Por: Roberto Rocha
Sempre vagando pelos campos de batalha, Éris, a deusa grega da discórdia, vive a deliciar-se da agonia dos feridos de morte. O prazer pelo sofrimento alheio, as agressões generalizadas que promove, a matança das guerras a que assiste, tudo de ruim aos outros lhe causa um prazer extraordinário. A intriga, como fonte de discórdia, é a especialidade de Éris.
Exatamente em razão de sua natureza complicada, Éris não foi convidada para o casamento de Peleus e Tétis. No entanto, ignorando a ausência do convite, ela se dirigiu à festa, sendo, porém, impedida de participar do evento. Derrotada e furiosa, sabendo que lá estavam as mais belas deusas do Olimpo – Hera, Afrodite e Athena –, Éris lançou por sobre o muro o “Pomo da Discórdia”, uma linda maçã, toda em ouro, com a inscrição desagregadora: “para a mais bela”. Dessa forma, Éris não só estragou a festa de Peleus como também provocou a Guerra de Tróia.
Tudo isso porque as referidas deusas, que lá estavam a convite de Zeus para disputar o título de “a mais bela do Olimpo”, passaram a reivindicar a maçã para si, dando início, assim, a uma discórdia monumental. Diante de tal disputa, Zeus transferiu a Páris a missão da escolha, o qual passou a ser alvo de bajulação e suborno por parte das três concorrentes. Athena lhe ofereceu vitórias em suas batalhas; Hera prometeu-lhe grande riqueza; Afrodite ofereceu-lhe a mulher mais bela da terra: Helena, ainda de Esparta, mas que viria a ser a célebre Helena de Tróia.
A luta de Menelau para resgatar a sua bela Helena dos braços do insinuante Páris, que todos já bem conhecem, constitui uma das mais belas narrativas da antiguidade, “A Ilíada”, o famoso poema que descreve a Guerra de Tróia, atribuído a Homero. Personagens como Agamenon, Ulisses, Aquiles, Príamo, Heitor, e especialmente Helena, encantam tantos quantos adentrem o tão fantástico mundo da mitologia grega.
Aqui no Maranhão, a vida transcorre alheia a esses eventos épicos. Mesmo assim, se comparação coubesse, ela estaria mais para a Odisséia que para a Ilíada. Mais para o determinado Ulisses que para o desastrado Páris. Nem as intrigas de Éris nem os encantos de Circe prosperarão entre nós. Porém, por cautela, convém que nos espelhemos na experiência de Ulisses.
Circe, como se sabe, é aquela figura mitológica que, por suas travessuras, foi exilada na Ilha de Eana. A “Circe das Madeixas Trançadas” era a tecelã dos destinos, dona de poderes extra-sensoriais, voltada para sortilégios, encantamentos e vinganças. Enfeitiçava os homens e os transformava em dóceis animais.
Em seu retorno para a Ilha de Ítaca, para os braços de Penélope, Ulisses deu de cara com a Ilha de Eana, a moradia de Circe. Mandou sua tripulação sondar o que havia em terra, mas o grupo, quando deparado com a misteriosa moradora, foi imediatamente por ela transformado em dóceis animais à sua disposição. Um deles, porém, o Eurícolo, que não caiu nos encantos de Circe, voltou ileso para tudo relatar ao chefe Ulisses.
Na seqüência, Ulisses partiu para libertar seus companheiros e, protegido por uma planta com poderes antibruxarias, subjugou Circe, colocando-a a seu serviço, contra os perigos da vizinha Ilha das Sereias. Foi a própria Circe quem sugeriu o uso de cera nos ouvidos para que o grupo não escutasse as melodias embriagadoras das sereias, pois tinham o poder de encantar os que por lá passavam, atraindo-os para a morte.
Em síntese: estaríamos no Maranhão diante de alguém que tenha a um só tempo os poderes nefastos de Éris e de Circe? Estaríamos à mercê do “Pomo da Discórdia” e do “Canto da Sereia”? Pelo sim, pelo não, para quem está seguro em seu “barco”, cercado de leais companheiros de luta, não é prudente dar ouvido às ninfas marinhas, muito menos ceder aos encantos de Circe. Pelas mesmas razões que os companheiros de luta não devem acolher as intrigas de Éris.
O deputado federal Roberto Rocha escreve para o Jornal Pequeno aos domingos. contato@robertorocha.com.br