Opinião
Nossa maior casa de espetáculos, o Theatro Arthur Azevedo, foi construída em 1817, há quase 200 anos, e quando São Luís devia ter uns 20 mil habitantes. O Brasil nem era independente à época e, graças à iniciativa de dois empresários portugueses, a capital maranhense passava a contar com uma casa com a envergadura que até hoje exibe.
Atualmente, com aproximados um milhão de habitantes, na proporcionalidade era para São Luís dispor de, sabem quanto? De 50 teatros. Sendo modesto e trazendo este número para aquém da metade, 200 anos depois deveríamos ter pelos menos 20 teatros. Por baixo.
Que tal aproveitarmos a III Semana do Teatro no Maranhão, para pleitearmos junto aos Poderes Públicos, aí incluídos Executivo Municipal, Estadual e Federal, e nossas Casas Legislativas – Câmara de Vereadores e Assembléia Legislativa, a construção do Teatro de São Luís, a ser inaugurado em 8 de setembro de 2012, quando São Luís completa 400 anos? Comecemos a trabalhar por ele, já. E organizemo-nos.
E já que vivemos um momento ímpar, de liberdade, a sociedade tem que assumir a causa e não ficar esperando de braços cruzados que os governantes decidam. A criação da Fundação Teatro de São Luís é uma alternativa. A obtenção de um terreno de praça – tem que ser uma praça, um largo – para o prédio do Teatro ficar no meio, como todo principal teatro que se preze. Sem casas ao pegado com o risco e/ou possibilidade de perturbar o sossego alheio. Mas uma praça com estabelecimentos congêneres: bares, sorveterias, restaurantes, livrarias, cinemas, lojas de flores, galeria de arte, outros teatros menores, teatro de arena. Também cada universidade deveria ter ali o seu teatro, cada um cada um deles num diferente modelo visual. Luzes. O que atrai público é o que estiver sendo montado. Sempre com garagem no subsolo.
Que esse conjunto de variadas atividades artísticas torne-se uma positiva citação maranhense perante a Nação. Casas que possam estar abertas à noite e assim ajudar a movimentar culturalmente a área. E a cidade. E um coreto na praça, no lado oposto ao Teatro, para retretas entre as cinco da tarde e às sete da noite dos sábados e dos domingos, ou de sextas e sábados. Mas com o Teatro principal – o Teatro São Luís – no meio da praça, que deve estar localizada entre o rio Anil e São Marcos. No meio dessa geografia. Esse Teatro, equipado com ar condicionado e todos os recursos técnicos de ponta, tem que possuir garagens no subsolo, segundo subsolo. Um terceiro? Melhor ainda. Algo que não foi previsto, por exemplo, no projeto do Teatro Nacional, em Brasília, lapso indesculpável. No caso do Teatro São Luís, este deve ser referencial, face às soluções que apresentarem resolvidas pelos 200 anos seguintes... Em São Luís, doravante, ninguém mais deixaria de ir a teatro (ou à Praça dos Teatros) – ninguém deixaria de ir por estar chovendo. E não apenas a questão garagem no subsolo. Também áreas internas para exposições de arte, área para cafezinho, salas para ensaio, camarins bem equipados, sanitários para deficientes, essas coisas. Sala de espetáculos/concertos com a maior declividade possível e sem a atual cultura dos aviões de carreira: para a pessoa passar a fim de sentar-se, o que estiver sentado tem de se retorcer ou também levantar. Este, outro desmantelo na gulosa e por isso desconfortável arrumação das cadeiras do Teatro Nacional de Brasília.
Quantas salas? O Nacional tem três: a maior, para concertos sinfônicos, óperas, para a moda de peças tendo no elenco o chamariz de artistas da novela de TV em cartaz, danças. Chama-se Sala Vila-Lobos. A de tamanho médio, Sala Martins Pena, para teatro propriamente dito; e a camerística, chamada Sala Alberto Nepomuceno. O referencial naquela Casa de Brasília é a qualidade do tratamento acústico: podem as três salas funcionar ao mesmo tempo e nenhuma perturba os sons e falares vizinhos. Outra referência, naquele Teatro, é a Orquestra do Teatro Nacional: sob a regência do maestro Ira Levin, é atualmente a melhor orquestra sinfônica do país. Cresce em qualidade a cada semana. Um dia o nosso Teatro São Luís possuirá normalmente sua Orquestra. Poderá ser em nome do Teatro ou tendo o possessivo da cidade: Orquestra Sinfônica de São Luís.
Sobre o projeto, recentemente o jornal Folha de São Paulo publicou matéria onde chamava a atenção para a crescente moda do trabalho de Arquitetos em grupo, de quatro a seis arquitetos, com excelentes resultados. É bom lembrar o projeto do Ministério da Educação, no início dos anos 40, no Rio de Janeiro, criado a partir das idéias originais de Lúcio Costa, Oscar Niemeyer, os irmãos MMM Roberto, Artur Reidy. À época, apenas Lúcio Costa era quarentão; os outros, balzaquios. Aquele grupo realizou um projeto “de placa”, a partir de um “risco” de Lê Corbusier. Conforme se sabe, todos aqueles seis arquitetos vieram a tornar-se nomes gloriosos. E seus nomes estão gravados no mármore do térreo daquela obra de arte chamada edifício.
A História do Maranhão é a própria História de São Luís. O Quarto Centenário tem que ser marcado com providências para além de estritamente municipais. Ou acerca de a quem vão caber as vidraças e o concreto armado. Que a semana do Quarto Centenário, em 2012, a classe artística maranhense esteja unida e testemunhando a inauguração do Teatro de São Luís.
Riba Um
com colaboração de Clóvis Sena