. “Já houve a instrução criminal, mas o advogado do co-réu Edson Corrêa Soares Filho (que estava com o padre no Fly Motel, no Turu, na época da prisão), precisa ser ouvido. Já o intimamos várias vezes, mas ele mudou de endereço e por isso não foi comunicado. O Ministério Público já foi informado do entrave e a Justiça está tomando todas as providências para que esta intimação ocorra até o final da semana (sexta-feira passada, dia 11). A sociedade precisa entender que existe um co-réu no processo. O padre foi autuado em flagrante, no motel, em companhia de Edson. Então, é preciso que o advogado apresente as alegações finais, que são, nada menos, as peças que antecedem o julgamento”, explicou.
De acordo com a promotora, o padre Félix está em liberdade, mas não é considerado foragido. “Para a lei, ele está em São Luís e tem cumprido todos os atos processuais. Sempre que é intimado, comparece sem dificultar o nosso trabalho”, disse a promotora Sarah Albuquerque.
O padre – Depois de procurar o padre Félix, colhendo informações no Educandário Santo Antônio e na Arquidiocese de São Luís – sem sucesso -, a reportagem do JP voltou a entrar em contato com o autor da denúncia, e o mesmo nos informou que poderíamos descobrir onde o padre está morando caso fôssemos à sede do Curso Educa Net, localizado na avenida Contorno Sul, bairro Paranã, em frente ao Comercial Miranda. Há suspeitas de que o padre tenha aplicado parte do dinheiro recebido pela ONG da Alemanha no curso Educa Net.
Chegando lá, a proprietária, que se identificou como Tatiane, cunhada do padre (mulher de Fábio Carreiro), afirmou que o Educa Net nada tem a ver com uma ONG. “Trata-se de um curso de informática básica para crianças, fundado por mim e pelo meu marido. O padre mora lá em casa porque tiraram tudo dele. É uma pessoa que sofre até hoje, mas que não faz mal a ninguém. Inclusive, tenho um filho de 5 anos que convive normalmente com o Félix, sem nos apresentar nenhuma preocupação”, disse Tatiane.
A micro-empresária não quis revelar o valor cobrado pelas aulas de informática, e se limitou apenas em dizer que trata-se de uma taxa simbólica.
Tatiane disse ainda, que o padre vive com o dinheiro que recebe da aposentadoria de um emprego como professor, que tinha paralelo à atividade religiosa. “Nem emprego ele conseguiu mais, depois daquele escândalo. A sociedade não deveria julgá-lo. Homossexualismo não é doença. Ele errou, mas hoje é uma pessoa totalmente mudada, serena e que não faz mal a ninguém”, disse a cunhada.
Quanto a uma suposta denúncia de que o padre estaria morando em outra cidade, Tatiana disse que ele mora em sua residência, mas que no momento da entrevista, por volta de 11h30 da última sexta-feira, dia 11, ele teria ido ao centro da cidade com o irmão, resolver assuntos particulares.
TRECHOS DA ENTREVISTA COM O JOVEM QUE SE DISSE EX-COMPANHEIRO DO PADRE FÉLIX, FEITAS PELO JP, POR MEIO DO PROGRAMA MESSENGER (Obs: Foi criado um msn fake, especialmente para esta entrevista)
JP – Quando vocês começaram a namorar?
Jovem – Seis meses depois que ele [padre Félix] saiu da prisão
JP – Você gostava dele de verdade?
Jovem – Muito. Mas ele não mudou. Estava comigo, mas se encontrava com meninos. Cansou de me dizer que só estava comigo porque eu tinha cara de novinho (na época eu tinha 19 anos).
JP – Quando foi que você o viu pela última vez?
Jovem – Foi na sala de bate-papo, em 2006. Teclei com um cara de apelido virtual ‘Ativo’ e outras vezes com um de apelido ‘Paulo’. Ele revezava na internet com esses nomes falsos. Quando pedi o msn dele, ele me enviou e vi que era o mesmo do padre. Nessa época a gente já tinha se separado, mas ele continuava procurando menores na internet.
JP – Como você sabe que ele continua se encontrando com menores?
Jovem – Cheguei a ir a um motel com ele e um menor. Mas me senti mal e saí de lá, deixando os dois se agarrando. Além disso, têm amigos meus, menores de idade, que já foram ao motel com ele, mesmo depois desse escândalo.
JP – Por que só agora você resolveu denunciar?
Jovem – Porque soube que ele está me caluniando, dizendo que acabei com a vida financeira dele. Quem roubou a igreja foi ele. Fiz o projeto de uma ONG e ele enviou para a Alemanha. Uma instituição católica de lá aprovou e mandou a verba de 12.540,12 euros. O Félix me tirou do projeto, e fez uma ONG camuflada, no bairro Paranã, onde morávamos, com apenas metade do dinheiro. A outra metade ele usou para comprar um carro e com farras com menores. Cansei de ver o carro dele cheio de meninos, mesmo depois de ele ter sido preso e solto.
ENTENDA O CASO
Na madrugada do dia 5 de novembro de 2005, o padre Félix Barbosa, na época com 43 anos, foi preso por exploração sexual de menores. Ele foi encontrado no quarto do Fly Motel, no Turu, com quatro jovens, dois deles menores de idade.
De acordo com os adolescentes, eles eram atraídos via internet e durante os encontros o padre lhes oferecia bebidas, ingressos para shows e outros presentes.
Preso, o padre confessou ter saído com cerca de 50 menores, e que, em algumas ocasiões, chegou a fumar maconha e consumir bebidas alcoólicas com os menores.
Depois de 122 dias na prisão, o padre foi solto, sob a alegação de que houve “excesso de prazo na formação de culpa”, já que o limite para que ele fosse julgado em cárcere era de apenas 82 dias
O Ministério Público afirmou não ter conhecimento dos fatos relatados por um jovem em entrevista ao JP, mas prometeu agilizar o processo, argumentando que falta apenas o advogado de um co-réu ser ouvido, para que as alegações finais que antecedem o julgamento sejam apresentadas.