A primavera está chegando. Não a Primavera de Praga, ou de Damasco. É a Primavera do Maranhão.
Percebam os pássaros soltos no ar e o canto mais doce e rígido, os vôos mais suaves, como que acompanhados por hinos que festejaram a Liberdade, qual a Marselhesa.
Percebam que os meninos correm de braços abertos para o sol e que os protestos engarrafados em suas gargantas têm a mesma cor de Deus.
Não há sinais de chuva e pode ser que amanhã já não tenhamos notícias do duro dilúvio de 40 anos que castigou esta terra.
São os primeiros sinais. Quarenta anos depois o óvulo fecundou, a semente germinou, os embriões saíram a passeio. Está nascendo uma planta chamada Liberdade.
Não se discute com a Primavera, ou, como diria Cecília Meireles, ‘a primavera chegará, mesmo que ninguém saiba seu nome, nem acredite no calendário, nem possua jardim para recebê-la’.
Os ‘Meninos do Maranhão’ não sucumbiram perante a força bruta, escolheram voar, como Fênix, o pássaro que ressurge nas asas da democracia e do bem-estar social.
Eles aprenderam a lição de Cecília: ‘algum dia, talvez, os homens terão a primavera que desejarem, no momento que quiserem, independente deste ritmo, desta ordem, deste movimento do céu’. Este é o momento. Pegue a sua primavera.
E estes meninos sairão às ruas para conquistar a estação esquecida, já que a eles coube enfrentar a confusão na atmosfera política, os furacões, ‘o estandarte ensangüentado da tirania’.
Como a Flor de Lótus que se fecha para a escuridão, a escuridão do obscurantismo político, e se abre inteira para as manhãs e nasce no meio do lodo, o lodo da corrupção, está nascendo, germinando no Maranhão este sonho de todas as nações que se chama Liberdade.
Os meninos cantam agora com os poetas. E as vozes vêm das palafitas, das favelas, dos mocambos, dos guetos, das ruas escuras, das trezidelas:
‘Crime de rico a lei o cobre
O estado esmaga o oprimido
Não há direitos para o pobre
Ao rico tudo é permitido.
À opressão não mais sujeitos
Somos iguais todos os seres
Não mais direitos sem deveres
Não mais deveres sem direitos’
‘Sonho que se sonha só é só um sonho que se sonha só, mas sonho que se sonha junto é realidade’.
Durante 40 anos os maranhenses sonharam juntos com o fim da dinastia Sarney. Vote. E acabe com ela”.
* Editorial do Jornal Pequeno de 29 de outubro de 2006, dia em que a Frente de Libertação do Maranhão, comandada por Jackson Lago, derrotou o sarneisismo, pondo fim a 40 anos de mandonismo no estado.