Arleth Borges
Com as honrosas e esperadas exceções, a cobertura de algumas revistas brasileiras sobre a renúncia de Fidel Castro ao comando do governo cubano é tão escassa em rigor jornalístico que mesmo a leitura mais desesperançosa, salta aos olhos não a crítica bem informada, mas a parcialidade intolerante inscrita – e escrita – diante de qualquer coisa que não seja a “sagrada” liberdade de comércio e a defesa de uma concepção política tosca segundo a qual democracia não passa de competição econômica e culto ao consumo. Nestas, o fio condutor que orienta o balanço da revolução (no duplo sentido) é a desqualificação moral de Fidel Castro e a insistência em apontar supostos aspectos “desregrados” de sua vida privada como explicação para a “degeneração” que estes periódicos afirmam haver em Cuba sem que se dêem ao trabalho de apresentá-la com o devido apuro no levantamento de informações e fontes e sem sobriedade na análise.
É certo que nada há de admirável na permanência da mesma liderança no comando político de um país por quase 50 anos; em restrições ao direito de ir e vir e à liberdade de imprensa e de organização; no baixíssimo crescimento econômico de Cuba; no racionamento de alimentos e outros produtos de primeira necessidade; na dualidade de moedas internas, sendo a dos cubanos a mais fraca. Não é admirável, sobretudo, a pouca confiança das elites dirigentes em relação às convicções socialistas do próprio povo, supostas demasiadamente frágeis ante qualquer contato com o mundo capitalista.
Mas por que não dizer também que Cuba possui um sistema eleitoral que possibilita amplo direito de participação e que as candidaturas aos cargos representativos não dependem do partido e estão ao alcance de qualquer eleitor? Por que não analisar que, malgrado a pobreza do país, Cuba possui um dos melhores índices de desenvolvimento humano? Por que não esmiuçar as conseqüências do bloqueio econômico imposto há 45 anos pelos Estados Unidos? Por que não reconhecer que é admirável a convicção e a garantia da autodeterminação de Cuba, mesmo em circunstâncias de extrema pobreza, como ocorreu imediatamente após a dissolução da União Soviética e do bloco socialista? Por que não enfatizar que Raul Castro, como Fidel, sempre esteve na linha de frente das lutas do povo cubano e que, portanto, a sua eleição não decorre de “filhotismo” político (tão caro à tradição “democrática” brasileira)? Por que não considerar a superioridade ética e moral de valores centrados na dignidade humana em comparação àqueles centrados na superioridade do dinheiro?
Compreendo que a comparação entre Cuba e as sociedades chamadas democráticas esbarra em sérias limitações teóricas e políticas, afinal eles fizeram e sustentam uma revolução de caráter comunista, enquanto “nosotros” somos liberais ou neoliberais empedernidos. Mas, para não resvalarmos para o cinismo, impõe-se também refletirmos sobre o que há de substantivo na nossa riqueza e democracia. Sucessivos relatórios da ONU apontam que apesar de inusitados investimentos no combate à pobreza e de extraordinários “boom” de crescimento em alguns países, a pobreza e a desigualdade tem crescido assustadoramente no mundo (diz um recente exemplar da revista Exame que “algo como 800 milhões passam fome. Em 1988, os 5% mais ricos da população mundial ganhavam 78 vezes mais que os 5% que estavam no fundo do poço. Hoje, a diferença é de 200 vezes”); no campo político, são visíveis os sinais de enfraquecimento das instituições chamadas democráticas, como os partidos e instituições representativas, cada vez mais mergulhadas em corrupção, personalismo e propaganda. O que dizer do país que, reivindicando-se símbolo da liberdade e maior potência econômica do mundo democrático, se permite transgredir regras democraticamente estabelecidas para invadir e massacrar outro país menor em nome de ideais particulares e escusos? Como não ver que, no âmbito doméstico da maioria dos ditos países democráticos, os ricos são aceitos como acima das leis? Tudo isso é parte do que temos e do que não podemos nos apartar, por mais que as intenções e gestos sejam ou tenham sido outros.
Reconhecer tais contradições em meio a uma reflexão sobre Cuba não significa advogar o caolho para um mundo de cegos, mas sinalizar para as complexidades que envolvem tais problemas, tanto entre nós “democratas” como em Cuba.
Arleth Santos Borges é Doutora em Ciência Política, professora de Sociologia e Antropologia da Ufma e escreve para o Jornal Pequeno quinzenalmente (sextas-feiras).