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SEBASTIÃO NERY

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Data de Publicação: 11 de março de 2008
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VIVER SEM MEDO

Velho, muito velho, terno sempre azul e cabeça toda branca, seu Manuel era uma figura querida e conhecida sobretudo em Teresópolis, mas também em Petrópolis: revendedor há muitos anos da Loteria Federal. A sorte só chegava a Teresópolis e às vezes a Petrópolis pelas mãos já mirradas do seu Manuel.

Depois que o presidente Geisel deixou o governo, seu Manuel arranjou mais um freguês permanente para seus bilhetes: Geisel. Toda extração, ele levava um bilhete inteiro para o sítio dos Cinamomos, do ex-presidente. Era venda segura e a comissão certa.

GEISEL

De repente, Geisel passou a receber do Rio, toda semana, diretamente da Caixa, cinco bilhetes inteiros. Como essa era a cota mínima de um revendedor, o ex- presidente ganhava o desconto de revendedor e seu Manuel perdia sua comissão. Mas não se queixava:

- Quem pode, pode. E ele tem sorte. Uma vez ganhou.

Um cliente de Petrópolis lhe perguntou:

- Seu Manuel, por que o senhor não se queixa lá na Caixa?

- Porque tenho medo.

- Mas o homem já não é mais presidente.

- Eu sei. Ele saiu do governo, mas meu medo do governo ficou.

PAULO ANTONIO

Nesse fim de semana, em Itaipava, na histórica “Adega dos Frades”, um grupo de políticos, jornalistas, empresários, relembrava os tempos de medo da ditadura. Paulo Antonio Carneiro, diretor do “Diário de Petropolis”, então jovem dirigente do MDB municipal, revendo seus papéis, encontrou umas laudas escritas à mão. A letra é minha.

Candidato em 1974 a deputado federal pelo MDB do antigo Estado do Rio,em dobradinha com o vereador Carlos Portella candidato a estadual, os dois então bem jovens, com menos de 30 anos, Paulo Antonio me pediu algumas sugestões para sua primeira aparição no horário do TRE na TV.

O SNI fazia uma pressão brutal, no Tribunal Regional Eleitoral, contra os candidatos do MDB, censurando-lhes os pronunciamentos, sobretudo dos mais jovens e aguerridos. Era preciso ser rápido no gatilho e aproveitar bem aqueles rápidos instantes, com declarações curtas e fortes.

ILHA DO MEDO

Paulo Antonio foi para a TV com uma pequena lista delas no bolso. Na sua vez de falar, reviu,memorizou e começou exatamente pela primeira:

“Democracia não é só ter eleição de quatro em quatro anos. Democracia é viver sem medo”.

Na mesma hora, saíram os três do ar: o programa, Paulo Antonio e a frase. Dias depois, também eram vetadas e saíram da lista eleitoral do MDB fluminense as candidaturas dele e de seu fiel companheiro Portella.

Seu Manuel da Loteria sabia que, nas ditaduras, governos saem, mas o medo fica. Governantes são trocados, mas o medo continua. Cuba não é uma democracia, é uma ditadura, não só porque não tem eleições (há uma farsa de eleições), mas porque lá todo mundo vive com medo. Até o Raúl.

Fidel saiu, ficou Raul, e Cuba permanece a mesma ilha do medo. Não podemos aceitar a América Latina como o continente do medo.

ALAN KARDEC

Durante meses, uma surpreendentemente ampla frente política, do PT, PMDB, PTB, PC do B, sindicalistas, tentou tirar Paulo Roberto Costa, há muito tempo indicado e sustentado pelo PP, da poderosa diretoria de Abastecimento da Petrobras, e substituí-lo por Alan Kardec, um ex-subordinado dele, hoje assessor do presidente Sergio Gabrielli.

Sem querer briga com o PP, mas precisando dar a Alan Kardec um cargo importante de diretoria, Lula foi obrigado a anunciar e criar uma empresa subsidiária da Petrobras para cuidar de biocombustiveis e etanol, e colocar em sua presidência e comando exatamente o Alan Kardec.

De onde vem essa não mediúnica nem reencarnada, mas muito concreta força do Alan Kardec, que ganhou uma empresa criada só para ele? Há meses eu sabia, não por ele, que não conheço, mas tinha um compromisso de segredo da fonte. Agora que ele venceu, posso revelar.

O Kardec representará mais uma força política que, a rigor, nada tem a ver com a frente do PT, PMDB, PTB, PC do B, sindicalistas etc. usada para apoiá-lo, e que Lula resolveu trazer para seu governo: a Maçonaria.

A indicação foi só dela, o trabalho nos subterrâneos políticos foi dela. Desde o Império, a Maçonaria é misteriosa, mas sempre poderosa.

ERRADO

Quando Carlos Alberto Direito foi nomeado para o STF, eu disse aqui: ele é Direito no nome e na vida. Agora, depois de três anos que a lei das células-tronco foi aprovada na Câmara e no Senado, já exaustivamente discutida no país anos e anos a fio, ele interrompeu a votação no Supremo Tribunal, depois do belo, didático, sábio, magistral voto do relator ministro Ayres de Brito, alegando que precisava estudar mais. Um Direito errado.

A vida inteira ele só ouviu duas pessoas e duas instituições: os ex-ministros Ney Braga e Golbery do Couto e Silva, e a CNBB e a PUC. A Ney e Golbery é muito pouco provavel que a esta altura ele tenha acesso. A CNBB e a PUC vão continuar pressionando-o para que se sente em cima.

Só há um problema: ele é ministro do STF e não da CNBB e da PUC.

(www.sebastiaonery.com.br)

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