Kyllma Bandeira de Melo*
Há mulheres, nada meninas, que vertem lágrimas forjadas para barganhar suas conquistas. Em excepcional, há mulheres meninas cujas lágrimas não são ofertadas em vão: as confortam em seus percalços e as enaltecem em suas vitórias. Essas paladinas não desperdiçam seu tempo na atmosfera malsã das futilidades, desprezam as palavras gastas pelo senso comum e reagem com asco aos que preferem a desfaçatez, as intrigas e as lamúrias em lugar de mérito. E ao abdicar à tutela do macho provedor, renunciam também uma existência vazia e obtusa, de ócio e caprichos. E com pés desnudos — porque muitos são os pedregulhos — e a sutiliza dos punhos de aço, aferram suas convicções a proposições nobres, em favor da humanidade e em detrimento do stablishment. Lutas distintas, premissas semelhantes: o feminino não é desculpa, nem o masculino vilão. Neste chão de indeléveis estrelas, figuram nomes como Maria, Golda, Joana, Isadora, Marie, Anita e Francisca, entre tantas outras. Todas aceitaram o ônus e o bônus de escolherem o caminho indicado pelo ditado espanhol: “Honra y provecho no caben en un saco” (honra e proveito não cabem no mesmo saco). É nisto que consiste a virtude de tais mulheres.
Maria Firmina dos Reis foi uma professora e escritora negra, maranhense, autora de uma obra pioneira: Úrsula, primeiro romance abolicionista escrito no país por uma mulher, no ano de 1859. Apesar da relevância do feito, pouco se escreveu sobre esta mulher. E se o Brasil não tem memória, o Maranhão não poderia ser menos senil quando se trata de registrar e honrar as pessoas que lapidaram sua própria história.
Golda Meir, de humilde família judaica, é considerada fundadora do Estado de Israel. A pobreza, no entanto, nunca ameaçou a determinação com que trabalhou pela causa Sionista. Permaneceu firme em sua posição no momento mais dramático: a Guerra do Yom Kippur, na qual tropas egípcias e sírias atacaram Israel, cuja população estava distraída pelas comemorações do Dia do Perdão judaico. Por merecimento, foi Ministra do Trabalho e primeira-ministra de Israel, por cinco anos. E só deixou a militância por seu povo vencida por um câncer, aos 80 anos de idade.
Maria Aragão, maranhense de Engenho Central , formou-se médica no Rio de Janeiro após concluir com muito esforço o curso normal em São Luís. Ainda no Rio, perdeu a mãe vítima de câncer. No Rio Grande do Sul, onde conseguiu o seu primeiro emprego como médica, chorou a perda da filha Clarice, aos dois anos. Entrou para o PCB após assistir a um comício do partido ao lado do poeta chileno Pablo Neruda e do líder comunista Luis Carlos Prestes. De volta ao Maranhão, iniciou um trabalho de conscientização pelo interior do Estado, onde enfrentou o preconceito ao ser difamada como prostituta e besta-fera, comedora de criancinhas. Chegou a ser apedrejada na cidade de Codó. Foi presa pela primeira vez em 1951 ao final de uma greve. Não sem antes resistir: ao ser agarrada com violência, chutou as partes íntimas de um policial e puxou a barba de um chefe de polícia. Em maio de 1973 foi levada pela polícia federal para Fortaleza onde foi barbaramente torturada. Passou o natal de 1977 reclusa na penitenciária Pedrinhas. Após ser solta em 1978, passou a lutar contra as mazelas da ditadura militar, tais como a tortura e a humilhação; e pelos direitos dos encarcerados. Como médica também trabalhou junto à população pobre pela prevenção do câncer e das doenças sexualmente transmissíveis. Morreu em julho de 1991.
Joana D’Arc, a donzela de Orléans, filha de camponeses de Domrémy, não sabia ler nem escrever. Mas sabia orar, e o fazia com fervorosa devoção. Recebeu dos Santos, enviados por Deus, a missão de livrar a França do julgo inglês na Guerra dos Cem Anos. Cortou os cabelos, vestiu-se como soldado, empunhou uma espada, abraçou uma flâmula e liderou um exército de 4 000 homens, tornando possível a coroação de Carlos VII. Morreu queimada na fogueira da inquisição antes de completar 19 anos. A acusação: heresia, bruxaria e blasfêmia. A retratação: 500 anos depois de sua morte foi canonizada pelo papa Bento XV, sendo assim reconhecida santa. Em 1922 foi declarada padroeira da França. Alguns livros biográficos relatam que após arder em chamas, no meio de suas cinzas permanecia intacto o coração da donzela. Para espanto e comoção dos carrascos. Cinzas e coração foram jogados no rio Sena logo depois.
Isadora Duncan nasceu em solo americano, mas seu espírito livre repudiava grilhões nacionalistas. Muito cedo declarou aversão à ditadura das sapatilhas, dos espartilhos e do casamento, e conquistou o mundo com sua dança moderna. Para o movimento não havia limites e o os gestos eram capturados no desenho das nuvens, na direção do vento, na agitação das folhas, das ondas do mar e na cadência do canto dos pássaros. Nas coreografias-solo apresentava-se descalça e vestida de túnicas de seda, e utilizava músicas não apropriadas para a dança, como peças de Chopin e Wagner. Chorou, dançando, a morte de seus dois filhos pequenos num trágico acidente de carro. Isadora morreu pouco tempo depois, estrangulada com violência quando a echarpe que envolvia seu pescoço esvoaçou agitada pelo vento e enroscou-se numa das rodas traseiras do carro esporte em que passeava.
Marie Curie nasceu em Varsóvia, capital da Polônia em 1867. Pobre, teve que trabalhar desde jovem para ajudar a família, até conseguir se mudar para a França. Licenciou-se em primeiro lugar em Ciências Matemáticas e Físicas, na Sorbonne. E foi a primeira mulher a lecionar neste prestigiado estabelecimento de ensino. Também é a única pessoa do mundo a ser agraciada duas vezes com o prêmio Nobel. A primeira, com o Nobel de Física em 1903 por suas descobertas no campo da radioatividade (naquela altura ainda um fenômeno pouco conhecido). Depois, com o Nobel de Química em 1911 pela descoberta dos elementos químicos rádio e polônio. Foi ainda a fundadora do Instituto do Rádio, em Paris. Em 1922 tornou-se membro associado livre da Academia de Medicina. Com ajuda da União das Mulheres Francesas construiu ainda o primeiro centro radiológico volante. Marie morreu em 1934 de leucemia devido à exposição maciça a radiações durante o seu trabalho.
Anita Garibaldi, cujo nome de batismo era Ana Maria de Jesus Ribeiro, nasceu em Laguna, em 1821. Foi companheira do revolucionário Giuseppe Garibaldi, sendo conhecida como a “Heroína dos Dois Mundos”. Comabateram juntos em Santa Catarina (Revolução Farroupilha), Rio Grande do Sul, Uruguai (Montividéu) e Itália. Uma das provas de sua determinação e coragem foi dada na batalha de Curitibanos quando Anita, prisioneira, convenceu o comandante do exército imperial a deixá-la procuarar o cadáver do marido, supostamente morto na batalha. Aproveitando um instante de distração dos guardas, tomou um cavalo e fugiu, atravessando a nado o rio Canoas até chegar ao Rio Grande do Sul, onde encontrou Garibaldi. Grávida, com febre e perseguida pelo inimigo, morreu numa fazenda em Ravenna, na Itália.
Francisca Edwiges Neves Gonzaga, mais conhecida como Chiquinha Gonzaga, nasceu no Rio de Janeiro, em 1847. Além de compositora e pianista, foi a primeira chorona (pianista de choro) e a também a primeira mulher a reger uma orquestra no Brasil. Filha de um general do Exército Imperial e de uma mãe humilde e mulata, Chiquinha Gonzaga foi educada numa família de pretensões aristocráticas (seu padrinho era o Duque de Caxias). Separou-se do marido, num casamento imposto pela família, para dedicar-se ao seu grande amor: a música popular. Em 1897, tornou-se conhecida sua versão estilizada do “Corta-Jaca”, sob a forma de tango, intitulada Gaúcho. Dois anos depois, compôs a marcha Ó Abre Alas, a primeira música escrita para o carnaval de que se tem notícia, para o bloco “Cordão Rosa de Ouro”. Ao todo, compôs músicas para 77 peças teatrais e assina a autoria de aproximadamente duas mil composições. Chiquinha participou ainda, ativamente, da campanha abolicionista. E foi fundadora da Sociedade Brasileira de Autores Teatrais.
Essas mulheres singulares são atemporais. Por princípio não se ocupam de maledicências que vulgarizam o espírito, não professam falsa fé em promessas débeis, não levantam bandeiras carcomidas por moralismos de embalagem, não usam máscaras que engessam sorrisos e intenções, cujos dentes, embora camuflados, se postam muito bem arreganhados para abocanhar privilégios.
Todas seguem suas trajetórias alheias às dicotomias: Amélias ou Pandoras; matronas ou prostitutas, Ganga-Grama (demônio fêmea, na mitologia indiana) ou Yazata (divindade angélica, gênio benfazejo, na mitologia persa). O que importa é que “a ação é bela”, como afirma Umberto Eco, conquanto inventis aliquid addere facile est [é fácil acrescentar algo ao que já foi inventado]. Na ação genuína destas mulheres há uma comichão produtiva, que clama por mudança e tão bem traduzida nos versos de Hilda Hilst:
“Ah, por que me vejo vasta e inflexível
Desejando um desejo vizinhante
De uma fome irada e obsessiva?”
*Jornalista. Março, 2008
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