JM Cunha Santos
Sob as águas de abril se deitou, lúdico e final, o corpo de Kylma Bandeira de Mello. A Assembléia está de luto, o jornalismo sofre e a Open Door...
Bem, deve ter caído da ribanceira das emoções.
Minha TV se recusa a mostrar teu rosto, Kylma. Não ouço a singularidade de teus passos nos corredores da Assembléia, nem de tuas mãos escrevendo a defesa das mulheres e do mundo.
Faltava ainda que me mostrasses a carta que não havia lido, enviada ao Dr. Pêta, onde defendias: “quero assumir a ousadia de dizer que o jornalista JM Cunha Santos não deveria ser apenas ‘interino’ deste jornal. Sua integridade, sensibilidade para captar, com singularidade própria os fatos e destreza com as palavras nos oferece textos valiosos. É um deleite para o intelecto, para a alma e para quem tem a humildade de aprender com mestres como este”.
É apenas um sinal de teu amor aos que se amam. Pois diante de mim, neste momento, Kylma, desfila a certeza de que “Meninas não choram”, de tua autoria, é uma verdadeira ode a mulheres não anônimas que conspiram contra a mesmice do dia-a-dia. “Meninas não choram”. Quisera eu também que não morressem.
No artigo falas de “paladinas que não desperdiçam seu tempo na atmosfera malsã das futilidades, desprezam as palavras gastas pelo senso comum e reagem com asco aos que preferem a desfaçatez, as intrigas, as lamúrias, em lugar do mérito”.
Nunca soube direito onde te colocar no meu coração. Talvez que coração nem seja lugar de colocar pessoas. Mas é imprescindível agora que eu leia tudo o que escrevestes e se tinha marcado para me entregares antes que as águas de abril te escolhessem.
Não fosse eu um vassalo das litanias boêmias e talvez tivéssemos nos conhecido melhor; pudesse saber por que as dores que escancaro no papel chegavam tão próximas de tua alma; porque as minhas impressões do mundo eram tão tuas.
Mas a mim não basta lembrar teus colegas te cercando, teu cabelo esvoaçante a circular no ar gelado, teus olhos ávidos e ligeiros correndo atrás da notícia.
Quero ficar com um pouco, um pouco só de tua alma em meus guardados e em meus escondidos.
De mulheres falastes no dia 11 de março, na página de Opinião do Jornal Pequeno.
De Maria Firmina, de Maria Aragão, de Isadora Duncan, de Marie Curie em Varsóvia, Anita Garibaldi, Francisca Edwiges Neves, Chiquinha Gonzaga. Falaste da “comichão produtiva” das mulheres e nos arremeteste à nossa insignificância machista na tradução dos versos da poetisa Hilda Hilst: “Ah, porque me vejo vasta e inflexível/desejando um desejo vizinhante/de uma fome irada e obsessiva”. Pois bem, menina vasta e inflexível, deixa então que eu diga, apenas no desejo de imortalizar a genial cronista que és: “Meninas não choram”. Poetas choram.
Eu choro você.
Nem sei quantas almas sensíveis como a tua ainda restam no planeta. Sei apenas que almas pertencem a Deus. Mas por conta dessa sensibilidade, rompo a hierarquia e torno-me hoje o teu editor. A pauta está em cima da minha mesa: “onde quer que estejas, faça a entrevista, edite e encaminhe ao Programa Assembléia em Ação as últimas coisas que Deus tem a dizer para essa humanidade corrompida”.
E, em off, indague a ele insistentemente que culpa tenho eu do desabar incessante das águas de abril.
É melhor em fita VHS. Não suporto as dores digitais.