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As cinzas de Vieira

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Data de Publicação: 12 de março de 2008
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João Batista Ericeira*

Antonio Vieira, no sermão da Quarta-feira de Cinzas da quaresma de 1670, proferido na igreja de Santo Antonio dos Portugueses, em Roma, no início assegurava: “o pó em que nos haveremos de nos converter é visível, (está à vista), mas o pó presente, o pó que somos, como poderemos entender essa verdade?”. O pregador continuava dissertando sobre a efemeridade e fragilidade da vida terrena, e sobre a certeza da vida eterna. No seu tempo, a Igreja Católica e o Império português, as duas instituições a que servia, eram os centros da vida pública. O Brasil começa a ser povoado, intensificava-se a exploração da cana-de-açúcar, do algodão, que fariam a fortuna dos senhores de engenho. A vida privada desenvolvia-se nas casas grandes e senzalas, como descreveu Gilberto Freire.

A metrópole fazia-se presente na pessoa dos representantes do rei, donatários de capitanias, governadores, com séqüito armado; de funcionários da Justiça, e dos padres jesuítas, ordem religiosa do notável pregador, nascido a 6 de fevereiro de 1608, em Lisboa.

Com a idade de seis anos, sua família deixou a capital do Império para sediar-se na Bahia, pois seu pai, funcionário do reino, desde 1609 exercia o cargo de escrivão do Tribunal da Relação. Criou-se em Salvador. Completados quinze anos ingressou no Colégio dos Jesuítas. A invasão holandesa obriga a comunidade jesuítica a refugiar-se em uma aldeia indígena, em seguida, transfere-se para o Colégio da ordem religiosa em Olinda, onde principia a ensinar retórica, a arte em que se tornou inigualável. Ordena-se sacerdote em dezembro de 1634, ponto de partida de uma carreira ascendente que o faz ser nomeado pregador régio dez anos depois, diplomata, desempenhando missões junto aos governos da França e da Holanda, com vistas a devolução das terras da colônia invadidas pelos holandeses de denominação protestante.

O padre Vieira caiu nas graças do rei de Portugal, Dom João IV, a quem induz a criação da Companhia Geral do Comércio do Brasil, com o fito de desenvolver a colônia, alvo da cobiça internacional, pela potencialidade de suas matérias-primas.

Para explorá-la, atraiu o capital judaico, negociou o repatriamento de judeus, fugidos da península ibérica pela perseguição movida pelo Tribunal da Inquisição. Tornou-se alvo dos inquisidores portugueses, que o processaram acusando-o de heresia, pelas teses condescendentes em relação ao capital a aos juros, mas, sobretudo pelo exercício do dom da profecia. Por ele, o Império Mundial cristão, luso-brasileiro, seria sediado no Brasil. O breve tempo de vida de um homem é curto, assim, Dom João IV, seu protetor, ressuscitaria para governar por longo período de paz entre os homens de fé católica do ocidente.

Vieira possuía efetivamente o dom da profecia, que consiste em antever o futuro. Duzentos anos depois do seu nascimento, em 1808, a sede do Império português, transfere-se para o Rio de Janeiro com o traslado do príncipe real, depois D.João VI e família imperial para o Brasil. Os historiadores são unânimes em sustentar a tese de que a mudança da família real para a colônia brasileira garantiu a integridade territorial e política de Portugal e do Brasil, transformados em Reino Unido a Algarves.

Portugal só pôde manter-se independente por força das riquezas da colônia, dela explorou os produtos agrícolas, o ouro, arrecadou impostos, que garantiram a integridade territorial, política e lingüística do hoje indiscutível mercado lusófono.

A unidade cultural e lingüística do Brasil, Portugal, e paises de língua portuguesa da África, da Ásia, comunidades que falam a língua em todas as partes do mundo, é essencial para a preservação futura do idioma e de sua cultura, em que se inclui a fé cristã.

Em sua compreensão, o 5º Império Mundial era o Estado luso-brasileiro, mero instrumento da propagação da fé católica, da construção do reino eterno, já que o desta terra é feito de pó, dos homens de agora e dos de amanhã.

Na verdade, Vieira, afrodescendente, que falava português com sotaque baiano, é um dos principais construtores da língua portuguesa. Gênio político teve a antevisão do fenômeno da globalização. Pregou nos púlpitos da Bahia, do Maranhão, como visitador da Companhia de Jesus, denunciando os vícios dos colonos. Extasiou o papa, a Rainha Cristina da Suécia, de quem recusou o convite para ser confessor.

Na última quarta-feira de cinzas, comemorou-se os 400 anos do seu nascimento. Em relação a ele se pode assegurar: seu corpo retornou ao pó de onde veio, como verberou no sermão de cinzas de 1670, mas a sua palavra é eterna, como se pode comprovar com a sobrevivência da nossa pátria, a língua portuguesa, no dizer de Fernando Pessoa.

*Advogado, professor universitário, diretor da EFG-MA

jbericeira@veloxmail.com.br

jbericeira.blogspot.com

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