A Associação Nacional dos Membros do Ministério Público (Conamp) e o Conselho Nacional de Procuradores Gerais (CNPG) acabam de lançar o projeto “O que você tem a ver com a corrupção”, que pretende ser o início de uma mobilização nacional contra esse tipo de crime que custa ao povo brasileiro astronômicos 1,5 bilhão de reais, conforme aferiu Instituto Econômico Suíço.
De certa forma, tem sido a sociedade civil organizada que mais tem lutado contra o descontrole moral que se abateu sobre o país. A luta por transparência e ética nas gestões públicas, contra a extensão da prática de improbidades aos mais distantes rincões do Brasil é uma luta de todos. A ilicitude se tornou tão comum aos agentes públicos que já se incorporou às atividades normais da sociedade brasileira e é aceita como fato consumado, irreversível, inevitável, contra o qual nada podemos fazer.
O ideólogo da campanha, promotor Affonso Ghizzo Neto, de Santa Catarina, entende que isso ocorre porque a sociedade não percebe quantos morrem por falta desse dinheiro que desce pelo ralo da corrupção. Dinheiro que não pode ser investido em saúde, educação e nutrição.
A nova campanha é também de conscientização e pretende que a sociedade brasileira não mais aceite os pequenos atos e desvios, assim como não aceita o roubo de milhões. Pecam, talvez, os que se aliam à campanha quando falam em igualdade de direitos e de defesa. Sabemos que isso não existe no Brasil. O mais provável é que a polícia e a Justiça funcionem neste país muito mais para a proteção e defesa dos ricos.
Essa observação, entretanto, não deve servir de empecilho a uma campanha que deve ser de todos os brasileiros e à qual não apenas as instituições jurídicas devam se aliar. O povo brasileiro paga muito caro pela corrupção, principalmente a que o atinge fora do período eleitoral. Período que, afinal, suscita a maioria das denúncias de improbidades e desvios no Brasil. E essas denúncias feitas muito mais em vista de disputas políticas paroquiais que por consciência dos denunciantes.
A justeza do projeto, seu caráter de cidadania não desmentem o fato de que o incentivo à honestidade e transparência das atitudes do cidadão comum, tende a esbarrar na desonestidade das elites e das lideranças brasileiras.
Por outro lado, muitos políticos bastante destacados, a essas alturas dos acontecimentos, deveriam estar inelegíveis. Mas acontece precisamente o contrário. São denunciados, condenados em processos, cassados às vezes pelo próprio Congresso, mas retornam ao poder “nos braços do povo”.
Vão ser precisos muita inspiração, muito denodo, muita dedicação pessoal para que a campanha atinja seus objetivos finais. Se, de fato, a Justiça para ser boa começa pelos de casa, que se faça uma boa varredura nas gestões públicas do Brasil e se divulgue, sem restrições, todos os nomes dos que, de uma forma ou de outra, estiveram envolvidos em atos de corrupção. Pode ser que a partir daí o cidadão comum entenda a real utilidade do projeto.