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O conflito amoroso entre os personagens centrais de 'Cais da Sagração', de Josué Montello
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O conflito amoroso entre os personagens centrais de 'Cais da Sagração', de Josué Montello

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Data de Publicação: 24 de fevereiro de 2008
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Opinião

Jorge Leão*

Em “Cais da Sagração”, obra do romancista maranhense Josué Montello, do ano de 1971, observa-se a construção de um enredo dramático, centrado na vida de um personagem chave, o pescador Mestre Severino, em que valores sociais e conflitos psicológicos surgem lado a lado no processo complexo de seu desenvolvimento.

Inicialmente, um aspecto interessante é a construção do tempo na obra. A sua apresentação é envolvida por quebras constantes no núcleo da memória individual do personagem-chave. É possível considerar então que o tempo, em “Cais da Sagração”, não segue a linearidade de acontecimentos que se sucedem um após outro, como num encadeamento de fatos históricos narrados de modo estanque. Ele se processa psicologicamente. Os fatos vividos pelos personagens não constituem um arquivo de memória, mas objeto de uma construção subjetiva do narrador.

Assim, o autor inicia a história a partir das crises fortes no peito do pescador, dores cardíacas que o levam ao médico1 . A partir de então, Mestre Severino vê-se diante da lembrança de Vanju2 , mulher vistosa, com quem ele pretende se casar na igreja, entrando a noiva com véu e grinalda, pedido que recebe a recusa do Padre Dourado. Aqui é possível observar um outro aspecto interessante da obra, isto é, o constante conflito de valores existente entre as idéias dos personagens e o contexto social estabelecido, neste caso específico, a doutrina religiosa da Igreja Católica.

Na subida que o levaria ao Largo da Matriz para a consulta, outro corte abrupto em sua memória; ele se lembra da primeira noite de amor com Vanju em seu barco. Ele a amou naquela noite inesquecível. A beleza da mulher surge como sinal explícito de um sexo carnal e consumado pelo desejo da satisfação do prazer. Naquele dia, ele prometera casar-se com ela, “no juiz e no padre”, nas leis dos homens e na lei de Deus.

Contudo, na chegada ao consultório, o médico, Dr. Estêvão, diagnosticou uma grave lesão no coração de Mestre Severino, proibindo-lhe terminantemente de viajar por, no mínimo, seis meses. O pescador, vindo de uma família de pescadores, herdara a honra de navegar no mar como ofício para toda a vida, apenas interrompido pelos anos de cadeia3 . O seu barquinho, o “Bonança”, representava mais que um instrumento de trabalho, era, na verdade, um companheiro inseparável.

Assim, Mestre Severino desconsidera a receita médica, rasgando-a raivosamente, apressando “o passo na descida da ladeira”. Ele desafia a própria morte, encorajando inclusive o seu amigo “Faísca” a reagir diante da doença que se instalara em seu corpo, dizendo-lhe que “sem eu estar de acordo, a morte não me leva”. Observa-se, com isso, que Mestre Severino encarna o espírito destemido de quem não se entrega fácil, um homem teimoso, que insiste em viver a vida considerada por ele a mais correta e digna, mesmo que para isso seja necessário não oferecer credibilidade à autoridade científica instituída, representado pela medicina oficial do Dr. Estêvão.

Mestre Severino comunica a Lucas Faísca que irá a São Luís. Este responde que Mestre Severino não está em seu juízo normal. Ao que responde, destemido, o velho pescador: “se eu ficar outra semana em casa, acabo como você, a pensar que não tenho mais jeito. Não, isso não! Ainda tenho força no braço, posso levar perfeitamente o meu barco. Posso-lhe garantir que vou e volto”4 . Tais palavras são emblemáticas, ao se tratar do traço de personalidade do velho pescador.

Outra mulher marcante da obra é a personagem “Lourença”, que vive este drama: ser submissa, ou fazer tudo por amor? Este impasse nos salta aos olhos quando Mestre Severino anuncia à Lourença que vai se casar5 , e ela ingenuamente pensa ser com ela; ao que ele responde não ser ela a escolhida, mas uma “conhecida” de São Luís. Lourença, em estado de completa desolação, muda-se de quarto, passando a noite em claro, numa insônia devastadora.

Lourença, então, de maneira resignada, considera que: “a culpa é minha, de mais ninguém”. Isto é, ela aceita a posição submissa de mulher obediente, e passa a preparar a casa para a chegada de sua “substituta”, com dois dias de antecedência. Fato suficientemente plausível para considerar a sua condição de acatar de modo incondicional as determinações de Mestre Severino.

Eis então que surge a imagem da mulher irresistível, mulher da cidade, de nome Vanju. Como nova moradora, chega com sua beleza imponente, dando claros sinais de vir para ficar. Lourença, ao vê-la, mais uma vez se culpa do fato ocorrido: “se eu tivesse um filho, nada disso tinha acontecido”. A sua reação incide a pôr-se a espionar Vanju, aumentando ainda mais a sua dor, de quem não poderia competir com a beleza da nova moradora, que, “mesmo sem se arrumar era bonita”...

Vê-se, com isso, que a situação de Lourença era humilhante, pois agora estava ela na condição de serviçal, diante do casal a saciar-se na mesa do jantar, depois do amor consumado pela volta do Mestre Severino. A sua diligência para com ele agora tramitava as órbitas de uma relação subserviente, onde o cenário figurava em torno de duas personagens principais, e ela, de modo atento e imediato, guardava os bastidores, providenciando todos os elementos cênicos para a concretização do espetáculo montado. Ou seja, a platéia aplaudiria dois atores que tinham tudo a seus pés, sem qualquer esforço ou trabalho. Era certamente a entrega a uma vida determinada pela posição dominante de Mestre Severino. Lourença retrata em sua condição a posição de um papel social pré-determinado como mulher serviçal. Ela não questiona, apenas acata, internalizada pelo suplício de um amor jamais correspondido.

No, entanto, como para quebrar a ordem rotineira das coisas, o inesperado aconteceu, Vanju estava grávida. Ela jamais desejou tal condição. Embora este fosse o sonho de Mestre Severino, ter um filho herdeiro de seu barco. Entretanto, Vanju dá à luz uma menina, a Mercedes, o que deixa Mestre Severino profundamente desapontado. Torturado pela notícia, ele vaga em seu estado de ruína, perguntando a si mesmo: “sem outro homem na família, a quem entregaria o Bonança...?”6 . Tudo parecia ser fruto de um “capricho da sorte adversa, interessada em castigá-lo”7 . Inconformado com a notícia, Mestre Severino reage, pedindo a Vanju outro filho, ao que ela responde negativamente, dizendo que bastava o que já havia passado durante o primeiro parto. São as palavras de Vanju: “Não, isso não! Basta o que sofri. Pelo amor de Deus, não me fale de outro parto. Sei que morro, se tiver outro filho”8 .

Vanju, não aceitando a condição de mãe provedora, diz a Lourença que ela deve cuidar de sua filha, pois tem o jeito certo para isso. Lourença era a pessoa mais indicada para assumir tal papel. Ela fazia tudo com imenso desvelo pela criança, enquanto que Vanju, pouco a pouco, restituía a si a condição de mulher vaidosa, tratando de ler suas revistas, e voltando a usar os seus vestidos estampados. Assim, Vanju decide que a criança passaria a dormir no quarto com Lourença, e que no dia de seu batismo, ela seria a “madrinha de carregar”. Apesar de toda humilhação, Lourença sentia a menina como se fosse filha sua, restituindo a si a paz com a vida, “embora continuasse calada”.

Assim, entre a condição fatídica de sua submissão e a possibilidade de ligação afetiva com a criança, mais uma vez Lourença resolve seguir a força objetiva dos acontecimentos, como um destino inexorável a pesar sobre seus intentos. Mestre Severino, impulsionado pelo desejo de afirmar-se como chefe da casa, não esconde a tênue condição de serviçal de seu sentimento nutrido pela bela Vanju. E esta, como a dominar a situação, situa-se na condição de mulher desejada e ao mesmo tempo repudiada. Desse modo, o conflito amoroso em “Cais da Sagração”, ilustrado por estes três personagens, surge como a apresentar-nos a imagem do amor como um sentimento humano, ambíguo, marcado por disputas e jogos de poder, situado dentro de um determinado contexto social, e também arriscado e desafiador, para todos aqueles que dele se valem, nesta misteriosa e amarga condição de seu desejo.

BIBLIOGRAFIA CONSULTADA

MONTELLO, Josué. Cais da Sagração. 5.ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1981.

1 Cf. Cais da Sagração, Capítulo I.

2 Idem, Capítulo II.

3 Mestre Severino será preso durante 22 anos pelo assassinato de Vanju.

4 Cf. Cais da Sagração, Capítulo IV, p. 49.

5 Idem, Capítulo V.

6 Idem, Capítulo VI, p. 59.

7 Ibidem.

8 Idibidem, p. 60.

*Professor de Filosofia do CEFET-MA e membro do Movimento Familiar Cristão, em São Luís-MA.

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