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Um homem e sua história
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Um homem e sua história

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Data de Publicação: 2 de março de 2008
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Opinião

Enilton Grill Filho*

Dia desses estava conversando com meu pai e ele me falou de um homem e sua história. E a história não é uma seqüência tediosa de datas vazias e nomes solenes. A história é fluxo e é sangue. Ela abrange ricos e pobres, patrões e empregados, a salva e as cidades, o sertão e o mar, os bancos e as prisões. A história é épica; refulge nas batalhas e nas galés, nos plenários e nas veredas, nos quartéis e nos cadafalsos. A história frequentemente é trágica. E outras vezes é mágica. Faz voltar e voar o tempo.

Há um mundo. Há outro mundo. E há este mundo – o Terceiro Mundo. Há uma história que transborda das margens dos livros e outra que escorre pelo canto das bocas. E há também aquelas empoeiradas. Essas estão guardadas no baú do tempo. No fundo de todo mundo.

Desço pelas escadas empoeiradas de mim mesmo e vou, degrau a degrau, mergulhando na penumbra do porão. Puxo uma corrente e acendo uma lâmpada que dormia há muito tempo. Ali estão eles, no centro desse mundo gris. Nesse mundo de madeiras, escombros e teias de aranha. Ali estão eles, da mesma forma que eu os vi da primeira vez, quando eu ainda era um adolescente descobrindo os limites do meu mundo e do meu tempo. Quando eu tinha estampa. Não sem muito esforço ergo a tampa. Isso é mexer com o tempo. O ranger parece um lamento. De alguma forma é mesmo um lamento. Abre-se uma porta no tempo. Uma história vista e revista. Tempos eternos. Ali estão os meus cadernos. Bem no fundo, Cadernos do Terceiro Mundo.

Neles começou a ser contado um lugar importante. Importante, mas distante. Distante, esquecido e deslocado. Deslocado do mundo globalizado. Neles está contida uma história quase esquecida. Uma história terceiro-mundista. Lembrada, contada e dita por um jornalista.

Abro mais o baú e vejo um caramuru. Jogo tudo pro lado e surge o deputado. Uma centelha. Uma flor vermelha. Uma dor e o clamor e eis o escritor. Um escritor da vida da gente e do continente. Mais pra esquerda do coração, a paixão. No fundo do porão um relicário. Mas ele não é santo. É um visionário. Um incendiário. Um revolucionário. Ele é uma trincheira. Sua palavra é verdadeira. Uma eterna fogueira. Ele se chama Neiva Moreira.

*Pesquisador, radialista e ativista cultural

E-mail: eniltongrill@gmail.com

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