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Em defesa do homem infiel

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Data de Publicação: 26 de março de 2008
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POR JOÃO PEREIRA COUTINHO*

Os últimos dias foram bons para os moralistas. Eliot Spitzer, o governador democrata de Nova York conhecido por sua probidade moral, foi apanhado com as calças para baixo. Prostituição, a mais velha profissão do mundo. Ou, como diria Nelson Rodrigues, a mais velha vocação do mundo.

Melhor ainda: prostituição de luxo, o que não deixa de ser uma ironia cruel. Spitzer não foi apenas um entusiasta de legislação pesada contra a prostituição no seu estado. Ele foi um feroz e irracional opositor do “grande capital” e das “corporações financeiras” de Wall Street, que sempre lhe cheiraram a ganância, decadência e fraude. Pelos vistos, o problema do “grande capital” era não ser investido em meninas de 22 anos que fazem o serviço completo.

Mas quem sou eu para julgar o homem? Eis o problema, leitores. Spitzer apareceu em público para confessar o seu “pecado” e dizer adeus ao cargo. A mulher chorava a seu lado. E o mundo aplaudia de gozo com a queda de um político, com a queda de uma família. Por amor de Deus, estamos na Páscoa. E, além disso, será preciso relembrar que um homem infiel é um homem em sofrimento?

Quando digo isso ao meu auditório feminino, há uma certa hostilidade no ar. Gritos. Desmaios. Ameaças de violência. E acusações pungentes de que sou um canalha. Não necessariamente por essa ordem, claro. Quando as coisas acalmam, eu saio de baixo da mesa e alguém informa que nas infidelidades de um homem só existe uma verdadeira vítima: a mulher. E, em caso de prole, os filhos. Nunca o homem infiel.

Nunca o homem infiel? Lamento discordar. A infidelidade masculina é das situações mais angustiantes e desgastantes para qualquer macho.

Começa por ser um desgaste físico evidente, sobretudo quando a idade avança. No espaço de poucas horas, é necessário fazer duas maratonas, ou três, ou quatro, sem que haja a mais leve suspeita de que o equipamento de corrida foi usado horas antes. É possível alegar cansaço nos primeiros tempos. Não é possível alegar cansaço todo o tempo.

Sem falar de desgaste financeiro. Um homem infiel é, por definição, um homem de dois orçamentos. Um homem infiel nunca paga um jantar. Paga dois. Uma jóia não é uma jóia. São dois anéis, dois colares. E se vocês acham que umas férias nas Caraíbas são o supremo sonho, desenganem-se: pagar duas passagens e dois hotéis arruina qualquer carteira. Agora multipliquem pelo número de amantes. É sempre a subir: três jantares, três anéis, três passagens, três hotéis. O mesmo homem. O mesmo desgraçado.

Mas o desgaste físico e financeiro não é nada quando comparado com o desgaste mental. Um pequeno demônio que ataca nas pequenas coisas. No esforço continuado para nunca trocar os nomes, por exemplo. “Querida, eu não disse Ana. Disse Joana. O que foi que você ouviu?”

E depois contamina as grandes coisas: a necessidade de elaborar planos para que as mulheres nunca se encontrem. Um homem infiel nunca vive na paz dos inocentes. Na paz da mulher enganada. Um homem infiel é uma agenda ambulante. Para ele, um dia não é um dia: é uma estratégia de batalha, com horários fixos e medos infantis de que a porta do elevador possa abrir na altura errada. O stress e a ansiedade são simplesmente intoleráveis.

E se vocês acreditam que Borges ou Kafka eram dotados de criatividade, lamento informar-vos: não existe romancista que se compare à fértil imaginação do homem infiel. Porque ele produz e reproduz mentiras oralmente. Não as registra. Não as escreve. Ele funciona como os antigos rapsodos da Grécia, que sabiam Homero de cor e salteado. Isso exige um esforço de memória torturante para não arruinar a narrativa oficial com caprichos, ou esquecimentos, momentâneos. Um homem infiel tem de ser coerente até à insanidade.

Entendo que o auditório sinta uma simpatia imediata pela mulher enganada. Mas assistindo à confissão pública do governador de Nova York, alguém deveria afirmar, de uma vez por todas, que quando um homem engana uma mulher, quem mais sofre, normalmente, é ele. Do princípio ao fim.

(*) Colunista da Folha de S. Paulo

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