POR JOSÉ LINHARES JR.
MUDANDO VIDAS
A primeira turma do programa, com 57 alunos, vai se formar no mês de julho deste ano
Em meados de 2007, Rosângela Aires Reis teve a melhor notícia de sua vida: conseguiu passar no vestibular da Universidade Federal do Maranhão (Ufma). Antes uma jovem normal de periferia, Rosângela agora possui metas concretas na vida, pretende concluir o curso superior e se especializar em sua área. Há dois anos, a jovem via a arte apenas como uma possibilidade. “Sempre gostei de coisas relacionadas à arte. Principalmente o artesanato”, disse.
A aprovação de Rosângela no vestibular para Educação Artística foi, por mais incrível que pareça, um resultado inesperado da Oficina Escola de São Luís. Destinado para ser um programa de auxílio aos jovens em situação de risco do centro de São Luís, o programa não visava, em momento algum, resultados tão positivos. Não só pelo exemplo de Rosângela, mas por dezenas de jovens que saíram de situações adversas e que podem, com esforço próprio, mudar a própria realidade.
O programa Oficina Escola foi desenvolvido pela secretária de Planejamento, Tati Palácio, e pela ex-presidente Fundação Municipal do Patrimônio Histórico, Carla Nunes. Em uma visita à Espanha, elas descobriram as Escuellas Taller.
Escuellas Taller – O programa atua na preservação do patrimônio cultural de São Luís e na formação e inserção laboral de jovens em situação de risco. O diferencial desta iniciativa é o fato de apoiar duas vertentes: a da intervenção nos bens culturais, que constitui o componente prático da atividade formativa e, por outro lado, a preservação e resgate de ofícios e técnicas tradicionais, muitos deles em extinção.
O modelo atual das chamadas Escuelas Taller surgiu na Espanha, em Aguilar de Campoo, idealizado por José Maria Pérez González, em 1985.
No ano de 1992, com a celebração do quinto centenário do descobrimento da América, o Programa foi trazido para a América do Sul e para a América Central pela Agência Espanhola de Cooperação Internacional (AECI), quando foram instaladas 28 escolas, sendo uma delas no Brasil: a Oficina Escola de João Pessoa (PB). Em 1996, foi instalada a Escola Oficina de Salvador (BA), e em 2005, a Oficina Escola de São Luís (MA).
Em São Luís, o projeto funciona como uma superintendência da Fundação Municipal de Patrimônio Histórico. Inicialmente foram selecionados 80 jovens em um total de quase 500 inscritos. Um dos requisitos para a entrada no programa é residir em bairros do centro da cidade. O programa beneficia jovens dos bairros Camboa, Madre de Deus, Lira, Belira, Desterro, Praia Grande, Liberdade, Diamante, Vila Passos, Canto da Fabril e Goiabal. São jovens na faixa etária dos 18 aos 23 anos. Na maioria das vezes alunos do curso de Educação de Jovens e Adultos (EJA).
De acordo com Cristiane Moraes, atual coordenadora da Oficina Escola, a localização geográfica é intencional. “Queremos formar estes jovens para o mercado de trabalho. Mais especificamente dentro da área de restauração. O objetivo uma profissão onde o jovem não precise sair do bairro para objetivá-la. Como o Centro Histórico carece deste tipo de mão-de-obra, a absolvição deles é muito provável”, explicou.


de seu tempo no Centro de Referência Azulejar, parceiro do projeto

Mas, quando se trata com pessoas, às vezes os projetos não se cumprem como o esperado. Dos 80 jovens que entraram no projeto, apenas 57 vão se formar na primeira semana de julho, um índice considerado alto para programas desta natureza.
O projeto oferece quatro habilitações distintas: alvenaria, marcenaria, carpintaria e azulejaria. Durante o curso, que dura dois anos, os jovens possuem formação teórica e prática. No começo do curso, o programa é centralizado em disciplinas voltadas ao desenvolvimento da cidadania. “Nós assistíamos aulas de planejamento familiar, empreendedorismo e economia solidária. Além disso, tínhamos consultas médicas e atendimento psicológico”, lembrou Rosângela.
A estudante também afirmou que as aulas de Português e Matemática foram fundamentais em sua aprovação no vestibular. “Esse reforço me ajudou muito mesmo. Nas aulas de História da Arte chegamos a discutir uma questão que caiu no vestibular”.
No decorrer do curso os alunos vão tendo a prática aumentada gradativamente, com a intensificação de disciplinas como: Técnicas Construtivas, Interpretação de Desenhos, Noções de Patrimônio e Material de Construção. “A intenção deste programa é desenvolver o jovem enquanto pessoa no início do curso. Posteriormente, as coisas vão se delineado com mais clareza e a parte profissional se insere no programa”, explicou Cristiane Moraes.
A rotina dos alunos se estende de segunda a sexta, e é integral. Eles entram as 7h30, tomam café da manhã, pegam os equipamentos e iniciam suas atividades. O almoço é servido pontualmente às 11h30. Às 14h retornam para a sala de aula e saem às 17h30. Para ajudar com despesas pessoais, os alunos recebem uma bolsa de R$ 300, mais seguro de trabalho e material didático.
Mudança – O que parece assistencialismo à primeira vista, também tem seu objetivo. “Eu nunca tinha trabalhado antes. Não tinha noção de dinheiro. A bolsa era repassada para nós, mas a Oficina dava aulas sobre como gastar o dinheiro de forma coerente. Isso é importante, nos ensina a ter responsabilidade”, disse Rosângela.
O pai da jovem, Osvaldo Pinho Reis, falou do comportamento de sua filha após a entrada no curso. “Ela mudou muito, e foi para melhor. Começou pela postura dentro de casa, depois pelas companhias. Esse curso saiu melhor do que a encomenda”, explicou.
Para Rosângela, antes das aulas de cidadania, da bolsa ou da formação profissional, o mais importante foi o acompanhamento psicológico. “Tinha aqueles problemas que todo jovem tem. O problema é que a gente às vezes se sente sozinho e acaba pensando besteira. Mas, com a Tainá Brito (psicóloga) as coisas foram mais fáceis. Somos amigas até hoje”, disse.
A disciplina também é um ponto forte da oficina. Os alunos recebem um regimento interno que enumera a conduta a ser tomada. “Isso é importante para mostrar autoridade. Contudo, alguns casos são diferentes e, às vezes, as coisas são flexibilizadas”, frisou Cristiane Moraes.
A coordenadora da Oficina citou o exemplo de uma aluna que faltava mais do que o permitido, e mesmo assim foi mantida no programa. “Ela era uma jovem usuária de drogas, um caso especial. O problema é que, mesmo com todos os esforços, perdemos ela”, lamentou.
Rosângela Aires Reis, aluna do curso de Educação Artística da Ufma, está entre os jovens que não vão se formar. Como passou para o vestibular, teve que se desligar do curso. “Os alunos tem que estudar em período integral. Esse é um pré-requisito impossível de ser dispensado”, explicou Cristiane.
AUXILIARES DE RESTAURO
A coordenadora técnica da Oficina, Natália Rossi, afirmou que nos últimos 20 anos o mercado de restauro no Maranhão tem se expandido. “A carência por mão-de-obra é muito alta”, explicou.
O arquiteto Jorge Tinoco, especialista em restauração, viu com bons olhos o crescimento do mercado em São Luís. “Há alguns anos as coisas eram lentas, notamos que agora se aceleraram mais. E, o melhor de tudo, o mercado cresce enquanto leva benefícios sociais para o povo”, disse.

Tinoco falou com a autoridade de quem possui mais de 30 anos de experiência. Além disso, faz parte do Centro de Estudos Avançados de Conservação Integrada de Recife, um centro de excelência na área.
O arquiteto foi convidado para dar aulas de paquetagem de tábuas. Técnica muito usada na recuperação de materiais deteriorados. O entusiasmo da turma chamou a atenção. “Eles possuem uma sede em conhecer mais coisas e em dar o máximo. Serão belos profissionais”.
E os jovens já cumprem seu papel. A sede da Oficina Escola, localizada em um galpão na Praia grande, está sendo recuperada por eles mesmos. A primeira turma está restaurando o prédio desde a fachada até os telhados, tudo para resgatar as características históricas do lugar. Uma outra parte do prédio deve ser concluída pelos alunos da segunda turma. “O trabalho está ficando muito bom”, elogiou Natália Rossi.
O serviço feito pelos alunos já desperta a iniciativa privada. “O Sindicato da Construção Civil (Sinduscon) deve fazer um convênio com os jovens. “E não é por caridade, mas pelo fato de eles saberem que estes serão profissionais especializados”, disse Cristiane Moraes.