POR AURELIO CARVALHO
Especial para o JP
Bandidagem, sujeira e prostituição dominam um cenário cada vez mais parecido com uma favela em pleno centro de São Luís
Uma conversa de dez minutos com taxistas e surge a revelação de que donos de barracas estão acobertando bandidos. Num bar mais adiante, o tempo de se tomar um refrigerante é suficiente para se ouvir a denúncia de que menores de idade estariam sendo exploradas sexualmente num dos bares da área. E as reclamações referentes à situação do Anel Viário só vão se multiplicando, à medida que se percorre a área tomada por dezenas de barracas de aparência descuidada, que tanto servem para o comércio (geralmente de bebidas e refeições, em que os cuidados com a higiene deixam a desejar) como para moradia dos comerciantes. Essa circunstância está fazendo o cenário ficar cada vez mais parecido com uma favela encravada em pleno centro de São Luís.
“Tá vendo aquela barraca ali?”, perguntou o taxista Antonio Coqueiro, apontando para um quiosque de cor azul, onde estava escrito ‘Vende-se sucos’. “É lá que os ladrões se encontram para agir na área. Aquele cara que está segurando um papelão plastificado usa aquilo para cobrir a mão, no momento em que rouba as pessoas no Anel Viário. Já perdi a conta das vezes em que ajudei vítimas desse tipo de roubo que chegaram aqui chorando no ponto de táxi. Não temos a menor segurança para trabalhar ou circular em paz neste local”, contou o taxista, que trabalha no Anel Viário há mais de 25 anos.
Os amigos José Rosa e Sebastião Ferreira, também taxistas, não só concordaram com Antonio, como apontaram também uma barraca amarela, com o anúncio “Aqui temos refeição”, como sendo o “point” da bandidagem. Ou seja, é lá que os ladrões guardam os pertences roubados, sob proteção do dono da barraca.
A reportagem do JP foi até a barraca de sucos indicada pelos taxistas e obteve a versão de um dos funcionários do local. “Não tenho conhecimento de ladrão freqüentando esta barraca. Estou aqui apenas substituindo meu pai, que está hospitalizado, mas ele nunca me falou sobre ter clientes bandidos. Isso não existe”, afirmou Marcelo Mendes.



Marginalidade – A dona de um bar, que preferiu não se identificar, disse que tem medo de ir para o trabalho, por conta da marginalidade que tomou conta do Anel Viário. “Quando a madrugada cai, começa a prostituição. E pelo que já pude ver, existem garotas menores de idade envolvidas. Vira e mexe, vejo uma entrando no carro de clientes de alguns bares aqui do local. Já chamei a polícia, mas até agora ninguém fez nada”, disse.
Em todas as barracas visitadas, a falta de segurança foi o item mais citado, entre todos os problemas da área, seguido por falta de banheiro público, desorganização das barracas e do trânsito e pavimentação precária.
“Passei a dormir no bar, depois que peguei ladrões tentando roubar minha cadeiras. Estou muito desanimada com o caos em que se tornou esse local, que tem tudo para ser um ponto turístico. Tem dia que não consigo vender mais que uma cerveja. Os clientes fugiram com medo de assaltos”, disse Nazaré Carvalho Boas, dona do Bar e Restaurante Degustar.
Rosalva Gusmão, também comerciante, contou que paga R$ 120 de aluguel na barraca, mas apura apenas cerca de R$ 40 por semana, com a venda de bebidas. Ela chega para trabalhar às 7h e só vai embora às 22h. “Estou cansada. Aqui está muito desorganizado. Estamos há dois dias sem energia elétrica e ninguém veio resolver o problema. Tudo que estava no freezer eu perdi. É desesperador. Estamos abandonados”, desabafou Rosalva.
Em meio a tantas reclamações, pelo menos um comerciante mostrou-se menos preocupado com a situação do Anel Viário. O vendedor de frutas Edgar Alves Carreiro – que garante ser o mais antigo vendedor da área – se entusiasmou ao contar que chegou ao Anel Viário há mais de 30 anos, quando o local era conhecido como ‘Rodoviária dos Pobres’, na época do governo de João Castelo. “Sou solteiro até hoje. O dinheiro que apuro com a venda de frutas dá para me sustentar. Além disso, nunca fui roubado. Acho que deveriam instalar um posto policial no Anel Viário, mas não concordo com os que falam em acabar com o terminal. Sou feliz aqui”.
POR DENTRO DO ANEL VIÁRIO
• O terminal era chamado ‘Rodoviária dos Pobres’, na época do governo João Castelo
• Possui cerca de 30 barracas não-padronizadas
• O local funciona como Terminal e tem em sua volta, comércio de frutas, bebidas, comida, jogo do bicho, venda de passagens intermunicipais, ponto de táxi
• Não há banheiros públicos
• O aluguel de uma barraca chega a custar R$ 120
• Existem donos de bares que dormem no local, para evitar furtos
• À noite, há bares que têm como ponto forte as danças ao som de seresta e reggae. O dia de mais movimento é sábado.
• O local que deveria servir de fonte, virou depósito de lixo e água da chuva, causando risco aos freqüentadores da área
• Não há posto policial
• Há suspeitas de prostituição infantil e aliança entre donos de bares e bandidos
• Assaltos acontecem até mesmo à luz do dia; as vítimas são principalmente mulheres
Prefeitura estuda projeto de revitalização da área
A Prefeitura de São Luís, por meio de sua assessoria de imprensa, informou que já estuda um projeto de revitalização para toda a área do Aterro do Bacanga, que deverá incluir parte do Anel Viário, onde atualmente funcionam as paradas de ônibus.

De acordo com a Prefeitura, antes que o projeto seja concretizado, a Secretaria Municipal de Obras e Serviços Públicos (Semosp) irá realizar ações de melhoria da infra-estrutura da área, sendo que já teria finalizado a reestruturação do sistema de iluminação no Anel Viário, tornando-o mais moderno e eficiente e instalando cabos subterrâneos com sistema antifurto.
A Prefeitura não informou quando o projeto de revitalização da área será implantado.