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Edição 22,558
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Um discurso tresloucado

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Data de Publicação: 25 de março de 2008
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José Reinaldo

Não sei como Roseana Sarney, filha de um presidente da República que governou por 5 anos o país, e ela mesma governadora do estado por quase 8 anos, pode se dar ao desplante de fazer, na tribuna do Senado, um discurso escrito, portanto de caso pensado, como o que fez na semana passada para um plenário vazio.

Como analisar uma coisa assim? O discurso tinha como tema: “Maranhão, terra das oportunidades perdidas”. Logo ela, filha mais importante de uma família que mandou e desmandou no estado por 40 anos!

Uma coisa é certa. Só no Senado ela poderia fazer tal discurso, pois o Maranhão não possui um senador para fazer o contraponto ao que dizem os Sarney. Na Câmara, ou em sessão do Congresso, onde ela posa de líder do governo, Roseana jamais se arriscaria em tal empreitada porque seria desmoralizada de pronto.

O seu pai, José Sarney, quando exerceu a Presidência da República, uma oportunidade imperdível para qualquer político que realmente amasse seu estado, jamais fez maior esforço para trazer para cá qualquer empreendimento industrial de vital importância para o desenvolvimento do Maranhão, embora nosso estado apresente condições inigualáveis para a siderurgia e para refinarias.

No governo Cafeteira, houve uma tentativa de trazer uma usina siderúrgica. Sarney era o presidente da República e os diretores da Usimar (Usina Siderúrgica do Maranhão) acharam que nada poderia impedi-los de concretizar essa grande vitória para o estado. Mas o presidente, contrariando todas as expectativas, em vez de ajudar, resolveu acabar com o sonho, pelo simples motivo do então governador Cafeteira ser antigo desafeto. A diretoria da Usimar estava na Itália para assinar os contratos com empresários italianos, e um enviado do presidente chegou de repente com a missão de abortar as assinaturas, o que foi feito sem muito trabalho. Afinal era o presidente da República que mandava dizer que o governo federal não tinha interesse na siderúrgica. Um dos diretores, inconformado, pegou o avião e foi direto falar com o presidente, achando que ele tinha sido traído por uma pessoa importante do governo. Mal abriu a boca para reclamar, foi interrompido pelo presidente, dizendo que o enviado era um patrimônio do país e que ele devia respeitar tal figura. O diretor compreendeu quem estava por trás da missão.

Na verdade, Sarney não lutou para trazer nada para cá. Nem montadora de automóveis, nem grandes indústrias, grandes instituições de ensino, complexos petroquímicos, centros de informática, nada que realmente mudasse o quadro de pobreza instalado no estado.

Poderia ter trazido se quisesse? Claro, o presidente Lula acabou de mostrar como se faz. Mandou instalar uma siderúrgica no Pará para dar uma força à governadora do PT e uma refinaria, a maior do país, em Pernambuco, sua terra natal. Era ele que deveria ter nascido aqui.

Depois, continuando sua obra implacável, Sarney impediu que a Vale trouxesse, junto com a Baosteel, uma grande usina siderúrgica para o estado, no meu governo. Já estava tudo assinado quando Sarney entrou na jogada. Técnicos da Vale avisaram que, infelizmente, a usina só poderia vir para o Maranhão quando Roseana estivesse no governo. Acima de tudo, uma mesquinharia, uma grande baixaria. E Roseana, pela sua importância familiar, a tudo acompanhava e anuía.

E Roseana, quando foi governadora, o que trouxe? Mesmo detendo muita força no governo federal, com irmão ministro de estado, não fez nenhuma tentativa para trazer a siderúrgica, nem a refinaria, nem tratou de trazer seriamente nenhuma grande empresa. E ela passou quase 8 anos no governo! E estava, “nem aí, seu Souza” - parafraseando nossa gente - para o esforço dos governadores do Nordeste em trazer o gasoduto, o que ajudaria na atração de empresas pesadas para o estado. O gasoduto parou no Ceará.

As duas fábricas que tentou trazer, a de confecções de Rosário e a “outra” Usimar, esta de fundição, acabaram em grandes escândalos, com processos ainda em andamento, pessoas inocentes endividadas e muito dinheiro público torrado misteriosamente. Uma verdadeira calamidade. E nunca funcionaram. De Rosário, sobraram os galpões e gente humilde endividada. Da Usimar, um calçadão que custou R$ 40 milhões. Um fenômeno!

Isso sem falar no caso da Bungue, que, por não aceitar sócios indesejados, foi para o Piauí. E assim o fizeram outras empresas que pensaram em vir para o Maranhão naquela época. As que vieram, chegaram pagando pedágio. O que ficou do seu governo para dar motivos para o discurso de Roseana? Ficou um estado falido, sem equilíbrio fiscal, endividado (paga-se quase R$ 60 milhões por mês) e vendas pouco transparentes de patrimônio do estado, como a Cemar, parte da Telma, aviões e a venda surrealista do Banco do Estado do Maranhão (o governo tomou R$ 333 milhões para preparar o Banco para a venda e, no final, o Banco foi vendido por R$ 78 milhões). E ela ainda se acha no direito de ler um discurso desses!

E a falta de ensino médio, a classificação do pior IDH do Brasil, da maior taxa de analfabetismo, da maior percentagem de excluídos, da menor renda per capita do Brasil etc. Tudo muito atrativo para empresários... Herança dos governos de Roseana.

Quem não acredita no empenho da família em boicotar benefícios para o estado basta lembrar do episódio patético - e explícito - da tentativa de impedir no Senado, sempre o Senado, de empréstimo do Banco Mundial de US$ 30 milhões para combate à pobreza. Naquela ocasião, eles tiveram que mostrar a cara e, afinal, fracassaram na infame tentativa.

Na revista Dinheiro Rural, que está nas bancas, há uma matéria muito positiva para o Maranhão. O título é “Maranhão - o Eldorado da Soja”. Diz assim: “O Estado atrai uma grande esmagadora, a ABC Inco, e, ao lado do Piauí e Tocantins, abre uma das mais promissoras fronteiras agrícolas do país”. Menos de um ano instalada, ela compra 35% da safra dos três estados, que já produzem 10% da soja brasileira. Foi um investimento de R$ 130 milhões. Esse importante empreendimento veio no meu governo, senadora Roseana.

E sabe o que disse o presidente da empresa no dia de sua inauguração, na presença de todos? Que quando veio falar comigo pela primeira vez, ele veio com medo porque a fama do estado era de que os governantes exigiam a indicação de sócios, sem capital, nos empreendimentos autorizados. E que ele suspirou de alívio quando só pedimos a ele que desse muitos empregos e trouxesse o desenvolvimento para o estado. A empresa, imponente, fica no Distrito Industrial, que criamos com o Deoclides Macedo (parabéns, amigo!), em Porto Franco. E eles estão anunciando, ainda neste ano, uma refinaria de óleo, acoplada à unidade do Maranhão, e um terminal portuário no porto do Itaqui.

Poupe-nos, Roseana!

O ex-governador José Reinaldo Tavares escreve para o Jornal Pequeno às terças-feiras.

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