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Às mulheres: com ternura!
O Martim César, poeta amigo meu, um dia poetou: “Hoje todos somos mudos, cúmplices do mundo que fizemos, do monstro que criamos”. E dia desses vi na página policial de um jornal da capital uma notícia animal. Era uma violência contra um ser vital. E aí lembrei do Fórum Social Mundial.
Quem lá esteve acredita em um outro mundo possível. Acredita no processo de gestação de uma nova forma de organização da humanidade. Eu estava lá. Cumprindo meu ofício. Junto com a Beatriz Bíssio. E estava lá também a Memélia Moreira. Foi tudo uma zoeira. Uma trabalheira. Verdade verdadeira. Não foi brincadeira. É que estávamos lá acreditando em um outro mundo e trabalhando pela “Cadernos do Terceiro Mundo”.
E lá estando, pesquisando e entrevistando, tive acesso a alguns dados: Uma mulher é assassinada a cada hora no mundo. Uma em cada dez mulheres sofre ao menos um estupro na vida, na maioria dos casos por homens conhecidos. Cerca de 40 milhões de mulheres são exploradas pela indústria da prostituição. Tailândia, Filipinas, Indonésia e Brasil estão entre os maiores fornecedores de prostitutas. México, Bangladesh e Filipinas estão entre os que mais exploram o trabalho feminino em fábricas.
As raízes da violência contra a mulher, sua relação com a globalização neoliberal e a identificação de alguns elementos para a construção de alternativas foram o foco desse rico debate em Porto Alegre.
Nas dezenas de painéis, debates e seminários com as maiores autoridades do tema no mundo inteiro se chegou a algumas conclusões.
As painelistas mostraram que as mulheres são vítimas da violência em todas as classes sociais, culturas, religiões e situações geopolíticas, ainda que esta violência assuma diferentes formas segundo as distintas sociedades.
Ela ocorre tanto na esfera pública como na privada, e é com freqüência exercida tanto por indivíduos, como também de forma organizada por grupos de homens e por Estados.
Sashi Sail, da Índia, disse que as mulheres estão submetidas a uma opressão “ancestral, múltipla e crescente”. O século XX testemunhou o avanço das mulheres, mas não reduziu a violência, disse a ativista indiana.
O deslocamento de empresas do Norte para o Sul em busca de mão-de-obra barata resulta em uma ampla absorção da força de trabalho feminina em condições dramaticamente precárias. Tudo isso com a freqüente exigência de testes de gravidez para contratação, assédio sexual e situações de risco para a saúde no ambiente de trabalho. E acrescente-se a isso, a proibição de sindicalização e os salários aviltados, quase sempre inferiores aos dos homens, para exercer as mesmas funções.
E as mulheres da América Latina e do Terceiro Mundo em geral reforçam os movimentos migratórios em busca de trabalho ou são explorados por máfias internacionais.
Chegou-se à conclusão de que a responsabilidade de erradicação da violência contra as mulheres é individual e coletiva. É dos homens e das mulheres. A violência acontece no interior das famílias e das organizações. Na Índia, no Iraque e no Haiti. Haiti que é aqui. Aqui não é diferente. Afinal este é um país continente. Lá, como cá, o buraco é fundo. Tudo é Terceiro Mundo.
Dia desses via na página policial de um jornal uma notícia animal. Era uma violência contra um ser vital. E as coisas não são diferentes na nossa cidade natal. Eu estava na frente de um memorial. Memorial Maria Aragão. E uma pergunta me vem à mente e ao coração. A questão é aqui. Não importa o Haiti. E aqui em São Luís do Maranhão, como será a função? Sinceramente queria que fosse diferente. E se assim fosse, um dia eu me rebelaria e casaria. A minha mulher seria uma Ilha. E a minha filha, uma poesia.
Enilton Grill Filho
radialista





Milson de Sousa Coutinho, desembargador, Sílvia, esposa de Luís Roberto Amaral, Ubirajara Martins Figueiredo, médico ortopedista, e Eliézer Moreira Filho, ex-secretário de cultura. Aniversariam hoje.
