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José Sarney salva banqueiro de ter mansão penhorada

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Data de Publicação: 30 de março de 2008
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SEMPRE AO LADO DOS ENDINHEIRADOS

Após intervenção do senador, oposicionistas desistem de derrubar veto de Lula que beneficia Edemar Cid Ferreira, ex-dono do falido Banco Santos

Fiel ao seu estilo discreto e persuasivo, o senador José Sarney (PMDB-AP) articulou nos bastidores e convenceu a oposição a manter o veto presidencial que beneficia diretamente o seu amigo Edemar Cid Ferreira, ex-controlador do Banco Santos, que sofreu intervenção do Banco Central em novembro de 2004 e deixou um rombo de R$ 2,3 bilhões aos seus clientes e credores. Votando secretamente na quinta-feira, 27, os oposicionistas desistiram de sua idéia inicial de derrubar um veto do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a um dos dispositivos da Lei 11.328/06, que facilitaria as cobranças judiciais por meio de penhora de imóveis de luxo e de altos salários. A manutenção do veto de Lula favoreceu a Edemar Cid Ferreira porque ele está às voltas com uma tentativa de penhora de sua mansão, avaliada em R$ 50 milhões, em São Paulo.

Sarney nega a interferência em favor do amigo, mas, logo após a publicação de uma reportagem sobre o assunto, este mês, no site Congresso em Foco, procurou o senador Alvaro Dias (PSDB-PR) – um dos oposicionistas ouvidos pelo site, que anunciou que iria propor a derrubada do veto de Lula. Sarney conseguiu convencer o senador paranaense e a bancada tucana a desistirem da idéia.

Pelo telefone – Na sexta-feira, ao ser questionado pela reportagem do Congresso em Foco sobre o apoio da oposição à manutenção do veto, Alvaro Dias confirmou que chegou a receber uma ligação e um e-mail de José Sarney, contestando as declarações prestadas pelo tucano ao site. Segundo o vice-líder do PSDB, o peemedebista enviou as justificativas dadas pelo Palácio do Planalto para o veto e afirmou que nada tinha a ver com a derrubada do artigo, que acabou favorecendo, entre outros, o ex-dono do Banco Santos.

“É intrigante o governo vetar um projeto do próprio governo. Apenas isso coloca o governo sob suspeita. O veto deve ter tido endereço certo. Vamos trabalhar para derrubá-lo”, disse ao site Alvaro Dias no início do mês. Na sexta, depois de confirmar que foi mesmo procurado por Sarney, o tucano evitou comentar o assunto.

Oficialmente, de acordo com a assessoria do PSDB, esse veto foi mantido porque o governo havia prometido tratar da matéria em um projeto de lei específico. Até agora, no entanto, nada foi enviado ao Congresso.

A assessoria de imprensa do senador José Sarney negou que ele tivesse qualquer participação no veto. Segundo os assessores, o senador está viajando e, por isso, não acompanhou as discussões sobre a análise do veto no Congresso.

Sarney (foto no alto) livrou o amigo Edemar de perder o palacete de R$ 50 milhões

Discursos – O empenho de José Sarney pela derrubada do artigo que colocaria em risco os bens luxuosos de seu amigo Edemar Cid Ferreira pode ser comprovado no registro das notas taquigráficas. Logo apos a aprovação do projeto que resultou na Lei 11.382/06 Sarney ocupou a tribuna da Casa para criticar a nova norma.

“É bem de família e se quer assegurar que a família tenha o direito de morar”, afirmou o senador, em 5 de dezembro de 2006, citando a Lei 8.009/90, que ele criou em seu governo e que instituiu a “impenhorabilidade” da casa própria. Um dia depois de o presidente Lula vetar o artigo reclamado, o ex-presidente voltou à tribuna, dessa vez para agradecer ao Planalto pela sensibilidade.

“Eu pedi [...] que o presidente fosse sensível e que vetasse esses dois dispositivos. O nosso líder de governo comunicou-me, bem como o ministro da Justiça, que o presidente vetaria os dois dispositivos”, anunciou na época o peemedebista.

O líder do PPS, deputado Fernando Coruja (SC), que defendeu a derrubada desse veto, também não teve força para convencer seus comandados. Apesar de encaminhar o voto contra o veto, foi obrigado a liberar a bancada, pois alguns deputados do partido se declararam favoráveis à decisão da Presidência da República.

Malefício do veto – Ex-juiz da 18ª Vara Federal de Brasília, o deputado Flávio Dino (PCdoB-MA) acredita que a manutenção do veto prejudica as ações da Justiça. “A impenhorabilidade está ligada a um fim. Quando íamos arrestar uma mansão de R$ 1 milhão no Lago Sul, o sujeito dizia: ‘Não, é bem de família’,” exemplificou o parlamentar, que integra a base governista.

Segundo o deputado do PCdoB, a impenhorabilidade do bem de família é correta quando se articula com o direito à moradia, à geladeira, ao fogão, mas não em casos de imóveis de luxo. “Você compõe um núcleo básico da vida digna. O que extrapola isso, esse núcleo básico da vida digna, deve ser penhorado”, afirmou.

O deputado também rebateu o argumento de José Sarney de que a impenhorabilidade absoluta não existe hoje e que, se o juiz quiser, pode penhorar bens de pessoas que têm mais posses. “Não, não pode. A Lei 8.009 não permite. Eu sei que o senador Sarney tem uma ligação sentimental com essa lei, foi feita no governo dele”, disse. “A lei vetada estava correta, estimulava o adimplemento [o ato de pagar as contas em dia] e amplia o mercado de crédito. O que justifica, do ponto de vista social, quem tem um patrimônio de R$ 1 milhão não pagar o seu débito? Nada”, completou.

Flávio Dino lembrou, ainda, que o veto acaba restringindo até mesmo o crédito para populações mais carentes. “O veto está restringindo o mercado de crédito dos mais pobres. Quem paga pela inadimplência do poderoso são todos os tomadores de empréstimos, inclusive os mais pobres”, observou. “As camadas mais pobres dependem de um mercado de crédito mais acessível”, ponderou o deputado maranhense.

(Soraia Costa, Eduardo Militão e Lúcio Lambranho, do site Congresso em Foco, e Redação do JP)

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