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ColunasColuna do Othelino

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23 de março de 2008
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JM Cunha Santos (interino)

Teoria da troca de dores

1 – Dores de súditos e dores de reis

Grandes homens foram os que aprenderam a trocar de dores com seus semelhantes. É nessa troca que se concentra a essência una do ser humano. Ninguém será inadimplente nessa permuta, pois dores todo mundo tem, em maior ou menor escala.

Jesus Cristo trocou de dores com os pecadores. Gandhi deu muita dor em troca da dor provocada pelas injustiças inglesas na Índia. Onde houve dor, houve História e não se tem conhecimento da existência de heróis que não doeram ou fizeram doer.

Se é um professor, troque de dores com seus alunos; se é um filósofo, absorva o sofrimento que destila da filosofia de seus discípulos.

Não nos servem reis que não consumam as dores de seus súditos, nem permanecem súditos os que não conhecem as dores dos reis.

2 – De vítimas e algozes

Se acaso se sente sozinho, deve trocar um pouco de sua solidão com os que estão rodeados de amigos e pedir alguns amigos aos que muitos amigos têm.

Se é um bandido, troque sua arma com a ferida aberta no peito de sua vítima e talvez descubra que ser vítima é melhor que ser algoz.

Essa raiva que lhe alcança o peito pode ser trocada com o silêncio e a meditação dos monges que em orações buscam a salvação da humanidade.

Se é um ateu, troque um pouco de seu ceticismo com a fé que Deus tem em si mesmo. E, se não acredita mais em si mesmo, procure à sua volta alguém que possa e queira acreditar.

3 – Do tamanho da dor

Essa é a voz dos profetas que se ouve nas músicas e nas declarações de amor. A voz que não está no ruído das balas, nem na indecência da luta pelo poder; a que vem das almas dos poetas, imperceptível e magoada.

Não pode permanecer triste quem a vida inteira teve o direito de engolir o por do sol, de beber a chuva e mudar de caminho. Por isso, troque de dores. Sempre haverá pessoas achando que as dores delas são maiores que as suas ou que suas dores doem menos que as delas.

Que tal este que em praça pública maldiz a escassez de seu salário trocar de dor com o mendigo que nem salário tem?

4 – Indignação orgânica

Se troca você sua dor com a dor de um parto, imediatamente ganhará cheiro de vida. Você me dá sua dor e eu te dou a minha: só assim saberemos quem é mais capaz de amor.

São essas sentenças de um coração que viu a fome, a violência, as amputações. Proponho que se realizem tais negócios porque se sua dor é orgânica, é possível que queira trocá-la por uma paixão ou uma indignação. Mas se uma dor é romântica, pense na vida triste de quem sequer é capaz de sentir esse tipo de dor.

5 – A dor alheia

“Sedar a dor é obra divina”, disse Hipócrates. Ficar com a dor alheia, tomar conta da dor alheia é muito mais apaixonante. Deixe que eu tome conta da sua dor e tome conta da minha. Não há riscos, pois isso vai além de todas as proposições românticas e sentimentais que o ser humano conseguiu fazer em todos os séculos. Tanto que na Grécia antiga a dor era um ser independente, vivo, que se alimentava da vítima. E o mundo moderno criou novos tipos de dores. Tantos que a maioria de nós os desconhece. Trocar de dor, portanto, é também adquirir conhecimento.

6 – A passagem

Se, de verdade, a Páscoa é a abstinência do mal, o exercício da virtude e a vitória sobre a morte, abstenha-se de sofrer sozinho e de sozinho permitir que outro sofra.

Nesta passagem (Páscoa) de uma dor para outra dor pode estar o paraíso de todas as virtudes, o inferno de todos os pecados e o sepulcro final de todas as dores da humanidade.

Troque de dor. Foi isso que Jesus Cristo quis dizer quando sentenciou: “ama o teu próximo como a ti mesmo”.

(othelinofilho@yahoo.com.br)

(othelinoneto@yahoo.com.br)

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