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Batendo cabeça

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Data de Publicação: 26 de março de 2008
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POR VALDO CRUZ*

Se a inflação subir e sair da meta de 4,5% para 2008, não peçam ao presidente Lula para criticar o Banco Central se os juros forem elevados. O chefe, como diz um auxiliar com gabinete no Palácio do Planalto, voltou a deixar claro nos últimos dias que não quer a volta da inflação. E vai apoiar uma decisão do BC de subir a taxa de juros caso os preços sigam numa tendência de alta. Lula, contudo, não enxerga hoje um risco de alta inflacionária. Por isso não gostou nem um pouco da última ata do Copom (Comitê de Política Monetária), ameaçando subir os juros na próxima reunião do órgão, em abril.

Não por outro motivo Lula e sua equipe econômica, mais especificamente o ministro Guido Mantega (Fazenda), passaram a dar atenção especial ao aumento da demanda. Em público e reservadamente, Lula e seu ministro da Fazenda têm dito que é preciso evitar uma explosão no consumo, estimulada por um crescimento do crédito no país, o que poderia de fato pôr em risco a meta inflacionária desse ano. Os dois acreditam que esse é o caminho para evitar que o BC suba os juros.

O problema é que o governo tenta conter aquilo que estimulou, o aumento de consumo no país, que provocou uma reação no nosso mercado interno. Aquele que hoje está garantindo o ritmo da economia brasileira e permitindo que o país não sofra tanto com a crise financeira nos Estados Unidos. Acabou dando no que todos já sabem: o governo bateu cabeça. Fez que iria reduzir o número das prestações para reduzir a euforia do consumidor e recuou. Deve ter descoberto que esse caminho já foi tentado no passado e não deu muito certo.

O melhor caminho, infelizmente, não é sequer mencionado como uma possibilidade pelo governo Lula. Qual seja? Conter seu gasto público. Seria uma forma de tentar equilibrar a economia brasileira nesse momento. Não digo que seja necessário reduzir o ritmo de obras do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), que justificadamente têm como alvo combater os gargalos da nossa economia, como estradas deficitárias, risco de falta de energia e portos totalmente inadequados que elevam o custo Brasil. Mas sim reduzir as despesas com pessoal da União, tentar viabilizar uma reforma da Previdência, tudo que esse governo sinaliza que não irá fazer.

Esse é o dilema. Estamos diante de uma política econômica que tem méritos, óbvio, afinal permitiu ao país crescer acima de 5%, com inflação relativamente sob controle. Só que, quando esse crescimento começa a tocar na casa dos 6%, fica claro que ela, a política econômica, está desequilibrada. As reformas fiscais e estruturais não seguiram o mesmo ritmo da superação de nossa vulnerabilidade externa e do fortalecimento do mercado interno. E essas reformas não são possíveis num curto prazo. Deveriam estar sendo gestadas há mais tempo.

Agora, talvez tenhamos de enfrentar a realidade e conter nosso crescimento mais próximo de 5%, à espera de que os investimentos do setor privado comecem a dar conta do aumento do consumo interno no país. A dúvida é se o empresariado terá fôlego suficiente para isso num sistema em que seu custo não cai por conta de pesados encargos trabalhistas, elevada carga tributária e entraves logísticos.

(*) Repórter especial da Folha de S. Paulo

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