Allan Roberto Costa Silva*
Os rios e suas cheias sempre foram muito importantes, até imprescindíveis, para a sobrevivência humana e o desenvolvimento das civilizações. Analisando a história da humanidade, vemos que a Mesopotâmia (termo de origem grega que significa “entre rios”), região do Oriente Médio situada entre os rios Tigres e Eufrates, que deságuam no Golfo Pérsico, de extensas planícies e vales, foi o berço das mais ricas civilizações humanas dos primórdios da humanidade; lá habitavam os assírios, sumérios, caudeus, babilônios e outros povos que sobreviviam dessas férteis planícies das quais tiravam sua alimentação e riqueza, e que chegaram a tal ponto de desenvolvimento que ali foi inventada a roda, a escrita, o comércio e lá surgiram também as primeiras cidades e impérios e os primeiros arremedos de organização de Estado/Governo tal qual conhecemos hoje. Tudo isso só foi proporcionado pela fertilidade do solo local que era oriunda das grandes cheias anuais desses dois rios, pois as enchentes traziam material orgânico que revitalizava o solo anualmente. Hoje essa região corresponde ao Iraque.
Já no antigo Egito, civilização deveras importante e que até hoje é enigmática pelo elevado grau de desenvolvimento que atingiu e influência para o restante do mundo pelo elevado conhecimento adquirido, surgiu, por exemplo, o calendário e a agricultura; e as cheias do Rio Nilo eram que proporcionavam a fertilidade do solo de seus imensos vales, de onde saiam o alimento e a riqueza daquele povo heróico que ajudou o mundo a atingir o desenvolvimento que tem hoje. O calendário foi inventado pela necessidade de eles precisarem exatamente a época das enchentes para o preparo das plantações. Concluímos, então, que dessas enchentes nesses berços antigos de civilizações donde descendemos e devemos nossa evolução humana e de sociedade é que se deriva a nossa sobrevivência como espécie animal e social tais e quais as concebemos. A história nos comprova que se não fossem essas grandes enchentes anuais não haveria o mundo como conhecemos hoje.
Mas se analisarmos o nosso Mearim (termo de origem tupi que significa “rio do povo”), a situação fica extremamente ambígua. O Mearim constitui a maior bacia hidrográfica genuinamente maranhense, nascendo na Ribeira da Água Boa entre a Serra Negra e a Serra Branca, próximo a Serra da Menina, no município de Formosa da Serra Negra, perto de Barra do Corda. Tem extensão de 930 km e deságua na Baía de São Marcos entre os municípios de São João Batista e Bacabeira. Banha importantes municípios maranhenses como Barra do Corda, Esperantinópolis, Pedreiras, Trizidela do Vale, São Luiz Gonzaga, Bacabal, São Mateus, Arari, Vitória do Mearim e outros. E já foi um grande bastião do desenvolvimento do Maranhão, escoando a produção dessas cidades desde quando ainda não existiam como tal e transportando nosso povo nos seus 645 Km navegáveis. O crescimento e desenvolvimento de nosso estado devem muito à fertilidade das terras de suas margens e vales e ao seu poderoso leito caudaloso e piscoso.
Mas há muito tempo suas cheias não trazem mais somente fertilidade e riqueza. Traz também desabrigo, doença, fome, miséria, morte e dor. Há uma prédica dos mais antigos que recomenda cuidado com a enchente do Mearim nos anos terminados em quatro. E vê-se que em 1964, 1974 e 1984 houve cheias imensas que maltrataram nosso já tão sofrido povo. Nesse ano, sabe-se lá se é por conta do aquecimento global, do El Nino ou de outras mazelas mais perpetradas contra o nosso meio ambiente, num ano terminado em oito (mas múltiplo de quatro), o Mearim volta a trazer transtornos vários à saúde física e econômica de nosso povo. Em Pedreiras e Trizidela do Vale a situação é alarmante. As imagens colhidas nesses locais, seja pessoalmente ou pela internet ou televisão, assustam pela grandiloqüência do volume d´água e pelo sofrimento infringido à nossa população já tão carente.
O Mearim maltratado, assoreado, de margens desmatadas, que em alguns pontos está quase morto, sem profundidade e largura, tudo isso provocado pela mão cruel do homem que dele durante muito tempo e até hoje tira o seu sustento, ressurge caudaloso pelas fortes chuvas, lépido e violento, arrastando a tudo e a todos. Em São Luiz Gonzaga foram encontrados boiando no rio um guarda-roupa e um colchão de um morador de Pedreiras, ainda com as roupas e os documentos do dono e a quantia de vinte oito reais, tal a rapidez e força das águas. As roças dos lavradores ribeirinhos se foram na violência da cheia. O prejuízo econômico é enorme para o comércio, o transporte, a agricultura e outros setores da economia formal e informal. Para os atingidos pela agressão das águas, o prejuízo do desabrigo, da fome, das doenças de pele, afecções respiratórias, verminoses, infecções intestinais e tantas outras patologias mais. Quanto sofrimento e dor! Quanto prejuízo material em regiões já tão necessitadas de alento econômico! E a meteorologia prevê chuvas ininterruptas em todo o estado em abril e maio, portanto a tragédia pode se tornar ainda maior.
E estando em ano eleitoral com uma calamidade pública dessa proporção, outras cenas tristes se somam às tristezas já intrínsecas ao fato. São os pré-candidatos às eleições vindouras disputando desabrigados para socorrer. É caçamba, caminhão, 3x4, Toyota, tratores e carroças destes disputando alagados para socorrer. É candidato dizendo para o outro: “Alto lá! Esse alagado é meu!”; ou “Esse é meu eleitor! Sou eu quem vai levar para o galpão que arrumei”; “Esses trapos molhados, eu é que vou levar para a comadre ali que é minha eleitora!”. E o povo sofrendo... e candidatos vendo a oportunidade de condicionar o favor ao voto do miserável alagado. A grande maioria deles não apareceria se não fosse ano eleitoral. Vê-se solidariedade, sim, mas percebe-se a hipocrisia da maioria dos altruístas caçadores de sufrágio. E acho até que Deus mudou os anos das enchentes para que coincidam com ano eleitoral, assim o abandono do povo será menor pela filantropia dos interessados em prestar favor em troca de voto. Então, é esperar e confirmar se esse ciclo de grandes cheias coincidirá com outras eleições municipais. E o Mearim é assim: dá e toma, provê e depaupera, alimenta e impõe fome. Talvez assim queira se vingar de ter dado tanta riqueza e em troca ter recebido tanto desprestígio e maus-tratos. Assim, a história de nosso rio não coincide com a história dos outros rios citados no início, nos quais suas cheias eram somente para trazer benesses e ajudar a desenvolver a humanidade. As cheias trouxeram o desenvolvimento, o homem não valorizou a natureza e ela se vinga da mesma forma rude como é tratada.
*Médico, ex-presidente da Câmara Municipal de Pedreiras, membro da Academia Pedreirense de Letras e da Associação de Poetas e Escritores de Pedreiras.
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