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O presidente Correa

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Data de Publicação: 30 de março de 2008
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Opinião

João Batista Ericeira*

Em passado recente a América Latina enfrentou guerras risíveis, como a do futebol, envolvendo Honduras e El Salvador, pequenos países da América Central, como a querer confirmar o apelido imposto pelos norte-americanos, chamando-as de “Repúblicas de Bananas”. Os acontecimentos envolvendo Colômbia, Equador e Venezuela, apesar dos gestos espetaculares de alguns dos seus dirigentes, incluem questões maiores que as partidas de futebol. Em jogo está a disputa pela liderança regional da América do Sul. O presidente venezuelano Hugo Chávez almeja ser a figura exponencial da região. Ancorado nas abundantes reservas petrolíferas da Venezuela, pretende suceder Fidel Castro, que por motivos de saúde teve de requerer aposentadoria. Álvaro Uribe, da Colômbia, prestigiadíssimo pelos Estados Unidos, almeja exercer semelhante papel.

Entre eles, situa-se Rafael Correa, do Equador. Este país enfrentou enorme instabilidade institucional, em decorrência das legítimas pressões exercidas pelas populações indígenas, marginalizadas por sua elite apetitosa, como de resto são todas as da região.

Permeando tudo, há o inquestionável problema da guerrilha colombiana, as Farc. Por circunstâncias locais, a guerra de guerrilhas superada no restante do continente, permanece viva na Colômbia, por dentre outras razões, as históricas, ligadas ao assassinato em 9 de abril de 48 do líder nacional Jorge Gaitán, presumivelmente sob a inspiração da inteligência norte-americana, e pelas alianças com os grupos do narcotráfico.

Os arreganhos entre Colômbia, Venezuela e Equador, são repletos de lições. A primeira delas, as políticas nacionais cedem cada vez mais espaço às relações internacionais, às políticas regionais. Nessa visão, a vocação da América Latina para a integração é clara, como, aliás, dispõe a Constituição brasileira, no parágrafo único do seu artigo 4º: “A Republica Federativa do Brasil buscará a integração econômica, política, social e cultural dos povos da América Latina, visando à formação de uma comunidade latino-americana de nações”.

A integração não se pode operar embases retóricas. Firma-se em ações concretas, como por exemplo, a proposta do presidente Rafael Correa, do Equador, da criação do Banco da América do Sul, para fortalecer financeiramente os paises da região face o controle do financeiro exercido pelos países ricos. Sua proposta teve plena aceitação de parte dos outros presidentes, incluindo o presidente Lula.

O presidente do Equador não é um falastrão. Professor universitário, técnico altamente qualificado tem-se comportado com equilíbrio na gestão dos negócios de Estado do seu país. No episódio da invasão da fronteira de parte de tropas colombianas, ao invés de adotar o discurso bélico, procurou o necessário apoio diplomático. Entre os chefes de Estado visitados, esteve o presidente Lula, a quem expôs a situação fronteiriça, obtendo a contundente nota do Ministério das Relações Exteriores de defesa da soberania territorial equatoriana.

Sobre o presidente Correa há algo importante a destacar, a Comissão de Auditoria da Dívida Pública por ele criada, constituída por técnicos internacionais, com a participação da brasileira Maria Lucia Fattorelli, coordenadora da Auditoria Cidadã da Dívida brasileira, que vem desenvolvendo trabalho sério, sem planfetarismo ideológico, levando a etiologia do endividamento, sua juridicidade e repercussão sobre as políticas públicas.

Pessoalmente, o presidente equatoriano adota postura diferenciada, professor universitário, continua morar com a esposa na mesma residência de antes de empossar-se na presidência, sem pompa e circunstância, dispensando as mordomias do cargo. Belo exemplo republicano. Costumo citar o exemplo escandinavo de um país monárquico, a Noruega,o seu ex-primeiro-ministro Olaf Palme, foi assassinado em Oslo quando dirigia o próprio automóvel ao sair de uma sessão de cinema.

Só seremos repúblicas na América Latina, quando nossos dirigentes públicos fizerem suas compras nos supermercados, dirigirem os seus automóveis, enfim, renunciarem às mordomias imperiais, para sentirem na pele as agruras sofridas pelo povo.

“A Reunião de Chanceleres da Organização dos Estados Americanos-OEA, a propósito do incidente de fronteira havido entre Colômbia e Equador, aprovou Resolução em que consta o item seguinte: rechaçar a incursão de forças militares e efetivos da policia da Colômbia ao território do Equador, feita sem o conhecimento prévio do Governo do Equador, por considerar que constitui uma clara violação dos artigos 19 e 21 da Carta da OEA”.

Inegável vitória do presidente Correa, adotou a via diplomática para defender a soberania territorial do seu pequeno país e teve êxito.

*Advogado, professor universitário e diretor-geral da ESA/OAB

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